Quais possibilidades nos aguardam à medida que a tecnologia redefine a forma como trabalhamos? A automação e o avanço da inteligência artificial estão transformando rapidamente a forma como executamos tarefas, e naturalmente as configurações do mercado de trabalho. Novas vagas surgem, outras se tornam obsoletas, e a exigência por novas habilidades se intensifica. Para trabalhadores e empresas, esse cenário abre oportunidades, mas também amplia as incertezas. Já para governos, o cenário também representa desafios na confecção de políticas públicas.
Não é a primeira vez que uma onda tecnológica levanta perguntas sobre o futuro do trabalho. Inovações anteriores também alteraram o perfil das ocupações, mas hoje sabemos que houve mais empregos criados do que eliminados ao longo do processo. Porém, o receio da atual transformação tecnológica reside em especial na velocidade das mudanças e no risco de não ser possível para muitos trabalhadores não se adaptarem às novas demandas do mundo do trabalho, com um potencial efeito no aprofundamento das desigualdades.
A tecnologia tende a beneficiar grupos que estão mais preparados para se adaptar a essas mudanças, e nesse sentido há pelo menos dois fatores que justificam a atenção redobrada. Primeiro, o ritmo mais acelerado das transformações é um desafio dada a limitada capacidade de adaptação dos indivíduos. Segundo, grupos vulneráveis e trabalhadores com menor preparação técnica podem estar ainda mais expostos à automação justamente por uma maior dificuldade na adaptação e absorção dessas tecnologias. O desafio, portanto, não está na tecnologia em si, mas em como ela é incorporada. Para garantir ganhos de produtividade sem ampliar desigualdades, políticas públicas precisam acompanhar essa transição.
Investir em capacitação tem se mostrado uma das estratégias mais eficazes para enfrentar os efeitos da automação. Estudos mostram que programas voltados a setores com alta demanda, como tecnologia e saúde, aumentam a renda e a empregabilidade dos participantes. Um exemplo é um programa realizado no Quênia, no qual jovens que receberam treinamento em habilidades digitais ligadas à inteligência artificial — acompanhado de intermediação ativa para colocação em empregos. Os resultados mostraram que os participantes apresentaram crescimento na renda e maior inserção no mercado de trabalho. Na América do Norte, empresas que adotaram ferramentas baseadas em IA reorganizaram funções e valorizaram novas competências. Trabalhadores que passaram por requalificação tiveram ganhos salariais significativos. Esses casos reforçam que, com o desenho certo, tecnologia e inclusão podem andar juntas.
Outro aspecto importante é reconhecer que a preparação para o futuro do trabalho exige mais do que conhecimento técnico. Competências socioemocionais, como adaptabilidade, resolução de problemas e trabalho colaborativo, ganham cada vez mais relevância. Segundo o ManpowerGroup, essas habilidades já figuram entre os principais critérios de contratação.
Novas tecnologias também podem atuar como instrumentos de inclusão. Um estudo liderado por Matt Wiles mostrou que ferramentas de IA voltadas à escrita de currículos aumentaram em 8% as chances de contratação, com maior efeito entre candidatos com menor qualificação. A automação, nesse caso, ajudou a reduzir barreiras de entrada.
Entretanto, essas ações precisam ser monitoradas cuidadosamente em seus efeitos colaterais. Por exemplo, algoritmos usados na triagem automática de currículos, buscam mais agilidade e eficiência, mas podem reproduzir preconceitos existentes nos dados históricos utilizados para seu treinamento. Isso significa que candidatos qualificados correm o risco de serem excluídos de oportunidades por questões relacionadas a gênero, raça ou idade.
Além de preparar os trabalhadores para as novas exigências do mercado, é preciso repensar como garantir a seguridade social nesse contexto em transformação. A expansão do trabalho remoto, da gig economy e dos contratos flexíveis desafia os modelos tradicionais baseados em vínculos formais. Isso requer adaptar critérios de elegibilidade, fortalecer mecanismos não contributivos e integrar políticas de proteção social e mercado de trabalho, de modo a assegurar cobertura efetiva ao longo de trajetórias ocupacionais mais instáveis.
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Em suma, tecnologias que impulsionam produtividade podem aumentar riscos e incertezas, mas têm também o potencial de criar novas oportunidades. Políticas públicas eficazes são fundamentais para não se acentuar desigualdades já existentes. Governos, empresas e sociedade civil precisam agir em conjunto para garantir uma adaptação justa, e ampliar o acesso às redes de proteção social e programas de qualificação e requalificação. O desafio não é impedir o avanço tecnológico, mas garantir que seus benefícios sejam amplos e para todos. A tecnologia quando combinada com desenvolvimento social potencializa as capacidades dos trabalhadores e gera um ciclo virtuoso de crescimento.