Na reta final para o início da transição da reforma tributária, especialistas apontam a tecnologia como forte aliada dos contribuintes no período de transição. Mais do que isso, “a tecnologia é a protagonista da reforma”. A avaliação foi feita por Marcia Ruiz Alcazar, contadora e sócia da Seteco Consultoria Contábil, durante a abertura do painel sobre “A importância da tecnologia para a transição do novo sistema tributário”, no 7º Congresso de Direito Tributário do Conselho Estadual de Defesa do Contribuinte do estado de São Paulo (Codecon-SP).
O uso de ferramentas, sistemas e inteligência artificial (IA) foi um dos temas debatidos no evento, e o consenso entre os especialistas foi claro: sem tecnologia não é possível superar o desafio de implementação da reforma tributária. Segundo Alcazar, o projeto de reforma propõe a unificação de impostos, a padronização de processos e a redução da complexidade da infraestrutura tributária. Para atender a esses objetivos, ela ressalta que “a transição para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) é tecnológica, não há dúvida. Quem dominar os dados e a integração estará um passo à frente”.
Ela acrescenta que as empresas e organizações serão obrigadas a mudar a cultura operacional, e o chamado back office – setor responsável pelo suporte operacional e administrativo – será de extrema relevância para armazenar, administrar e tratar os dados tributários na forma demandada pelo sistema. Nesse processo, “o perfil do contribuinte deixa de ser declaratório e passa a ter perfil de conciliação e questionamento”.
Essa é a realidade que vem sendo experimentada por Alessandra Heloise Vieira, diretora de Tax no Mercado Livre, que foi uma das 300 empresas convidadas para ter acesso ao pré-status do novo sistema tributário. Ela está à frente do projeto da empresa que busca testar o novo sistema antes do início do período de transição e foi uma das palestrantes do evento.
Alessandra compartilhou a experiência do Mercado Livre durante a fase de testes preparatórios para a reforma. Ela relatou que estão fazendo uso robusto de tecnologia e, em especial, de IA para adequar o sistema interno da companhia, de seus fornecedores e clientes ao formato requisitado pela reforma tributária. “A tecnologia é vital, sendo mais do que uma aliada, é uma necessidade”, reforça.
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A diretora de Tax considera a IA como obrigatória, já que a ferramenta oferece respostas rápidas diante da escassez de profissionais especializados na área tributária. Ela destaca que a ferramenta vem sendo treinada, principalmente, para que, no próximo ano, possa fazer análises comparativas entre o modelo atual e o modelo que será adotado.
Na sua visão, a sobrevivência no novo sistema dependerá da consistência dos fornecedores, que devem se adequar à nova norma de 2026. Caso contrário, a empresa pode ser impedida de tomar créditos tributários, o que pode gerar uma quebra no fluxo de caixa. “Além disso, aqueles que não estiverem prontos, não terão a permanência bancada no Mercado Livre”.
Ao final da sua fala, a diretora deixa um alerta: “Se a tecnologia não for utilizada agora, é capaz de consumir tanto o fluxo de caixa das companhias que ela roube do core aquilo que a empresa deveria estar investindo”. Para isso, ela defende ser o momento de criar fundos e consórcios para financiar o alto custo da tecnologia e possibilitar o acesso dos pequenos e médios empreendedores as ferramentas mais sofisticadas.
Já o advogado e doutor em Direito Econômico Paulo César Teixeira Duarte Filho apresentou uma análise centrada nos impactos do novo sistema tributário sobre o fluxo de caixa das empresas contribuintes. Ele lembrou que o sistema passa a funcionar de operação a operação, com recolhimento no momento da liquidação financeira, com creditamento sendo feito após o pagamento efetivo. Ele também criticou a complexidade do modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) adotado pelo Brasil e a falta de atenção ao Simples Nacional, que classificou como a “curva de rio” da reforma.
Quanto ao uso da tecnologia, Duarte Filho também acredita que ela será indispensável para que as empresas consigam cumprir as novas regras. Ao finalizar sua participação, ele se dirigiu aos dirigentes presentes no evento: “Se eu pudesse dar uma sugestão para todas as empresas, independentemente do tamanho, seria sobre o uso de tecnologia ligada ao fluxo de caixa. Nós vamos ter que começar a fiscalizar o fornecedor e vamos ter que ficar mais próximos dos nossos clientes”.