Geopolítica ou geoeconomia – o que está na essência da ofensiva do presidente Donald Trump contra o Brasil? No mesmo dia em que assinou uma ordem executiva aumentando para 50% a tarifa sobre produtos brasileiros, ele também anunciou a aplicação da Lei Magnitsky a um ministro do Supremo Tribunal Federal. A justificativa foi de que o magistrado estaria desprezando as garantias individuais, violando direitos fundamentais do ex-presidente Jair Bolsonaro e reprimindo pessoas que fizeram discursos protegidos pela Constituição americana.
A resposta à indagação do início deste texto é evidente: ainda que tenha agido da maneira rústica, atabalhoada e torpe que o caracteriza com os olhos voltados à geoeconomia, Trump recorreu à geopolítica para tentar dar algum fundamento às suas intenções.
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É isso que se depreende da leitura dos polêmicos primeiros nove parágrafos de sua ordem executiva. Eles funcionam como uma espécie de excipiente especialmente concebido para justificar não apenas seu desprezo pelas regras do comércio mundial e pelo multilateralismo, reduzindo a economia internacional aos interesses exclusivos da economia americana.
Ao justificar a guerra comercial que deflagrou contra o mundo, a ordem executiva afirma que o governo brasileiro vem ameaçando a segurança nacional, a política externa e a economia dos Estados Unidos. Também o acusa de infringir os direitos de livre expressão de cidadãos americanos, de prejudicar empresas americanas, de proteger aliados corruptos e de “perseguir politicamente” o ex-presidente Jair Bolsonaro, violando direitos humanos fundamentais e minando as condições de uma eleição presidencial “livre e justa” em 2026.
Por fim, diz que as instituições brasileiras colocam em risco a economia dos Estados Unidos “ao coagir, de forma tirânica e arbitrária,” as big techs americanas, a censurar discursos políticos e entregar “dados sensíveis de usuários americanos”.
Todos sabemos que nada disso é verdade. São apenas narrativas do primarismo da ala radical do Partido Republicano e da tosca extrema direita bolsonarista. Ou seja, não passam de mentiras. E é isso que assusta, pois devolve os Estados Unidos a um período sombrio vivido meio século atrás, durante o governo do republicano Richard Nixon.
Após violar a ordem constitucional, o que ficou evidenciado pelos Pentagon Papers, em 1971, e pela invasão do escritório do Partido Democrata no edifício Watergate, em 1972, o presidente – um precursor de Trump – acabou sendo obrigado a renunciar.
Na época, isso levou os meios acadêmicos a travar um intenso e importante debate sobre o papel da mentira na vida política dos Estados Unidos. Foi nesse momento em que se destacou a filósofa alemã Hannah Arendt, que se exilara em Nova York no começo da década de 1940, fugindo da barbárie nazista. Dois ensaios seus sobre os perigos do autoritarismo – Verdade e política, de 1954, e A mentira na política: considerações sobre os documentos do Pentágono, de 1969 – tornaram-se clássicos e merecem ser lembrados no momento em que a Casa Branca voltou a ser ocupada por um político mentiroso torpe, amoral e inconsequente. Nestes dias de pesadelo trumpiano, vale a pena relembrar seus argumentos:
“A negação deliberada da verdade dos fatos – isto é, a capacidade de mentir – e a faculdade de mudar os fatos – a capacidade de agir – estão interligadas. Devem sua existência a uma mesma fonte: imaginação (…). Fatos necessitam de testemunho para sempre lembrados e de testemunhas de confiança para se estabelecerem. Daí decorre que nenhuma afirmação factual pode estar além da dúvida, tão segura e protegida contra ataques. É esta fragilidade que torna o embuste tão fácil até certo ponto e tão tentado. Ele não entra em conflito com a razão, pois as coisas poderiam ser como o mentiroso diz que são. Mentiras são muito mais plausíveis, mais clamantes à razão do que a realidade, uma vez que o mentiroso tem a grande vantagem de saber de antemão o que a plateia deseja e espera ouvir. Ele prepara sua história com muito cuidado para consumo público, de modo a torná-la crível”.
As desinformações presentes nos nove primeiros parágrafos da ordem executiva de Trump e as falas de um dos filhos de Bolsonaro revelam a atualidade dos argumentos de Hannah Arendt. Nesse sentido, aliás, uma passagem específica de seu ensaio sobre a mentira na política parece ter sido escrito ontem:
“O mentiroso que consegue enganar com quantas falsidades quiser verá que é impossível enganar com mentiras de princípios. Esta é uma das lições que podiam ter sido aprendidas das experiências totalitárias e da assustadora confiança de seus dirigentes no poder da mentira – na capacidade de reescreverem a história para adaptar o passado à linha política do momento presente”, concluía.
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Com sua visão estreita, curta e enviesada, nem Trump nem Bolsonaro devem ter ouvido falar de Hannah Arendt. Já no Supremo ocorre o contrário. Os ministros leram esses dois ensaios dela e certamente saberão lidar com intolerância da extrema direita. Também sabem que nossa ordem constitucional – promulgada após duas décadas de uma infame ditadura militar – prevê meios jurídicos para a contenção dos predadores da democracia brasileira.