A experiência como mola propulsora da tecnologia

Desde que minha filha manifestou interesse em seguir a carreira jurídica e, de fato, segue hoje na faculdade em sua busca intrínseca de construir o próprio racional do que é justiça, passei a refletir sobre o que a nossa geração pode transmitir as novas gerações de advogados diante do avanço galopante da tecnologia.

No passado, ao chegar em São Paulo nos idos anos de 1998 – vinda do interior do estado, recém-formada –, fui trabalhar em um escritório de advocacia localizado no centro da cidade. Lá, tive a sorte de conhecer profissionais incríveis, que se tornaram amigos e muitos seguem ainda hoje como mentores.

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Dentre várias orientações e conselhos recebidos naquela época, que me fizeram sobreviver ao caos de uma cidade grande e vencer os desafios diários enfrentados, dicas como as abaixo foram essenciais e tornaram-se inesquecíveis. Até hoje, sorrio ao recordar (sei que muitos também se lembrarão):

A necessidade de passar os andamentos de maneira objetiva, mas com todos os dados essenciais, nas inúmeras fichas de processos, perfeitamente organizadas no lindo fichário, sob pena de retornar ao cartório no mesmo dia… Após ser inquirida pelo sócio ou quando ao se debruçar sobre a defesa do caso verificar que não possui todos as informações necessárias;
Para otimizar às diligências no temido “Fórum Central” o melhor é subir de elevador até o último andar e ir descendo pelas escadas para evitar a demora dos elevadores nos andares abarrotados de colegas também muito apressados;
Se você já estiver na fila do protocolo – quando as pesadas portas do Fórum se fecharem ao final do dia, no tempo, às 18h, estará salvo!
Que o bom relacionamento com os cartorários é fundamental para que “localizem” o seu processo nas gigantes pilhas com pouca ou até nenhuma ordem;
Que é preciso pesquisar nas inúmeras RT´s, Revista dos Tribunais, (da grande estante do escritório, por vezes, durante todo o dia!) para encontrar uma jurisprudência compatível com a sua tese.

Hoje, na era da IA, dos processos eletrônicos e tantas ferramentas incríveis de busca, todas essas práticas ficaram para trás, o que é maravilhoso! Mas então, qual seria o nosso papel nesta nova era – além da questão técnica, que agora está a poucos cliques de distância? Ao pensar a respeito é inevitável não cair no celebre debate filosófico sobre o que hoje nos diferencia das “máquinas”.

O poder

Será que a inteligência artificial ocupará o nosso lugar? Com o passar dos anos nos tornaremos obsoletos? Nos últimos tempos, perguntas como essas têm permeado debates nos mais diferentes fóruns e assombrado o pensamento de muitos colegas da nova geração. Essa questão reflete uma preocupação legítima diante do avanço acelerado das inovações. Contudo, particularmente, não acredito que um dia a IA possa sobrepujar a capacidade do ser humano.

Por mais que a tecnologia avance, as decisões ao final de cada dia continuam sendo humanas. Nosso julgamento, baseado em experiências, narrativas, senso crítico e discernimento, é insubstituível. A tecnologia pode – e deve – ser utilizada como uma ferramenta de apoio, um complemento que nos auxilia a tomar decisões mais embasadas, mas nunca como substituta da nossa capacidade de escolha. Afinal, as decisões humanas são permeadas por ponderações éticas, empatia, senso de justiça e pensamento coletivo — faculdades inerentes à nossa condição de seres humanos e que nenhum algoritmo é capaz de reproduzir.

Como afirmou Yuval Noah Harari, em 21 Lições para o Século 21: “Os humanos controlam o mundo graças à sua capacidade de cooperação” E essa cooperação é construída sobre confiança, linguagem e cultura — aspectos inatingíveis às máquinas, por mais avançadas que sejam.

Mas o que fazer para que este poder não seja perdido de vista pelas novas gerações, que ingressam no mundo jurídico e precisam escapar da tentação de viver no metaverso?

Conselhos para as próximas gerações

Nosso dever, me parece, seja contribuir com estes novos colegas, alertando-os sobre pontos cruciais, que sempre terão o condão de perpetuar este poder dos humanos, se bem observados:

Ética: E sua importância na condução com integralidade de cada novo processo. No ano passado iniciei uma pós-graduação de Legal Operations dada a curiosidade de conhecer no detalhe e saber tirar proveito de toda esta tecnologia à nossa disposição atualmente. Foi com grande satisfação, e confesso que certa surpresa, que me deparei com o primeiro módulo (“Ética e Moral”), com aulas e debates brilhantemente conduzidos pelo conceituado professor Clóvis de Barros Filho, antes de adentrarmos no mundo das novas ferramentas objeto do curso. Ao ser estimulada a revisitar conceitos, dos mais diversos filósofos, e a importância de conectá-los com esta nova era, em um mundo onde decisões são cada vez mais influenciadas por algoritmos e dados, tive a certeza de que este é um ponto basilar para a manutenção do poder nas mãos dos que advirão. Manter os princípios éticos e a responsabilidade moral como pilares essenciais e pontos de partida para qualquer tipo de avaliação, seja ela profissional ou não, será indispensável para a correta condução da vida e servirá sempre como norte para o caminho da justiça.
Compreensão das nuances humanas: A necessidade de desenvolver a habilidade da empatia. As complexidades emocionais que, ao longo da vida nos especializamos, sempre acompanham as questões legais e precisam ser levadas em conta a todo momento, por um profissional habilidoso. A capacidade de se colocar no lugar do outro será sempre a melhor forma de se aproximar, de se comunicar com respeito e de construir pontes. Além disso, essa postura pode ajudar a evitar que, tomados pela “paixão pela tese”, se distanciem dos valores da sociedade real.
Manutenção da atividade cognitiva: A necessidade de manter o cérebro ativo e o pensamento aberto à novos formatos e opiniões. Mais do que dominar o conhecimento jurídico e tecnológico, é fundamental, que o profissional seja curioso e plural e não se acomode apenas a replicar entendimentos recolhidos e produzidos pelas mais diversas ferramentas. Estudar temas diversos, conhecer outros setores e dialogar com diferentes saberes contribuirá para uma visão ampla e estratégica do Direito, auxiliando-o a manter sua capacidade de escolha.
Desafiar-se: Manter o brilho nos olhos, faz com que o profissional siga sua jornada motivado e preparado para lidar com as transformações do mundo contemporâneo, povoando o seu entorno de esperança e cooperação.
Uso prudente da tecnologia: Utilizá-la de forma responsável, sempre atento aos seus limites e vieses, é fundamental para equilibrar o uso destas com os princípios da Justiça e Equidade, que comentamos acima. A tecnologia deve ser uma aliada – jamais um substituto da nossa capacidade de julgar, ponderar e aplicar aquilo que entendemos como justo.

Assim, entendo que nosso papel na era da IA é trabalhar para que nossas experiências sejam o fio condutor na construção do futuro e na manutenção do poder dos seres humanos. Nosso legado para as novas gerações é fornecer a base para que estas se adaptem de forma consciente e responsável a este novo e incrível mundo tecnológico.

Como agentes comprometidos em guiá-los de maneira segura e consciente nesta jornada de transformação, garantiremos que a evolução tecnológica seja aliada ao desenvolvimento humano, promovendo uma sociedade de atuação ética, empática e inovadora no cenário jurídico. Para concluir, cito Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

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