Lula aposta em operação contra o PCC para virar o jogo em seu ponto mais frágil: a segurança

A megaoperação contra atividades criminosas no setor de combustíveis e no mercado financeiro teve como alvo principal o Primeiro Comando da Capital (PCC). Mas a forma como foi divulgada deixou claro que o Palácio do Planalto tenta remediar também a segurança pública, ponto mais frágil do governo junto ao eleitorado.

A entrevista coletiva que reuniu nesta quinta-feira (28/8) os ministros Ricardo Lewandowski (Justiça), Fernando Haddad (Fazenda) e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, teve um importante personagem oculto. Sem aparecer para as câmeras, o ministro da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, acompanhou todo o anúncio sentado na primeira fileira, de frente para os colegas. Estava acompanhado de toda uma equipe responsável pela elaboração de vídeos e divulgação nas redes sociais.

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Desde que assumiu o posto no início deste ano, Sidônio tornou-se onipresente em praticamente todas as reuniões para tomadas de decisão importantes do governo, sobretudo naquelas que acontecem no terceiro andar do Planalto, onde despacha o presidente Lula. Nem sempre entra no mérito dos assuntos, mas frequentemente é ouvido sobre o momento adequado para colocar temas em pauta e a maneira como será feito.

Sua presença e a de sua equipe no Ministério da Justiça nesta quinta-feira não é casual. A segurança pública é o calcanhar de Aquiles do governo Lula e, na percepção dos brasileiros, uma área que a esquerda, em geral, trata com frouxidão. Pesquisa Quaest do início do mês coloca a violência como a principal preocupação dos eleitores, com 26% das menções, repetindo a tendência dos levantamentos de maio e julho.

PEC da Segurança Pública

Homem de bastidores, pouco afeito a pronunciamentos públicos, Sidônio permaneceu toda a coletiva em silêncio, apoiando o queixo em uma das mãos, como costuma fazer. Observado por ele, Lewandowski aproveitou o evento para reforçar a importância da PEC da Segurança Pública, uma das prioridades legislativas do governo para este ano, embora encontre resistência entre congressistas e governadores de oposição.

Em sua fala, o ministro da Justiça buscou materializar no imaginário da população o que pretende com a proposta. Tentou ser didático ao explicar que a operação de hoje, que busca desferir um duro golpe contra o principal grupo de crime organizado no país, só foi possível graças à integração de polícias e órgãos das esferas federal e estadual.

É justamente essa a ideia da PEC, que, em linhas gerais, visa integrar as forças de segurança sob responsabilidade de Brasília e dos Estados. Fica mais fácil passar essa mensagem à população ao divulgar com estardalhaço uma operação que desbaratina esquemas bilionários em postos de gasolina e na Faria Lima.

“A proposta do governo do Brasil é que todas as forças de segurança do país se entrosem, trabalhem num único sentido, que as inteligências sejam compartilhadas e as operações, coordenadas. Nós precisamos institucionalizar isso”, defendeu Lewandowski.

“E a PEC da Segurança, que esperamos seja aprovada em breve, tornará uma realidade essas operações no cotidiano de combate às ações criminosas, sobretudo as facções que hoje proliferam no Brasil”, continuou.

Mais uma Instrução Normativa da Receita

O evento desta quinta também trouxe a reboque uma pequena ironia do destino. Em conversa com um grupo de jornalistas ao deixar o Palácio da Justiça, Haddad afirmou que a Receita Federal publicará uma instrução normativa para enquadrar as fintechs como instituições financeiras. Assim, elas ficarão equiparadas aos grandes bancos para fins de fiscalização.

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A ironia está no fato de que uma instrução normativa semelhante, em gestação desde o segundo semestre do ano passado, foi justamente o que deu origem à onda de fake news sobre o Pix. Impulsionada por um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), a falsa informação de que o governo pretendia com o ato colocar os usuários do Pix na mira da Receita Federal contribuiu para derrubar a popularidade de Lula ao nível mais baixo de seus três mandatos.

O governo Trump ajudou o Planalto a reverter essa narrativa, ao incluir o mecanismo em uma investigação sobre práticas comerciais do Brasil, em meio ao tarifaço. Com isso, é o governo Lula quem se coloca agora como defensor do Pix, que entrou em operação no governo Jair Bolsonaro. O ato normativo parecido com o que causou um terremoto político e quase tirou o petista da corrida pela reeleição deverá ser publicado nesta sexta (29/8), sem grande estardalhaço.

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