Como a proposta da NDC indígena pode mudar o rumo da mudança do clima

Muitos têm dito que a 30ª edição da Conferência do Clima (COP, sigla em inglês) será marcante porque ocorrerá no Brasil. Outros pensam que a magia está em ser a primeira COP na Amazônia, aquela que, por um lado, é lar de uma imensa diversidade de povos indígenas e comunidades tradicionais; e por outro, está na mira da indústria do petróleo.

Há ainda os que estão de olho na tal “COP da implementação”1 afinal, já são trinta anos de negociação entre os países e todos queremos afastar o fantasma da crise climática.

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Sem uma bola de cristal que nos diga o futuro, só nos resta esperar os resultados concretos para saber qual será o real legado da COP 30, e o desafio é grande. Assim como a Joelma, estamos todos querendo tomar um tacacá, mas do jeito que as coisas andam, está difícil “curtir” e “ficar de boa”. Quando a primeira Conferência tomou lugar em Berlim, capital alemã, em 1995, o objetivo era reduzir as emissões de gases do efeito estufa e fomentar estratégias de adaptação para enfrentar os impactos da mudança do clima já notados pela sociedade.

Com avanços muito tímidos das reduções de emissões globais, de lá para cá, esse objetivo está longe de ter sido cumprido. Exemplos domésticos: em 2024, a Amazônia passou por um evento de seca severa enquanto o Sul do país sofreu graves consequências decorrentes das inundações e alagamentos noticiados por meses a fio. Essas cicatrizes mostram como a humanidade está perdendo a corrida contra o tempo.

Mas calma! Antes de perdermos as esperanças, voltemos ao início. Se a importância da COP30 não é ser no Brasil, nem na Amazônia, e ainda é muito cedo para dizer que esta será finalmente a COP da implementação, o destaque e as atenções estão voltados para as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, sigla em inglês). No meio dessa sopa de letrinhas, talvez a NDC seja uma das mais importantes da COP 30. Esse mecanismo surge no Acordo de Paris como uma forma de unir os compromissos de todos os países para que, dentro de suas condições, cada um reduza suas emissões de gases do efeito estufa. Esse esforço coletivo tinha como meta manter a elevação da temperatura abaixo de 2°C, com intenção de não ultrapassar 1,5°C.

No ano seguinte ao lançamento do Acordo de Paris, os países apresentaram sua primeira NDC, que deve ser atualizada e revisitada em ciclos de cinco anos, começando em 2020. Essa é uma oportunidade de os países assumirem e informar ao mundo o tamanho de sua ambição de redução de suas emissões. 2025 é, então, a terceira rodada de atualização, momento crucial para pisar no freio das emissões, pois o alarme já foi soado há algum tempo. Especialistas que entendem do assunto têm apontado para uma rota de colisão frontal: manter o nível de emissões atuais pode significar um aumento da temperatura média de até 3,1°C.

Me valendo de um clichê, é preciso pensar de forma global e agir localmente. Nessa toada, os indígenas entram em campo deixando claro: mesmo que as responsabilidades comuns, porém diferenciadas, não estejam sendo respeitadas, eles são propositivos e não vão ficar de mãos atadas. Enquanto representantes de países têm apresentado suas NDC, indígenas brasileiros lançaram sua própria versão de um documento com orientações diretas e concretas.

Para quem vive em grandes centros urbanos, talvez seja estranho pensar que as cerca de 75% das emissões brasileiras venham do desmatamento, degradação e agropecuária, e não da indústria, dos transportes e da geração de energia. Outra informação para guardar no bolso é que as Terras Indígenas e Unidades de Conservação são fundamentais para garantir o equilíbrio climático.

Agora que sabemos disso, a lógica é simples. No documento que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) lançou em agosto de 2025, o eixo central que guia os demais é o reconhecimento formal dos territórios indígenas. Um estudo publicado pela APIB e pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) já tinha feito um raio-X e notado que Terras Indígenas demarcadas têm taxas de desmatamento menores do que aquelas não demarcadas.

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Outro ponto que a NDC indígena recorda é que, mesmo que todas as emissões cessassem hoje, os impactos da mudança do clima ainda serão sentidos por alguns anos. De forma resumida e simplificada, isso acontece porque os gases do efeito estufa emitidos podem demorar centenas de anos para retornar ao ciclo natural. Então, se o problema ainda não tem uma solução rápida, é preciso garantir meios de adaptação ao novo cenário climático. E claro, fazer isso tem custos. Para que essas ações de enfrentamento à mudança do clima tenham efeitos positivos, a APIB e suas regionais recomendam que o financiamento seja direto, sem intermediários. Esse formato possibilita que povos e organizações indígenas tenham condições de propor soluções adequadas às suas cosmovisões e suas culturas.

Indígenas do Brasil e de outras partes do mundo têm dado muitas lições de como viver bem. Há milhares de anos esses povos têm convivido de forma harmônica com o meio e, sem ter culpa de nada, têm sofrido as consequências da mudança do clima causada por outros que, muitas vezes, estão bem distantes de seus territórios. Se quisermos um planeta seguro para as futuras gerações, é preciso aprender com as lições que os anciões e os jovens indígenas têm nos ensinado. Sei que parece mais um clichê, mas não é: quem perdeu a vida nas enchentes e incêndios provocados pelas secas extremas já não tem futuro nenhum. Então, que tal manter as esperanças de pé e ouvir aqueles que sempre estiveram aqui?

 

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