“As far as fakes go, they’re pretty good. I’d buy them”.
House of Gucci, 2021 [1]
Nas últimas semanas, o mundo da moda de luxo foi balançado por notícias e vídeos (flooding contents) divulgados por usuários, aparentemente chineses, mostravam o processo de fabricação de artigos de luxo[2][3].
Essas revelações, em poucos meses, trouxeram à tona uma nova análise de ordem global, e não de forma abstrata e metafísica, mas evidenciada com a atuação de medidas protecionistas por uma das maiores economias do mundo, os Estados Unidos, com imposição de tarifas [4], no melhor estilo McKinley [5].
Outro acontecimento relevante é o surgimento do DeepSeek. Muito embora trata-se de cadeias produtivas e industriais um tanto quanto distintas, isso também fez com que grifes tecnológicas, como a Nvidia, passasse por uma desvalorização de suas ações[6].
Assim, aos mais atentos e aqueles que superam paradigmas para análises científicas e históricas, depreende-se também que a China registrou o maior crescimento percentual e absoluto em sua participação de exportações de alta tecnologia – produtos de alta intensidade em P&D, tais como no setor aeroespacial, computadores, produtos farmacêuticos, instrumentos científicos e maquinaria elétrica. O país transformou radicalmente seu perfil exportador de aproximadamente 5-10% para cerca de 30-35% considerando desde 1980, conforme demonstram dados do Banco Mundial.
Para melhor ilustrar a análise, adiciona-se ao comparativo com a China o Brasil, a Alemanha e os Estados Unidos.
Provoca-se a partir dessa breve análise a seguinte pergunta: se tanto consumimos a tecnologia produzida na China, não chegou a hora de entender como esse país tão desenvolvido chegou em seu atual momento?
A partir de dados disponibilizados pelo Banco Mundial[7], dispõe-se de uma breve análise focada em indicadores-chave, comparando a trajetória de quatro nações distintas — China, Brasil, Estados Unidos e Alemanha — entre 1990 e 2023.
A China transformou-se de um país com menos de 5% da população online em 2000 para 78% em 2023, aproximando-se de Alemanha (94%) e EUA (93%); seu PIB cresceu a taxas médias anuais acima de 6%, enquanto economias maduras como EUA e Alemanha oscilaram entre 1% e 3%; e a China transportou 3,018 bilhões de toneladas-quilômetro em ferrovias (2019), superando os EUA (2,239 bilhões), e liderou investimentos em parcerias público-privadas (US$ 327,4 bilhões em energia, 2022), demonstrando ser o país que mais investiu em infraestrutura.[8]
Analisando a última referência de 2024 sobre Saberes Digitais dos Docentes no governo federal[9], é possível constatar que as referências internacionais e nacionais são Espanha, Austrália, Estados Unidos, Unesco e Europa, muito embora o dispositivo utilizado para aprendizagem digital provavelmente tenha sido produzido na China. [10][11]
Ricardo Gaspar, em sua resenha[12] ao livro Brasil, uma economia que não aprende, dos autores André Roncaglia e Paulo Gala[13], destaca o atraso em ciência e tecnologia como um dos principais fatores para a estagnação econômica do Brasil desde os anos de 1980, especialmente devido às políticas governistas de baixa afetação estatal de natureza estratégica que enfraqueceram o desenvolvimento e a competitividade industrial do país.
O que aprender com a China para melhorar nosso avanço na educação digital?
A estratégia chinesa de desenvolvimento combina inovações institucionais, política cambial competitiva, juros baixos, adensamento produtivo, altos investimentos e controle estatal sobre setores estratégicos e o sistema financeiro [14]. Assim, procura-se extrair três lições baseadas na experiência chinesa para que, ao se pensar em educação digital efetiva, talvez elas possam ser úteis.
Para acontecer, precisa ser barato.
Sendo o país mais populoso do planeta, não se pode pensar em políticas públicas que sejam financeiramente caras. Um exemplo: colocar computador em todas as escolas ou criar uma lan-house em local estratégico para uso coletivo.
