Este breve artigo visa a cumprir dois objetivos. O primeiro é tentar decifrar esse imbróglio causado pelo tarifaço de 50% imposto pelo governo Trump às importações brasileiras. O segundo reside em especular as repercussões desse ato unilateral na eleição presidencial de 2026.
Quanto ao primeiro, a decisão de Donald Trump ao estabelecer essa tarifa carrega vários pecados capitais na área da política: primeiro porque não houve um comunicado oficial de governo para governo na área diplomática, mas uma postagem em rede social do próprio Trump, misturando conteúdos político-ideológicos com comerciais, exalando uma falta de racionalidade primária; e segundo que os EUA são superavitários na balança comercial com o Brasil, o que, comercialmente, não justificaria esse ato.
Mais importante ainda, constitui uma intromissão em aspectos soberanos de outro país, ao condicionar a redução da tarifa ao encerramento da ação no STF contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, embutindo uma ameaça nada velada à nossa soberania.
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Há que se considerar, ainda, razões comerciais para o tarifaço direcionado ao governo brasileiro: a taxação das big techs americanas. No início de 2025, o governo brasileiro vinha discutindo a possibilidade de taxação sobre serviços prestados por gigantes de tecnologia como Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon e Meta (Facebook), como forma de resposta às tarifas impostas por Trump para importações de aço e alumínio pelos EUA.
A proposta não teve seguimento, e o governo brasileiro passou a discutir a regulamentação de práticas anticompetitivas em plataformas digitais ao invés de taxá-las. No anúncio deste segundo tarifaço, o de 50%, foi também exposta uma investigação dos EUA sobre barreiras tarifárias e não tarifárias do Brasil, alegando práticas comerciais brasileiras que prejudicam a competitividade de empresas do setor de comércio digital e serviços de pagamento (como Mastercard, Visa e Meta). Uma das práticas investigadas e que ganhou grande repercussão na mídia brasileira foi o pagamento via Pix, o sistema de pagamento instantâneo brasileiro, criado pelo Banco Central.
Vindo de Trump talvez nada disso surpreenda, pois já fez ameaças até mais graves à China, ao Canadá e ao México, confirmando o destempero de seu presidente, justificando taxações por motivos de “a relação com esses países não tem sido boa”. A mídia americana tem lhe valido vários epítetos, como o de Taco: “Trump always chickens out”, uma referência ao fato de que como negociador, Trump sempre se acovarda, expressão que, diga-se de passagem, também se aplica a Bolsonaro, o que pode revelar mais uma afinidade entre os dois. Pelas posições tomadas, Trump tem sido chamado de imperador ou dono do mundo. Preferimos chamá-lo de xerife, mais condizente com a nação que representa.
O tarifaço imposto a diversos países tem causado forte celeuma no panorama mundial. Restringindo nossa análise ao Brasil, o governo brasileiro tem se comportado com cautela e responsabilidade no trato da questão. No entanto, o presidente Lula tem aproveitado o episódio para despertar nosso nacionalismo chegando ao ponto de dizer que é bom no truco, um traço oposto ao Taco, discurso esse amenizado nos últimos dias.
Todo esse processo pode representar um confronto entre o Taco e o truco, não que se resuma a isso. Vários cenários têm sido examinados pelo governo brasileiro, onde, até agora, a Lei da Reciprocidade ocupa a última medida a ser tomada, uma vez que o impacto na inflação local seria mais pesada para o Brasil.
Evidentemente os prejuízos serão grandes, principalmente no curto prazo, considerando o prazo exíguo estabelecido pelo governo americano, o que atinge até o caso de produtos já embarcados. Mas, também, como se sabe, onde existem dificuldades, podem aparecer novas oportunidades, destacando-se a busca de novos mercados fora da soberba americana e dos humores trumpistas. Não é o fim do mundo, sem desprezar seus efeitos deletérios, sem fazer bazófia da bazófia.
Por outro lado, não dá para desprezar os movimentos internos na própria sociedade americana. Se, do lado brasileiro, emerge a dificuldade de encontrar de pronto mercados para os produtos brasileiros, também do lado americano não será fácil encontrar a reposição imediata dos produtos cancelados. Isso tem repercussões nos mercados consumidores, na inflação de alimentos e combustíveis, gerando insatisfações e pressão popular, principalmente das classes médias, sobre o incumbente.
Também deve ser levado em consideração a estratégia de mercador de Trump: pede alto para acertar por uma preço “razoável”, o que já ocorreu em lances pretéritos. A questão mais de fundo a ser trazida ao debate parece ser a seguinte: face ao exposto acima, qual é a motivação essencial do presidente americano para deflagrar o tarifaço acompanhado da proposta de cunho político indecente a ela associada?
Fica explícito que ao associar o cancelamento da nova tarifa à uma anistia de Bolsonaro por parte do governo brasileiro, não percebe, sendo condescendente, que isso não é atribuição do Executivo, mas do Judiciário, assim é nas democracias. A motivação de Trump teria como causa uma identidade ideológica com o ex-presidente brasileiro, ou, no fundo seria a taxação pelo governo brasileiro das big techs, peças importantes na economia estadunidense.
