IA e data centers: expansão corporativa em tensão com justiça socioambiental

Em um cenário de corridas e tensões geopolíticas em busca da dominação global da inteligência artificial, somado ao exagerado hype[1]de grandes empresas em busca de uma hipotética Inteligência Artificial Geral (AGI), o debate sobre os riscos associados à infraestrutura material que sustenta esse frenesi tecnológico segue sem  a devida atenção no debate político e regulatório brasileiro.

O acelerado avanço no desenvolvimento de modelos de IA mais eficientes aumenta a demanda por data centers. Essa expansão se intensifica à medida que o Brasil prepara políticas voltadas à atração e construção de mais centros de dados, como a Política Nacional de Data Centers (Redata).

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Por trás da expectativa de atrair empreendimentos de cifras bilionárias e promessas de um futuro promissor, esconde-se um custo frequentemente invisibilizado: o socioambiental. A infraestrutura física da IA é profundamente extrativista, deixando rastros de mineração intensiva, alto consumo de energia e água, uso de combustíveis fósseis, emissões de gases de efeito estufa (GEE) e geração de resíduos sólidos hardware[2]. Muitas vezes, esse custo recai, de forma desproporcional, sobre comunidades marginalizadas, principalmente no Sul Global.

Para lançar luz sobre parte dessa lacuna, o Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN) elaborou o estudo “Inteligência Artificial e Data Centers: a expansão corporativa em tensão com a justiça socioambiental”,[3] buscando responder: como os impactos socioambientais gerados por data centers utilizados na computação para IA têm sido tratados pelo setor?

A pesquisa analisou os relatórios de sustentabilidade de seis empresas  — Amazon, Google, Microsoft (estrangeiras), Ascenty, Elea e Scala (brasileiras) — para identificar: quais compromissos socioambientais têm sido publicamente assumidos (ou não), como têm sido implementados para a mitigação de riscos e com qual grau de transparência e efetividade.

A metodologia combinou uma abordagem quantitativa, em que orientadoras foram respondidas com “sim”, “não” ou “parcialmente”, e uma abordagem qualitativa a partir de uma análise crítica de lacunas e contradições, considerando o período entre 2020 e 2025.

Os resultados são preocupantes. Todas as empresas analisadas reportaram aumentos significativos nas emissões de carbono, consumo de água e energia e geração de lixo. Observou-se, com preocupação, que algumas empresas sequer divulgam parte desses indicadores, evidenciando uma grave lacuna de transparência evidente.

A barreira linguística também é marcante: as big techs apenas publicam seus relatórios em inglês. No Brasil, a situação é ainda mais preocupante. Quando existem, os relatórios são genéricos, irregulares e pouco detalhados, sem indicadores consistentes  ou dados históricos comparáveis.

Outro ponto crítico em relação a todas as empresas analisadas é a dependência de créditos de carbono para compensar emissões, mascarando impactos reais. Além disso, todas também falham em dar visibilidade às cadeias de extração mineral que sustentam a expansão da IA.

O estudo comprovou uma tensão estrutural complexa entre avanço tecnológico e responsabilidade socioambiental. No debate público, no entanto, predomina um foco desproporcional em incentivos tributários e competitividade econômica, enquanto preocupações sociais e ambientais permanecem à margem.

Além do Redata, ainda não publicado pelo governo federal nem discutido amplamente com a sociedade, tramitam no Congresso projetos de lei voltados à regulação de data centers, como os PL 3018/2024[4] e PL 2080/2025.[5] São propostas iniciais, que carecem de debate inclusivo, especialmente junto às comunidades locais afetadas e grupos marginalizados, como povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros povos tradicionais e periféricos.

Nesse contexto, nenhuma empresa analisada apresentou mecanismos de escuta, consulta ou diálogo significativo com comunidades afetadas pelas instalações de data centers. Essa omissão é grave num país que já vivencia  conflitos concretos, como no caso do data center do TikTok, em Caucaia, no Ceará, — contestado pelo povo indígena Anacé[6] — e do data center da Scala, em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul[7], projetado em territórios reivindicados e ocupados por comunidades indígenas, além de ter sido uma das regiões devastadas pelas enchentes de 2024.

A aposta em energia renovável tem sido usada como um dos principais argumentos para justificar investimentos em data centers, sendo frequentemente apresentada como uma solução ambientalmente neutra. Durante uma das únicas duas audiências públicas sobre o PL 3.018/2024, dominada por representantes do setor privado e governo, exaltou-se como a vantagem competitiva da matriz energética brasileira, predominantemente renovável.[8]

No entanto, esse discurso requer cautela, pois fontes renováveis não são inquestionavelmente limpas, isentas de impactos nem soluções milagrosas, ainda mais em um país que sofre com problemas frequentes de intermitência no fornecimento de água e energia em regiões estruturalmente afetadas pela escassez.[9]

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O estudo aponta que, antes de se avançar com políticas de fomento e isenções fiscais, é urgente dar um passo atrás e refletir sobre a real capacidade do Brasil de  avaliar e mitigar os impactos desse nível e magnitude de política pública.

Onde queremos chegar? Por quê? Quem pagará o custo de nossos recursos — energia, água, ar de qualidade, minérios e terra — e quem se beneficiará deles? Soberania, desenvolvimento tecnológico e preservação ambiental se misturam numa complexa equação.

O real compromisso com a sustentabilidade não pode ser apropriado por narrativas corporativas de reputação, pois um futuro sustentável, de fato, é coletivo, plural e democrático. Deve-se estender ao debate público que uma verdadeira transição digital justa só será possível se estiver enraizada na justiça socioambiental, superando a retórica corporativa que legitima uma expansão tecnológica a qualquer custo.

[1] BENDER, Emily M; HANNA, Alex. The AI Con: How to Fight Big Tech’s Hype and Create the Future We Want. New York, 2025.

[2]  CRAWFORD, Kate. Atlas of AI: Power, Politics and the Planetary Costs of Artificial Intelligence. Yale University Press, New Haven and London, 2021.

[3] Para acessar o relatório elaborado pelo LAPIN, acesse: https://lapin.org.br/2025/08/11/confira-o-relatorio-inteligencia-artificial-e-data-centers-a-expansao-corporativa-em-tensao-com-a-justica-socioambiental/.

[4] Que dispõe sobre a regulamentação dos data centers de inteligência artificial. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/164831.

[5] Que Institui a Política Nacional de Eficiência Energética e Sustentabilidade Socioambiental para Data Centers. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2503790.

[6] MARTINS, Lais. Indígenas Anacé protestam contra data center do TikTok no Ceará e pedem suspensão do licenciamento ambiental. Intercept Brasil. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/08/04/indigenas-anace-protestam-data-center-tiktok-ceara/

[7] MARTINS, Lais. Eldorado do Sul abre portas para projeto bilionário de data centers. Intercept Brasil. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/06/23/eldorado-do-sul-abre-portas-para-projeto-bilionario-de-data-center/.

[8] TV SENADO. CCT discute regulação de data centers de inteligência artificial, 2025. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=CJODORe9i0g&t=11s.

[9] ZHANG Yanwei; WANG Yefu; WANG Xiaorui. GreenWare: Greening Cloud-Scale Data Centers to Maximize the Use of Renewable Energy. 12th International Middleware Conference (MIDDLEWARE), DEZ 2011, Lisbon, Portugal. pp.143-164. Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-642-25821-3_8

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