O ambiente global de atração de investimentos permanece profundamente condicionado pelas transformações estruturais na geoeconomia, notadamente pela fragmentação do comércio internacional e pela reorganização das cadeias globais de valor (FDI Intelligence). Nesse ambiente, a lógica da eficiência econômica que marcou a globalização desde os anos 1990 vem sendo substituída por um paradigma em que segurança, previsibilidade e resiliência orientam decisões de localização produtiva.
A turbulência atual é destacada pelo relatório Trade in Transition 2025, do The Economist, que aponta que o comércio mundial “não é mais embasado em regras internacionais, mas em confrontação mercantilista” e que as empresas se preparam para “a era mais turbulenta desde os anos 1930” (The Economist 2025). Esse cenário aprofunda movimentos como a estruturação de cadeias de suprimento duais, com 32% das empresas operando uma cadeia atrelada à China e outra independente para mitigar riscos regionais, além de uma combinação crescente entre diversificação geográfica (46%) e localização produtiva (42%) como resposta operacional simultânea (The Economist 2025).
Nesse ambiente de incerteza, as Zonas Econômicas Especiais ressurgem como instrumentos estratégicos, oferecendo ambientes regulatórios estáveis, plataformas industriais ajustáveis e arcabouço jurídico capaz de reduzir incertezas para investimentos produtivos (UNCTAD).
As muitas nomenclaturas, o papel das ZEEs e seu percurso histórico
Apesar das diversas terminologias — zonas francas, free trade zones, export processing zones, free economic zones — todas partem do mesmo princípio: áreas geograficamente delimitadas com regimes regulatórios especiais, voltadas à facilitação de comércio, produção e investimentos.
Adota-se aqui a definição da UNCTAD, que caracteriza uma ZEE como uma área com regime regulatório distinto, oferecendo incentivos fiscais, facilitação administrativa e infraestrutura integrada.
Criadas originalmente para expandir exportações e simplificar procedimentos aduaneiros, as ZEEs tornaram-se plataformas de industrialização, hubs logísticos, laboratórios regulatórios e ambientes de fortalecimento de clusters tecnológicos.
O crescimento global é notável: de 29 ZEEs em 1975 para mais de 7.000 atualmente (FDI Intelligence). Esse aumento exponencial reflete a facilidade de implementação de reformas localizadas e a competição internacional por atividades industriais móveis (UNCTAD).
O impacto da conjuntura geoeconômica atual, o aumento das ZEEs e sua difusão setorial e regional
A mudança geopolítica acelerou ainda mais a busca por ZEEs. A crescente proteção comercial, o avanço do mercantilismo e as tensões entre grandes potências moldam decisões empresariais. Segundo o Trade in Transition 2025:
Friendshoring é mais político que prático, embora 34% das empresas já tenham adotado realocações alinhadas geopoliticamente;
Países não alinhados ganham relevância como hubs alternativos, mas 63% das empresas temem inconsistências regulatórias, razão pela qual apenas 27% consideram esses mercados como opção viável de expansão;
Diversificação supera estoques: só 20% dos executivos apostam em estoques elevados, enquanto 43% preferem diversificar fornecedores e regiões.
Nesse ambiente, as ZEEs passam a funcionar como infraestruturas institucionais para reduzir incertezas, fornecendo previsibilidade onde o comércio global se torna mais volátil (FDI Intelligence). Tal papel é reforçado em um ambiente de retração do investimento estrangeiro em economias emergentes e em desenvolvimento (World Bank)
Esse ambiente reforça o papel das ZEEs como mecanismos para reverter a queda dos investimentos, especialmente em economias emergentes com limitações regulatórias e gargalos de infraestrutura. Em 2023, as zonas livres foram responsáveis por 5% de todos os projetos de FDI no mundo, consolidando-se como key-FDI drivers na reconfiguração das cadeias de suprimento (FDI Intelligence).
Na América Latina e Caribe, as ZEEs têm relevância histórica, com cerca de 500 zonas e mais de 10 mil empresas (UNCTAD). Contudo, persistem obstáculos como falta de fornecedores locais, incapacidade de atrair investidores âncora e competição regional intensa.
Um novo olhar sobre as ZEEs: desafios, fatores de sucesso e seu papel em um mundo em transição
O desempenho das ZEEs varia amplamente — muitas geram empregos e exportações, mas outras funcionam como enclaves com poucos spillovers. Os casos bem-sucedidos, como Shanghai Pilot FTZ, revelam fatores críticos:
alinhamento às estratégias nacionais,
governança forte e flexível,
localização logística estratégica,
modelos de “lista negativa” para investimentos,
e capacidade contínua de upgrading setorial (UNCTAD).
Dessa forma, no cenário atual de estruturas duais de cadeias de suprimento, nearshoring e friendshoring, as ZEEs fornecem segurança jurídica e capacidade de resposta local, o que as torna plataformas ideais para atrair investimentos produtivos em um mundo fragmentado.
ZEEs e a nova revolução industrial
Um desdobramento estratégico relevante é o papel das ZEEs como motores de inserção de países em desenvolvimento nas cadeias industriais de última geração. As novas ondas tecnológicas — energias renováveis, hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, semicondutores, manufatura inteligente, veículos elétricos — exigem:
infraestrutura tecnológica avançada,
regimes regulatórios flexíveis,
ambientes estáveis para CAPEX intensivo,
logística integrada e energia limpa.
As ZEEs são particularmente adequadas para isso, pois podem:
Reduzir riscos de investimento em setores intensivos em capital, oferecendo previsibilidade regulatória e aduaneira.
Criar ecossistemas industriais especializados, como parques de hidrogênio verde, zonas para EVs e clusters de renováveis.
Incorporar o Brasil nas cadeias globais da próxima revolução industrial, aproveitando sua matriz energética renovável, abundância de biomassa e posição estratégica entre dois grandes blocos — China e EUA (The Economist 2025).
Atrair greenfield FDI alinhado às tendências globais, especialmente em renováveis, que já representam o maior fluxo de investimentos em ZEEs globalmente (FDI Intelligence).
Para países como o Brasil, que emergem como safe haven geoeconômico, combinando relações profundas com a China e proximidade estratégica com os EUA (The Economist 2025), as ZEEs podem funcionar como a infraestrutura crítica para transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas.
Conclusão
ZEEs permanecem entre os instrumentos mais eficazes para promover desenvolvimento industrial e atrair investimentos, mas o contexto global atual exige que sejam reinventadas. O avanço do mercantilismo, a dualização das cadeias produtivas e o declínio recente do FDI criam uma janela estratégica para que países adotem zonas modernas, sofisticadas e altamente integradas às estratégias nacionais.
Em linha com a visão de Ngozi Okonjo-Iweala no 13º World Chambers Congress, a “re-globalização” deve trazer mais regiões ao centro da economia mundial — e as ZEEs podem ser mecanismos decisivos para isso (FDI Intelligence).
Para além dos incentivos fiscais, o caminho passa pela criação de valor produtivo real: infraestrutura, inovação, capacitação, governança e integração industrial. As ZEEs modernas podem posicionar o Brasil não apenas como receptor de investimentos, mas como coprodutor da próxima revolução industrial em energias limpas, tecnologia avançada e manufatura inteligente.