Alguns analistas econômicos ainda apontam a possibilidade de Trump ter fornecido informações privilegiadas a players específicos na Bolsa americana antes do anúncio da taxação a economia brasileira, rendendo-lhes benefícios volumosos. Seja o que for, é inconteste que o movimento foi de uma arrogância ímpar, incomum em líderes sensatos e equilibrados.
Passando para o segundo objetivo deste artigo, vamos especular os efeitos dessa posição do governo americano sobre a eleição presidencial de 2026. A parte mais visível desse iceberg se refere a um efeito nacionalista e patriótico que a petulância trumpista causou, sentimento despertado mais nos campeonatos mundiais de futebol, que reverteu a tendência de queda de popularidade de Lula.
O governo, leia-se o PT, retrucou o tarifaço e tem aproveitado bem o fato para mobilizar essas energias a seu favor ao redor do conceito de soberania. Como corolário dessa missiva digital de Trump ainda se deu a manifestação atípica e esdrúxula de Eduardo Bolsonaro, o filho 03, deputado federal “licenciado”, um ato tão absurdo que fica difícil tipificar o crime que o envolve. E ele continua livre e solto por aí, jogando contra os interesses nacionais para salvar o pai e sua trupe.
Não ficou atrás o outro filho, o senador Flávio Bolsonaro, que também fez ameaças veladas ao governo brasileiro, fazendo coro a um pretenso pedido de cassação do ministro Alexandre de Moraes. Flávio, em entrevista à CNN Brasil, chegou a metaforizar o ataque nuclear dos EUA em Hiroshima na Segunda Guerra Mundial com a situação do Brasil, alegando que o governo brasileiro não tem poder de barganha frente aos EUA e que deve buscar a anistia do seu pai, evitando que duas bombas atômicas caiam no Brasil. Não tem limites o delírio bolsonarista.
Não menor foi a reação de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, um não filho, que manifestou apoio irrestrito ao chefe e à taxação de Trump ao Brasil, sendo obrigado a retratar-se depois, tendo inclusive apagado fotos de seu perfil em que utilizava o boné do MAGA (Make América Great Again) em apoio ao movimento que alçou Trump à presidência.
Os efeitos disso no sentimento popular e de analistas políticos é que os três, entre outros, colocam os interesses americanos acima dos interesses nacionais, do empresariado e da classe trabalhadora, o que caracterizaria um crime. Difícil, no entanto, imaginar a durabilidade dos estragos causados nas forças bolsonaristas, porém identifica-se uma fragmentação e uma luta não mais surda entre diferentes postulantes a herdeiros.
O passo seguinte consiste em examinar as candidaturas possíveis para 2026. Os dois lados, bolsonaristas e petistas, não estão em nenhuma situação confortável. Do lado do PT, só existe um candidato, Lula da Silva, já quase octagenário, que partiria para seu quarto mandato.
O nome de Fernando Haddad já mostrou que não reverbera nos corações e mentes do eleitorado. Pior ainda, não surgiu uma geração mais nova na esquerda capaz de se viabilizar. Assim, é Lula ou Lula. Se do lado petista, o pecado é por falta, do lado bolsonarista o pecado aparentemente é por excesso. Existe uma luta surda entre vários pretensos herdeiros do espólio do ex-presidente inelegível.
Para marcar posição, alguns já se lançaram pré-candidatos, como Ronaldo Caiado, governador de Goiás, seguido por Romeu Zema, governador de Minas Gerais. Esses dois nomes, além do governador do Paraná, Ratinho Júnior, não possuem densidade nem projeção nacional para pleitear a Presidência. Resta o nome de Tarcísio, que faz uma gestão bem avaliada como governador de São Paulo, embora seus movimentos a favor da taxação americana aos produtos brasileiros tenham desagradado empresários e até segmentos do eleitorado bolsonarista.
Parece, assim, que a decisão seria fácil, mas não o é, ao adentrarmos a seara do imponderável ou do “sobrenatural”. Pelo que se conhece de Jair Bolsonaro, ele não confia em ninguém fora do seu círculo familiar, atestando a centralidade do clã. Na verdade, o candidato dos seus sonhos seria o filho Eduardo, que se autoexilou nos EUA, receoso de alguma ação do STF, restringindo ainda mais o campo bolsonarista. A não ser que resolva pagar para ver, é carta fora do baralho.
Tarcísio emerge como o nome mais viável para a corrida presidencial por parte das forças da direita e extrema direita. Mas, como já sinalizado acima, o seu grande problema é ser um não filho e que na bolha da rede social bolsonarista começa a ganhar a alcunha de traidor.
