Brasil teme precedente perigoso com ação dos EUA em ano de eleições

Enquanto avalia os efeitos que o ataque dos EUA à Venezuela terá sobre a integração regional, num momento em que a direita volta a ganhar simpatia na vizinhança, o Brasil marcou posição na primeira reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU do ano, com declaração contundente de rechaço à ação americana. “A fumaça é terrível”, disse uma fonte de alto escalão ao JOTA. Ao tomar a palavra, o representante brasileiro na ONU, embaixador Sérgio Danese, mencionou o que é um grande temor do Planalto diante de tantas interrogações: o de se criarem perigosos precedentes geopolítico e econômico.

No dia em que a vice-presidente, Delcy Rodriguez, foi empossada com as bênçãos (até aqui) de Trump e do Brasil — Lula já falou com ela por telefone, segundo fontes diplomáticas —, a PDVSA pediu às companhias de petróleo que fechassem campos e desconectassem conjuntos de poços por não ter como estocar os barris que não consegue exportar. Os EUA promoveram um bloqueio que reduziu a zero as exportações nacionais, o que só aumenta a pressão sobre um governo interino que tenta se manter no poder. Pela lei, Rodriguez fica no cargo pelos próximos 90 dias, prorrogáveis.

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E essa é outra incógnita para a diplomacia. Não está claro se ela terá ascendência sobre os outros setores que comandam o país, ou se os militares digeriram bem o susto, como avalia um experiente diplomata. O chanceler Mauro Vieira já falou com o homólogo venezuelano. Foi um dos 13 com os quais conversou desde o ataque de sábado com a captura de Nicolás Maduro. Ainda não falou com o secretário de Estado, Marco Rubio.

Na ONU, o Brasil avisou que as normas que regem a convivência entre os Estados, obrigatórias e universais, disse, não admitem exceções baseadas em interesses políticos, ideológicos, geopolíticos ou econômicos. O que significa que “não permitem a exploração de recursos naturais ou econômicos para justificar o uso da força ou a derrubada ilegal de um governo”. Danese reforçou que o raciocínio de que os fins justificam os meios carece de legitimidade e dá aos mais fortes o direito de definir o que é justo ou injusto, o que é certo ou errado, e até mesmo de desconsiderar a soberania nacional.

Os EUA, por sua vez, defenderam a ação, condenada no Conselho de Segurança da ONU. O representante americano, Mike Waltz, afirmou que não se trata de um país ocupando outro, mas uma “operação de aplicação da lei”. Vamos lembrar que, ao invadir a Ucrânia, Vladimir Putin falou em “operação militar especial”. Isso foi em fevereiro de 2022. Então, o que seria? Essa é outra preocupação do alto escalão brasileiro, que procura entender até onde vai a ingerência americana em Caracas.

Prova disso é que os mercados deram sinais em todas as direções: as ações das americanas do petróleo dispararam, com a Chevron tendo batido 7% no início do pregão, assim como as das empresas de defesa dos EUA. Ao mesmo tempo, o ouro e a prata, porto-seguro de quem não sabe para onde os ventos sopram, dispararam.

Ainda que os americanos comandem a retomada da indústria petroleira, sabe-se que será a um custo muito alto. E só o farão se Trump torcer os braços da iniciativa privada. Portanto, o aumento da produção não é para agora.

A extrema direita tenta se arvorar no Brasil. Mas as incertezas são muitas até para a construção de uma nova narrativa eleitoral. Lula começa a costurar a dele. Até aqui a avaliação é a de que a reação do público é favorável. O que se sabe é que Trump segue prospectando um candidato de direita para chamar de seu em 2026. Mas quer um discurso vencedor.

Até lá, a diplomacia brasileira segue com as costuras, tentando manter interlocução com o governo venezuelano e o diálogo com Washington. Está prevista nova conversa entre Lula e Trump para tratar do tema nos próximos dias. Dentro do governo existe a convicção de que é possível separar uma coisa de outra coisa e continuar negociando tarifas e avanços na relação bilateral.

No entanto, como disse uma fonte ao JOTA, sabe-se também que a crise da relação, que vinha sendo bem conduzida até aqui, ganha com o ataque à Venezuela um capítulo profundamente mais complexo.

Direita vê oportunidade de entrar no debate da soberania

Se no ano passado a palavra soberania foi o principal pesadelo para os bolsonaristas durante o tarifaço, neste ano eles foram rápidos. Enquanto o governo Lula, a esquerda e parte do centro enxergam na ação do governo Trump um atentado à soberania e risco à região, parlamentares e integrantes de partidos de direita respondem que não há soberania onde não há democracia.

Quando Trump impôs sobretaxas a produtos brasileiros, após a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, Lula subiu nas pesquisas com o mote “Brasil soberano”.

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Desta vez, o tema é mais espinhoso e não afeta (ainda) tão diretamente o Brasil. A ação dos EUA na Venezuela é vista por bolsonaristas como uma oportunidade de atrelar Lula a Maduro e de dar novo uso ao termo.

A esquerda enfrenta a saia justa de defender a soberania do país, sem defender Maduro. Os bolsonaristas comemoram esse malabarismo discursivo. Nas redes sociais, fazem memes e montagens comparando o petista ao ditador venezuelano, e exaltando a ação dos americanos.

As publicações levaram os deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Erika Hilton (PSol-SP) a acionarem a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Os parlamentares de esquerda alegam ataque coordenado à soberania brasileira.

Em outra frente, o episódio da ação jogou Trump de volta aos braços da direita, que andava estremecida com o chefe do executivo americano, após chamar Lula de “amigo” e retirar as sobretaxas a produtos brasileiros.

O alcance eleitoral do caso da Venezuela ainda é incerto, mesmo para integrantes do PL. A avaliação é de que o tema já está polarizado e ele ajuda mais a movimentar e animar a militância bolsonarista do que a agregar novos votos.

Eles veem no episódio, contudo, uma oportunidade de novos deslizes do presidente Lula: não pode criticar diretamente Trump, sob risco de estremecer novamente a relação comercial entre os países, e não pode defender Maduro, o que traria certamente desgaste público.

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