Hidrogênio verde: começar é sempre o mais difícil, mas Brasil não está recuando

Nos últimos dias, manchetes destacaram o recuo de grandes projetos de hidrogênio verde ao redor do mundo. Na Austrália, por exemplo, um dos países com maior ambição no setor, sete empreendimentos foram adiados, reduzidos ou até mesmo cancelados. Na sua maioria projetos anunciados por grandes corporações do setor de óleo e gás. Custos elevados, dificuldade de encontrar compradores e insuficiência de subsídios consistentes têm colocado em xeque a viabilidade de alguns desses projetos.

Realmente não é trivial o início de um setor industrial completamente novo, complexo, de alto valor agregado e com uma dependência enorme de outros setores da economia, o que se chamou de adensamento da cadeia produtiva. Em um artigo recente, Adão Linhares, ex-secretário de Energia do Ceará, elencou os históricos desafios nacionais enfrentados pela energia eólica desde o início dos anos 2000.

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Hoje, segundo dados da ABEEólica, a energia eólica é a segunda fonte de grande porte no Brasil, com mais de 35,4 GW instalados, representando 16,5% na matriz elétrica brasileira. O seu crescimento exponencial demonstrou a vantagem comparativa do Brasil no desenvolvimento de energia elétrica renovável competitiva.

O esforço realizado para o primeiro leilão de energia de reserva (LER) em 2009 foi crucial para que a maturidade da fonte eólica crescesse e resultasse no potencial comparativo do Brasil para a descarbonização da economia em diversas regiões do território nacional. Nesse caminho, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) apontou que em 2023 a geração de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional foi composta por 93% de fontes renováveis.

Dentro dos planos da agenda verde do governo, escolheu-se o hidrogênio verde como um importante vetor descarbonizante da economia. Com isso se está construindo, passo a passo, uma indústria sólida de hidrogênio, amônia, metanol e fertilizantes verdes, conectada com a transição climática e com o desenvolvimento industrial nacional. Ao contrário do senso comum, esses largos investimentos demonstram a fortaleza da nova indústria a partir de um marco legal bem estruturado, confiável e previsível (Lei 14.948 e Lei 14.990).

A pavimentação de um sólido ambiente de negócios está na resultante da articulação entre indústria, ciência, governos e sociedade, que simbioticamente se complementam, conferindo ao Brasil um posicionamento entre os países mais promissores e competitivos em termos de custo de energia comparado ao mundo na indústria do hidrogênio verde.

A sociedade acompanha de perto o nascimento dessa nova indústria e os números recém-apresentados pela ABIHV na fact sheet dos projetos com FID para 2026, 2027 e 2028 falam por si:

Até 2026, estão previstos R$ 63 bilhões em investimentos em projetos com decisão final de investimento (FID), somando 6,15 GW de capacidade de eletrólise;
Entre 2027 e 2029, mais R$ 44 bilhões serão injetados na economia, com 4,81 GW adicionais de capacidade.
Serão mais de 40 mil empregos gerados somente nas fases de construção desses empreendimentos.
São plantas que produzirão amônia verde, hidrogênio verde, e-metanol e e-combustíveis para o Brasil e o mundo.

São muito comuns os obstáculos de competitividade enfrentados e já elencados em diversos fóruns de discussão: custos iniciais são altos, necessidade de escala tecnológica, os modelos de negócio ainda estão se ajustando, adequação do uso dos recursos públicos, criação de consciência social da importância da pauta e entendimento da importância econômica do mercado exportador. Foi assim com a energia solar. Com a eólica. Foi assim com o gás natural liquefeito e será assim com o hidrogênio, a amônia, o metanol e os fertilizantes verdes.

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Mas é justamente agora, ao aferir os negócios para projetos estruturantes, ao calibrar a cadeia de fornecedores nacional e, no entendimento de que a nova indústria é ultraeletrointensiva e requer energia barata, que se separam os países que efetivamente entrarão na economia do século 21.

No Brasil, a agenda verde e o projeto de transição ecológica estão em franca expansão. Com protagonismo, com sustentabilidade, com visão de futuro e principalmente, com foco no desenvolvimento de áreas especiais como os estados do Nordeste. As iniciativas dos projetos de economia verde mostram que o país já deu o primeiro passo — e não vai parar por aqui. Há um compromisso genuíno com uma transição energética justa, inclusiva e estratégica para o Brasil.

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