Com dificuldades para renovar seus quadros no Estado onde nasceu e floresceu, o PT paulista apostará este ano em um time de veteranos para tentar manter uma bancada de deputados federais representativa e combativa na Câmara a partir de 2027. Em São Paulo, caciques petistas com várias décadas de atuação política disputarão voto a voto a preferência do eleitorado de centro-esquerda com nomes considerados novos dentro desse campo, como Tabata Amaral (PSB), Érika Hilton e Natália Boulos (ambas do PSOL).
O momento favorável do presidente Lula nas pesquisas e a cada vez mais provável recusa de Guilherme Boulos (PSOL-SP), o mais votado em São Paulo em 2022, com 1.001.472 votos, de buscar a reeleição, está estimulando a concorrência nesse espectro político-partidário. São muitos “pesos-pesados” colocados até agora na disputa e com trajetórias distintas, configurando uma espécie de conflito de gerações.
Enquanto o PT terá veteranos como o ex-líder estudantil José Dirceu, 79 anos, ex-ministro e uma das figuras mais conhecidas da esquerda tradicional brasileira, o PSOL, por exemplo, aposta suas fichas em Erika Hilton, 33 anos, a primeira vereadora trans eleita em São Paulo (2020–2022).
A única certeza na centro-esquerda é de que a disputa será acirrada. Reservadamente, o PT-SP trabalha com uma “nota de corte” entre 140 mil e 150 mil votos, enquanto o PSOL estima o patamar de 80 mil para sua bancada, atualmente formada por seis deputados na federação com a Rede.
Ou seja, quem ficar abaixo dessas duas “notas” terá poucas chances de se eleger por esses dois partidos. O PSB tem na deputada Tabata Amaral, pré-candidata à reeleição, sua grande aposta como “puxadora” de votos após o bom desempenho dela na disputa pela Prefeitura de S. Paulo em 2024 (ficou em quarto lugar). Em 2022, ela recebeu quase 338 mil votos. A expectativa para este ano é de que Tabata amplie em muito essa votação, podendo chegar a 700 mil, ajudando o partido a saltar de 2 para até 5 deputados eleitos por São Paulo.
Em 2022, o PT elegeu 11 deputados federais por São Paulo. Deles, ao menos 9 devem tentar a reeleição pela federação formada com o PCdoB e o PV. Entre os nomes que não têm mandato, as novidades são as voltas ao jogo eleitoral legislativo de Dirceu, João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados e de Edinho Silva, atual presidente nacional do PT e ex-prefeito de Araraquara.
Os três, considerados históricos no PT, formarão a chapa de candidatos a deputado federal ao lado de outros líderes expressivos do partido em São Paulo, como o deputado federal Rui Falcão, que também comandou nacionalmente o PT, e o ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário. Os ministros Luiz Marinho, do Trabalho, e Alexandre Padilha, da Saúde, eleitos para a a Câmara em 2022, devem permanecer na Esplanada.
Marinho, no entanto, lançará Moisés Selerges Júnior, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, considerado um nome altamente competitivo. Em privado, líderes petistas reconhecem que a disputa será apertada e apostam em José Dirceu como “puxador” de votos. Estimam que ele deverá ter entre 500 mil e 700 mil votos, mas não se mostram otimistas quando questionados sobre a possibilidade de ampliação da bancada. Segundo um experiente dirigente do partido, se a federação conseguir manter as 11 vagas conquistadas em 2022 será motivo de comemoração.
Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, o lago que essas candidaturas têm para pescar não vai além da tradicional base de esquerda no Estado. “São votos de nicho, até porque não temos mais o famoso voto de opinião”, diz ele. Ou seja, é pequena a possibilidade de ampliação da votação conquistada por esse campo em 2022, quando, somente Boulos, recebeu pouco mais de 1 milhão de votos.
“O mais importante é garantirmos que o capital de votos conquistado por Boulos seja mantido na esquerda”, diz o cientista político Juliano Medeiros, ex-presidente do PSOL e candidato a deputado federal. Segundo ele, a maior aposta de seu partido é a deputada federal Erika Hilton, que teve quase 257 mil votos em 2022. Para este ano, projeções internas estimam que ela pode ultrapassar a marca de 700 mil votos e ajudar o partido a eleger uma bancada de até cinco parlamentares na Câmara.
Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Boulos tem dito que não disputará a reeleição. A advogada Natalia Szermeta Boulos, mulher dele, já se lançou como pré-candidata com o apoio de movimentos sociais. “Temos uma boa chance mantermos nosso força em Brasília para continuarmos ajudando o presidente Lula na reconstrução do Brasil”, diz Medeiros, que conta com apoio de Ivan Valente (PSOL) para sua primeira candidatura.
A ministra Marina Silva (Rede) se elegeu deputada federal em 2022 na federação com o PSOL, mas tem dito a interlocutores que não pretende disputar a reeleição. Ela é cotada para o Senado e deve mudar de partido em breve. PT, PSOL e PSB estão entre os prováveis destinos.
Falta ainda para o campo político que dá sustentação a Lula definir um candidato ao governo de São Paulo. No entanto, os partidos entendem que a eleição para o Legislativo federal tem de estar entre as prioridades para diminuir o poder da oposição e do Centrão na Câmara dos Deputados.