A OpenAI anunciou[1] o lançamento do ChatGPT Atlas, um navegador com inteligência artificial integrada que promete redefinir a forma como interagimos com a internet. Disponível inicialmente para usuários de MacOS, e com versões para Windows e dispositivos móveis em desenvolvimento, o novo navegador chega com a proposta ambiciosa de disputar espaço com o Chrome, que hoje soma mais de três bilhões de usuários.
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Com mais de 700 milhões de usuários semanais e cerca de 2,5 bilhões de mensagens processadas por dia, o ChatGPT amplia sua presença no cotidiano digital e se posiciona como mais do que um assistente: torna-se um mediador ativo da experiência online. No Atlas, o chatbot aparece na barra lateral e é capaz de compreender automaticamente o contexto do que está na tela, sem a necessidade de copiar links ou textos. A promessa é de fluidez e praticidade — o que, em um primeiro olhar, parece apenas mais um avanço tecnológico. Mas será mesmo?
Se, como observa Shoshana Zuboff (2021), o Google foi o pioneiro na criação de um modelo econômico baseado na vigilância — o chamado capitalismo de vigilância —, o lançamento do navegador da OpenAI pode representar um novo estágio desse sistema. Para Zuboff, esse modelo não se limita à coleta de dados, como também transforma a experiência humana em matéria-prima para fins comerciais, convertendo comportamentos, emoções e preferências em dados que alimentam previsões e influenciam futuras ações. Trata-se de uma lógica que vai além do marketing direcionado: é a colonização do espaço comportamental, onde o lucro depende da capacidade de prever e moldar o comportamento humano.
Ao situar essa nova economia, Hal Varian, economista-chefe do Google, já antecipava parte desse cenário em seu artigo Beyond Big Data (2014). Ele identificou quatro novos tipos de uso das transações mediadas por computador: “extração e análise de dados”, “novas formas contratuais devidas a melhor monitoramento”, “personalização e customização” e “experimentos contínuos”. Varian descreveu como a observação minuciosa do comportamento, antes inatingível, tornava possível contratos e modelos de negócio até então inviáveis. Ao mesmo tempo, defendia que a personalização (um sistema que antecipa desejos e fornece respostas antes mesmo da pergunta) justificava a entrega voluntária de dados pessoais, pois os benefícios superariam os custos.
O raciocínio de Varian traduz uma lógica central da economia digital: a da conveniência como moeda de troca. O problema, como advertiu Zuboff, é que essa dependência funcional alimenta o próprio sistema de vigilância. A promessa de eficiência e personalização mascara a extração constante de dados e a erosão silenciosa da privacidade. Na prática, quanto mais confortável a interação, maior o poder das plataformas para monitorar e influenciar, e menor a capacidade de resistência do usuário.
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O ChatGPT Atlas insere-se exatamente nessa encruzilhada. Ao oferecer um navegador que compreende contextos, integra respostas e se antecipa às demandas, a OpenAI consolida a presença da inteligência artificial como intermediária de toda experiência digital. Diferentemente do Google, que coletava e organizava informações disponíveis na web, o ChatGPT aprende com interações diretas e produz respostas com base em padrões extraídos dessas trocas. Cada comando, cada dúvida, cada clique contribui para aperfeiçoar um modelo que não apenas espelha o comportamento humano, como o interpreta e o reconfigura.
É um salto qualitativo na lógica do capitalismo de vigilância, se antes o foco era prever, agora o objetivo é intervir. A inteligência artificial não se limita a observar, mas aprende, decide e propõe. Isso significa que os limites entre consumo, produção e influência se tornam difusos. O navegador da OpenAI, ao compreender automaticamente o contexto do usuário, amplia a fronteira da vigilância para um nível ainda mais íntimo, no qual o monitoramento se confunde com assistência e o controle se apresenta como conveniência.