A China não projeta ações para curto prazo apenas, mas há uma mentalidade de projetamento contínua, com diversos gestores de projetos envolvidos. Um grande projeto nacional demanda a construção de elos entre o povo, que será refletido em quem o governa(rá). Um exemplo é a publicação do Esboço do Planejamento para a Construção de um País Forte na Educação (2024-2035).[15]
Os juristas possuem um papel importante no planejamento de reformas nacionais de forma científica, aliados a diversos outros profissionais, que procuram organizar desenhos institucionais baseados na realidade empírica brasileira e não apenas no direito atualmente positivado. Como afirma Xi Jinping:
“Devemos planejar de maneira científica as tarefas de reforma e coordenar adequadamente a aplicação das medidas de reforma lançadas nas […] impulsionando a reforma conforme a lei e aperfeiçoando as leis no processo da reforma. Devemos determinar as prioridades, nos focar nelas, detectar com precisão os problemas e adotar uma série de medidas práticas e eficazes que possam resistir aos testes e serem aceitas pelas massas populares. E necessário tratar bem as relações entre as dificuldades da fase inicial e os esforços da reta final da reforma, desobstruir o seu caminho do início até o fim e evitar a omissão, demonstrando as vantagens dos projetos de reforma e fazendo com que o povo se sinta mais beneficiado”.[16]
[1] “As far fakes go, they’re pretty good.” Clip.Cafe, [S.l.], 2021. Disponível em: https://clip.cafe/house-of-gucci-2021/as-far-fakes-go-theyre-pretty-good/. Acesso em: 08 maio 2025.
[2] “Exclusividade das grifes é questionada após exposições chinesas.” Tribuna de Minas, Yasmin Henrique, 23 maio 2025. Disponível em: https://tribunademinas.com.br/colunas/maistendencias/exclusividade-das-grifes-e-questionada-apos-exposicoes-chinesas/. Acesso em: 08 maio 2025.
[3] “The Truth About Chinese Manufacturers on TikTok.” Jing Daily, [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://jingdaily.com/posts/the-truth-about-chinese-manufacturers-on-tiktok. Acesso em: 08 maio 2025.
[4] UNITED STATES. The White House. Amendment to Reciprocal Tariffs and Updated Duties as Applied to Low-Value Imports from the People’s Republic of China. 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/04/amendment-to-recipricol-tariffs-and-updated-duties-as-applied-to-low-value-imports-from-the-peoples-republic-of-china/. Acesso em: 08 maio 2025.
[5] “William McKinley.” Wikipedia, [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/William_McKinley. Acesso em: 08 maio 2025.
[6] “DeepSeek: conheça a empresa chinesa de IA que fez a ação da Nvidia cair mais de 10%.” Bora Investir, [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://borainvestir.b3.com.br/noticias/empresas/deepseek-conheca-a-empresa-chinesa-de-ia-que-fez-a-acao-da-nvidia-cair-mais-de-10/. Acesso em: 08 maio 2025.
[7] BANCO MUNDIAL. Indicadores Mundiais. Disponível em: https://datos.bancomundial.org/?locations=CN-BR-US-DE. Acesso em: 08 maio 2025.
[8] BANCO MUNDIAL. Indicadores Mundiais. Disponível em: https://datos.bancomundial.org/?locations=CN-BR-US-DE. Acesso em: 08 maio 2025.
[9] ‘BRASIL. Ministério da Educação. Saberes Digitais Docentes: Referencial para o uso de tecnologias digitais na educação básica. Brasília, DF: MEC, 2025. Disponível em:https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/20240822MatrizSaberesDigitais.pdf. Acesso em: 08 maio 2025.
[10] “Onde o iPhone é fabricado?” Época Negócios, [S.l.], abr. 2025. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/tecnologia/noticia/2025/04/onde-o-iphone-e-fabricado.ghtml. Acesso em: 08 maio 2025.
[11] “China’s largest iPhone factory resumes hiring after Trump spares electronics tariffs.” South China Morning Post, [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.scmp.com/tech/big-tech/article/3306471/chinas-largest-iphone-factory-resumes-hiring-after-trump-spares-electronics-tariffs. Acesso em: 08 maio 2025.
[12] GALA, Paulo; RONCAGLIA, André. Brasil, uma economia que não aprende: novas perspectivas para entender nosso fracasso” São Paulo: Edição do Autor, 2020, 225.
[13]CARVALHO, André Roncaglia de; GALA, Paulo. Brasil, uma economia que não aprende: novas perspectivas para entender nosso fracasso. 1. ed. São Paulo: Edição do Autor, 2020. ISBN 978-65-991040-0-8.
[14], JABBOUR, Elias e GABRIELE, Alberto. China: o socialismo do século XXI. São Paulo – SP: Boitempo, 2021. p. 152
[15] MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO DA CHINA. Comunicado oficial. 2025. Disponível em: http://www.moe.gov.cn/jyb_xwfb/gzdt_gzdt/s5987/202501/t20250119_1176166.html. Acesso em: 08 maio 2025.
[16] Xi Jinping – A Governança da China II. Contraponto. Rio de Janeiro, 2019. p. 121.