A armadilha das opiniões no mundo polarizado

O ano de 2026 começou com a impactante notícia da operação militar dos Estados Unidos na Venezuela e um padrão já conhecido: a divisão do debate público entre esquerda e direita, com influenciadores publicando em seus perfis análises fragmentadas – mas virais – de uma conjuntura complexa.

Não demorou muito, também, para que jornais acusassem a ocorrência de mais uma “onda” ou “campanha” de desinformação com a circulação de postagens[1], imagens[2] e vídeos[3] falsos relacionados às diversas repercussões do evento.

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Poucos dias antes, durante uma conversa sobre regulação dos serviços digitais, fui interrompido repetidas vezes enquanto tentava expor um argumento relativamente simples: a literatura empírica sobre polarização digital, câmaras de eco e desinformação é conflituosa e longe de autorizar certezas fáceis. Quando finalmente tive a palavra, mal consegui avançar duas frases. A interrupção veio seca: “Não quero saber de estudos. Quero saber a sua opinião.”

Em uma leitura benevolente, a frase talvez possa ter sido uma reação exagerada; uma defesa açodada contra o exercício, da minha parte, de uma suposta “autoridade retórica”. Acredito, porém, que se tratava de algo mais básico: identificar rapidamente de que lado eu estava. A minha opinião interessava menos pelo seu conteúdo do que pelo seu potencial classificatório. Era um atalho para decidir se eu era “dos nossos” ou “dos outros”.

O que esses episódios ilustram, em comum, é uma transformação mais ampla no modo como debatemos temas públicos controversos como geopolítica, desinformação e democracia digital. Ao confundirmos divergências cognitivas com dissensos morais, a discussão deixa de ser sobre como o mundo funciona – e passa a ser sobre quem somos nós.

Assim, a moralização identitária do desacordo ocorre quando discordâncias que deveriam ser tratadas como cognitivas – por envolverem fatos, diagnósticos ou evidências – se convertem em juízos morais sobre o interlocutor. Nesse processo, a opinião deixa de ser uma posição revisável e passa a funcionar como marcador de pertencimento.

Quando o processo de moralização identitária entra em ação, o debate público muda de natureza. Informações que desafiam a narrativa do grupo não são avaliadas – são neutralizadas, descartadas ou reinterpretadas. Dados e estudos passam a ser vistos com desconfiança. Não porque sejam ruins, mas porque introduzem algo que a discussão identitária não tolera bem: ambiguidade.

Reconhecer que as evidências são inconclusivas, que os efeitos são heterogêneos ou que há resultados contraditórios atrapalha a lógica binária do “certo versus errado”, “bem versus mal”. A complexidade empírica vira um obstáculo, não um recurso.

A psicologia cognitiva ajuda a entender esse fenômeno. Um estudo clássico de Dan Kahan e colaboradores mostrou que pessoas com visões de mundo distintas possuem percepções factuais diferentes ao assistirem exatamente ao mesmo vídeo de um protesto político.

Quando o protesto era artificialmente associado pelos pesquisadores a causas diversas – aborto ou política militar –, participantes com a mesma inclinação ideológica passaram a classificar o comportamento ora como “fala protegida”, ora como “conduta proibida”, apesar de o estímulo visual ser idêntico. A conclusão, desconfortável, é que nossas convicções morais e pertencimentos culturais moldam não apenas nossas opiniões normativas, mas a própria percepção dos fatos relevantes[4].

Esse resultado não autoriza, contudo, uma postura cética ou relativista quanto à importância de dados e evidências. A constatação de que possam ser percebidos de forma enviesada apenas revela sua vulnerabilidade à captura por identidades. Por isso, em vez de dispensar a análise de elementos empíricos, faz-se necessário adotar procedimentos que permitam disputá-los, corrigi-los e estruturá-los publicamente. Renunciar a eles em favor de “opiniões” é apenas substituir um viés imperfeito por outro muito mais pobre.

O problema, do ponto de vista do debate público, não é apenas o aumento da hostilidade. É o empobrecimento epistêmico da deliberação. Da geopolítica – como na discussão recente sobre a Venezuela – à regulação dos serviços digitais, a moralização do desacordo produz atalhos cognitivos perigosos. Políticas públicas passam a ser justificadas menos pela qualidade do diagnóstico e mais pela correção simbólica da posição adotada.

O imediatismo das redes sociais provoca a tempestuosidade e a necessidade de opinar sobre tudo para ganhar mais atenção. Essa aversão à pausa e à ambiguidade me lembra um verso de Manoel de Barros, em O Livro das Ignorãças: “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”[5]. Em tempos de certezas barulhentas, talvez seja justamente esse exercício de ressignificação – ou de suspensão do impulso identitário – que permita recuperar conversas orientadas à compreensão, em vez do alinhamento tribal.

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Opinar responsavelmente, sobretudo em temas controversos, não é escolher um lado e defendê-lo com convicção inabalável. É aceitar que muitas vezes a realidade social é multifacetada, que as evidências são imperfeitas e que a revisão de crenças não é sinal de fraqueza moral. A armadilha das “opiniões” no mundo polarizado está justamente na conversão do sentido adequado de um juízo de valor em posições morais rígidas, imunes à revisão.

Resistir à moralização identitária do desacordo não elimina conflitos – mas preserva algo essencial: a possibilidade de que o debate público continue sendo um esforço comum de entendimento e deliberação em torno de problemas, e não em torno de pertencimentos.

[1] https://www.terra.com.br/noticias/checamos/trump-nao-nomeou-maria-corina-machado-para-presidir-venezuela-ao-contrario-do-que-diz-post-viral,db9b3649420cba706ecdac650a42bff5cpcz0zm2.html

[2] https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/07/onda-de-desinformacao-sobre-captura-de-maduro-invade-redes-sociais.ghtml

[3] https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/mst-invasao-eua-regaste-maduro-falso-inteligencia-artificial/?srsltid=AfmBOooGTKkxOwBzYXnFUkb9s8-J1_BiTlSrizYscz4y-ZFjXWwHShi-

[4] KAHAN, Dan M. et al. “They saw a protest”: cognitive illiberalism and the speech-conduct distinction. Stanford Law Review, v. 64, p. 851-906, 2012.

[5] BARROS, Manoel de. O Livro das Ignorãças. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 9.

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