Nesse ponto, a reflexão de Stefano Rodotà (2008) torna-se indispensável. O autor defende que a privacidade não deve mais ser entendida apenas como o direito ao isolamento ou como a simples possibilidade de estar só. Ela precisa ser vista como a capacidade do indivíduo de controlar o fluxo das informações que o concernem, superando a concepção tradicional que a vinculava apenas à ausência de interferência externa. Assim, a privacidade deixa de ser um direito puramente individual e passa a adquirir uma dimensão coletiva, diante das novas formas de coleta, tratamento e circulação de dados possibilitadas pelas tecnologias digitais e pelo crescente interesse de instituições públicas e privadas em obter essas informações. Nesse contexto, como observa Rodotá, é essencial repensar o próprio conceito de privacidade, reconhecendo seu caráter social e relacional.
As consequências desse novo cenário ainda são incertas. Por um lado, há ganhos evidentes em produtividade e acesso à informação. Por outro, cresce o risco de uma vigilância onipresente, invisível e legitimada pelo próprio desejo de eficiência. Como adverte Zuboff, a lógica desse sistema não é apenas econômica, é política: ao transformar o comportamento em recurso, redefine as relações de poder, deslocando para as corporações a capacidade de prever e moldar o futuro coletivo.
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Nesse contexto, a questão que se impõe é se o avanço de tecnologias como o ChatGPT marca apenas a consolidação do capitalismo de vigilância, agora dotado cada vez mais da presença da inteligência artificial, ou se inaugura algo ainda mais complexo: um capitalismo preditivo e performativo, capaz não só de observar e antecipar, mas de criar os comportamentos que deseja capturar.
A trajetória histórica sugere que a vigilância tende a se naturalizar sob o discurso da inovação. Assim como o Google transformou a busca por informação em um ato de autovigilância consentida, o ChatGPT Atlas promete simplificar a vida digital ao custo da exposição contínua. O que muda é o grau de autonomia da tecnologia e, possivelmente, o grau de assimetria entre quem fornece e quem controla os dados.
Se o capitalismo de vigilância, como o definiu Zuboff, representou a apropriação do comportamento humano como matéria-prima, o advento da inteligência artificial generativa parece levar essa apropriação a um novo patamar: o de uma economia que não apenas observa o presente, mas projeta e modela o futuro. A dúvida que resta é se estamos diante de um aprimoramento do mesmo sistema, agora mais sofisticado e invisível, ou se veremos uma escalada ainda mais agressiva, impulsionada pela competição crescente entre as big techs, capaz de ampliar o monitoramento e a influência sobre o comportamento individual de formas até então inéditas.
Em meio à corrida por eficiência e inovação, o desafio talvez não seja apenas proteger dados, mas resgatar o controle sobre o sentido do que significa ser humano em um ambiente onde cada gesto, palavra e intenção se tornam capitalizáveis. O ChatGPT Atlas é mais do que um novo navegador, ele é um espelho do nosso tempo, e a pergunta que ele impõe é se ainda somos nós que o utilizamos, ou se é ele quem começa a nos usar.
Referências
RODOTÁ, Stefano. A vida na sociedade da vigilância: a privacidade hoje. Tradução de Danilo Doneda e Luciana Cabral Doneda. 1. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008.
VARIAN, Hal R. Beyond Big Data. Business Economics, v. 49, n. 1, p. 27–31, 2014.
ZEFF, Maxwell. OpenAI launches an AI-powered browser: ChatGPT Atlas. TechCrunch, 21 out. 2025. Disponível em: https://techcrunch.com/2025/10/21/openai-launches-an-ai-powered-browser-chatgpt-atlas/?utm_source=the_news&utm_medium=newsletter&utm_campaign=night-072&_bhlid=d90de51afeefc78ebf7c227d0fdbf3fc90973c61. Acesso em: 22 out. 2025.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Edição digital. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021. E-book.
[1] Para maiores informações, confira: OpenAI launches an AI-powered browser: ChatGPT Atlas | TechCrunch