Chacina do Rio expõe impasse sobre luto coletivo numa era de crise permanente

A cena é conhecida: um evento trágico se abate sobre o país, trazendo, um pouco mais para perto, a sombra da morte, da violência, da barbárie de que somos feitos. Ato reflexo: de um lado do espelho, instantaneamente, chovem áudios de zap de supostos traficantes, vídeos de corpos decapitados, mensagens celebrando a morte de bandidos. Procedimento padrão na extrema direita brasileira.

Corta para o outro lado do espelho digital e descobrimos que a espetacularização da morte já não é um elemento isolado: os mesmos corpos, rodeados de parentes enlutados, agora servem à indignação contra o Estado, a polícia e a insensibilidade geral que nos governa.

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Tudo isso minutos após a mais letal operação policial da história do Rio de Janeiro. O que uniu os cidadãos nesse caso, desde o porteiro preocupado com a volta pra casa, passando pela jovem universitária que precisou abandonar a aula até o “cidadão de bem” que celebra mais um morticínio: todos fomos devorados pela máquina das redes e sua temporalidade de crise permanente.

Enquanto parte da população, habituada à estética dos programas policialescos, deposita sua adrenalina no “zapistão”, a outra parte, também absorvida pela ansiedade – psíquica e política – das plataformas recorre ao Instagram para se posicionar politicamente. E, então, nos deparamos com dois modos de se relacionar com a morte, que transitam entre a indiferença e o espetáculo. Ambos são caracterizados pela extrema presença, pela exposição, pela incessante produção de imagens e palavras de ordem no instante seguinte à barbárie.

Nesses dois modos de confrontar a morte, algo está em falta: a suspensão que precede o luto. Anos atrás, em meio ao debacle da pandemia, eu relatava minha perplexidade ao observar que, à repentina morte de 100 mil brasileiros, seguiu-se um bastante tímido processo de enlutamento – se entendemos o luto, antes de tudo, como colapso de um estado de coisas.

O tempo do luto é o do vazio, da negatividade. Um tempo que conflita com o excesso, o ruído e a verborragia característicos das plataformas. Resta a pergunta: numa era em que nosso Eu, cada vez mais, se confunde com nosso perfil digital, ainda há espaço para atravessar este tempo do luto?

O arsenal de posts, stories, vídeos e áudios de zap instantaneamente compartilhados após a chacina, e a intensificação do nosso uso de smartphones, sugerem que viver em estado de alerta permanente tornou-se o novo normal. Foi algo que o bolsonarismo nos ensinou durante a pandemia e, talvez, nunca tenhamos deixado pra trás.

Como consequência, nossa capacidade de (re)agir politicamente – o que exige a instauração de novas gramáticas para partilhar a dor – torna-se atrofiada. Na vida urgente do digital, não há espaço para pausar e, portanto, elaborar, a indignação.

Se é correto dizer, desde a pandemia, que a favela tem reinventado modos de sobreviver e de gerar mudança efetiva na comunidade por meio das plataformas, é importante pensar as consequências psicopolíticas de nossa crescente vida mediada pelo perfil digital. Um avatar que não nasce, não morre e, também, não se enluta.

Nesse mundo do espelho, para usar a metáfora de Naomi Klein, a ausência, o ato de se retirar, que é inerente ao luto, se confunde com a não presença. Em seu livro Doppelgänger, Klein relata o desespero de uma aluna que é acusada de racismo, simplesmente, por estar offline em meio à mobilização contra a violência policial nos Estados Unidos.

“Todos os meus amigos me disseram que eu tinha que voltar ao Instagram e postar coisas pró-Black Lives Matter, caso contrário todos pensariam que eu sou racista”, afirma a jovem. O simples gesto de não habitar aquele espaço foi interpretado como indiferença, como se enfrentar o racismo passasse, necessariamente, por reforçar a sua identidade pessoal. “Havia algo errado com uma cultura que valorizava as performances públicas de um eu virtuoso em detrimento de uma postura de solidariedade e da construção de relacionamentos mais tangíveis”, conclui Klein sobre o episódio.

Se o atual tempo de crise permanente serve muito bem à estética e ao discurso da extrema direita, em sua busca por atiçar afetos tristes como o medo e o ressentimento na população, me pergunto se os progressistas estão sendo capazes de fabricar alternativas a esse modo de vida cronicamente online – alternativas necessárias ao enlutamento.

É como se parte do Brasil estivesse muito alerta para compartilhar a sua (justa) indignação com mais uma barbárie, mas, por isso mesmo, impotente para ser transformada por ela. É disso que trata o luto: um acontecimento que refaz o nosso modo de habitar a comunidade, a nossa gramática, a partir da suspensão do sentido. Para ser luto, tem de ser no vazio.

Enquanto o lado esquerdo da polarização se infesta de imagens denunciando o massacre no Rio de Janeiro e o governo de Cláudio Castro, do outro lado do espectro, o senso comum que navega no velho (e sólido) imaginário da “polícia vs. bandido” parece ganhar mais tração. Não à toa a extrema direita viu na produção da chacina uma oportunidade política para recuperar o recente terreno perdido na guerrilha digital.

Ao embarcar no tempo da urgência e na estética do espetáculo que expõe corpos para produzir indignação 24 horas por dia, o campo progressista acaba sustentando uma barulhenta máquina digital que, desde a pandemia, interdita qualquer possibilidade de luto. Cinco anos após o morticínio bolsonarista, permanecemos órfãos de um outro modo de habitar o tempo, no qual seja possível o simples gesto de não partilhar o ruído, em busca de elaborar nossas dores e, somente assim, instaurar alguma capacidade de dizer o que, até agora, parece indizível.

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