Na mesma situação encontra-se Michelle Bolsonaro, apontada pelo eleitorado bolsonarista como a preferida para substituir o ex-presidente, segundo recente pesquisa Genial/Quaest, de 10 a 14 de julho com âmbito nacional. Michelle surge com 33% das indicações, seguida por Eduardo (22%) e Tarcísio com apenas 20%. Mas deverá predominar o critério do sangue para a escolha de Bolsonaro, que poderá ficar sem candidato. Dada a personificação que rege o bolsonarismo, na linha “o bolsonarismo sou eu”, o capitão poderá até não se inclinar por nenhum candidato, qualquer absurdo, aliás, cabe no universo bolsonarista.
Nos últimos dias ganhou tração o nome de Flávio, o plano 02 do chefe do clã. Sem Eduardo, na cadeia sucessória surge o senador pelo RJ. Assim, Jair Messias manteria sob seu controle e direção o movimento que criou, afastando gente sem o sobrenome Bolsonaro. Se assim for definido, Tarcísio ou se conforma em disputar a reeleição ou se revolta e se lança candidato pelo Republicanos. Nenhuma hipótese pode ser descartada quando os passos são dados em um terreno pantanoso onde os interesses familiares falam mais alto e de absoluta falta de racionalidade.
Essa indefinição de Bolsonaro puxa uma outra questão: qual é ainda o capital político do ex-presidente? Pelo que se observa do movimento dos últimos dias, a partir da decisão do STF de estabelecer sanções às suas atividades públicas ou digitais, parece que o seu sustentáculo se resume a seu partido, o PL. Ainda, esse apoio parece estar se restringindo, pois o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, declarou ao STF que foi forçado a divulgar informações falsas sobre fraude nas urnas eleitorais.
A persistir essa indefinição, as forças políticas herdeiras do espólio bolsonarista correrão atrás de seus interesses, mormente o caso de Tarcísio, que amealhou um significativo capital político. Convém notar que Tarcísio está no Republicanos, ou seja, tem raia própria, caso decida concorrer ao Planalto. A situação tem tudo para se agravar caso Bolsonaro seja preso, o que se mostra bem provável, pois já está sob medidas cautelares indicadas pelo STF para seu risco de fuga do país. Ainda que seja uma prisão domiciliar, quem ficará a seu lado? Certamente, uma fração que irá explorar a vitimização do condenado, injustiça, perseguição etc. Será uma oportunidade para a direita convencional expurgar, até certo ponto, as forças ultrarradicais de seu conjunto.
Como se percebe, o quadro está muito confuso, não querendo dizer que não possa ficar mais ainda. É cedo para tentar situar as chances reais de cada proto candidato. Segundo a teoria do voto econômico[1], que relaciona sucesso eleitoral ao bem-estar econômico, a candidatura de Lula dependerá do desempenho econômico de seu governo.
Tarcísio de Freitas examinará cuidadosamente se valerá correr a aventura de disputar o Planalto se tem chances concretas de reeleição em São Paulo. Assim, ficaríamos com uma situação inusitada da direita/extrema direita não ter um candidato competitivo, o que certamente faria recair uma pressão imensa sobre o governador.
Na turbidez desse cenário não causa espanto se surgir uma candidatura Pablo Marçal, que não tem nada a perder, aproveitando-se do vácuo nessas forças direitistas. Como está inelegível, parece que estamos livres desse risco, mas no Brasil, como se diz, até o passado é incerto, quanto mais o futuro. Nessa neblina toda, o centrão, o grande eleitor deste país, fica só observando: se o governo Lula se recuperar, seus membros farão o L; caso Tarcísio se consolide como o nome da oposição e com chances reais de competitividade, mesmo sem o beneplácito de Bolsonaro, farão o T.
No momento presente, apesar do caráter simbólico da sanção ao ministro Moraes, acaba de ocorrer um recuo na posição americana. Além do importante item de aeronaves da Embraer, cerca de 700 produtos se tornaram exceções, ficando ainda na mira trumpista, entre outras, exportações de café, carnes e frutas, mas é um recuo significativo.
Trump assinou a medida para entrar em vigor com um prazo de uma semana, quando estava previsto para vigorar a partir do dia 1º de agosto, o que dá uma folga para produtos que já estão prontos para embarque. Isso pode ser interpretado como a manifestação do efeito “Taco” – que poderá se aprofundar, já que outros tacos poderão vir.
Por outro lado, o Brasil tem insistido na busca da negociação e do diálogo, não precisando recorrer ao efeito truco. Contra a soberba trumpista o Brasil tem se colocado longe de uma posição de cócoras ou de amedrontamento, disposto ao diálogo civilizado, o que nos engrandece como nação.
Parece também possível especular que essa retirada das tropas trumpistas representa um enfraquecimento das forças bolsonaristas, mormente os argumentos do deputado licenciado, ora sediado nos EUA. Fica difícil estimar a perdurabilidade da lembrança (recall) dessa situação até a campanha eleitoral de 2026, ou seja, pouco mais de um ano, mas um boné na cabeça não se apaga nunca.
[1] NUNES, Felipe; TRAUMANN, Thomas. Biografia do Abismo: Como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil. Rio de Janeiro: Editora HarperCollins, 2023.