Vemos uma crescente complexidade dos ambientes corporativos com um aumento de demanda por eficiência operacional o que têm impulsionado uma transformação significativa na forma como os profissionais jurídicos devem atuar. Nesse cenário, a gestão de projetos emerge como uma competência essencial para esses profissionais, permitindo que iniciativas jurídicas sejam conduzidas com clareza de escopo, prazos bem definidos e foco em resultados mensuráveis.
Diferente da atuação tradicional do jurídico, centrada na análise técnica e algumas vezes reativa, a gestão de projetos exige uma abordagem proativa, colaborativa e orientada por dados.
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Isso implica o desenvolvimento de habilidades como planejamento estratégico, comunicação eficaz, gestão de stakeholders, domínio de ferramentas tecnológicas e capacidade de adaptação a mudanças — competências que extrapolam o conhecimento jurídico e se alinham com práticas modernas de governança e inovação.
Nesse contexto, o Corporate Legal Operations Consortium (CLOC) propõe uma estrutura de 12 competências fundamentais — conhecidas como a “mandala do CLOC” — que servem como referência global para a maturidade operacional dos departamentos jurídicos. Entre elas, destacam-se a gestão de projetos, a governança da informação, o planejamento estratégico e o uso de tecnologia como catalisadores da transformação.
Nosso artigo tem como propósito explorar como fazer uma gestão de projetos de forma eficaz no ambiente jurídico, destacando as competências necessárias para sua implementação e os benefícios que essa abordagem traz para a performance e a sustentabilidade do negócio.
Priorização de projetos: conectando necessidades jurídicas à estratégia corporativa
A priorização de projetos em qualquer contexto vai muito além da simples organização de tarefas. Trata-se de um exercício estratégico que exige a capacidade de traduzir as necessidades da área demandante em iniciativas que estejam alinhadas com os objetivos mais amplos da corporação.
Para isso, é essencial ter um time dedicado atuando como ponte entre o jurídico e as demais áreas do negócio, compreendendo profundamente os direcionadores estratégicos da empresa e identificando onde o jurídico pode gerar valor tangível.
Um dos principais desafios enfrentados nesse processo é a forma como os projetos costumam nascer dentro do jurídico: muitas vezes já vêm com uma solução pré-formatada, sem uma análise clara do problema que se busca resolver.
Essa abordagem pode levar a desperdícios de tempo e recursos, além de dificultar a mensuração de impacto. Por isso, é fundamental inverter essa lógica e começar sempre pela definição do problema. Um bom projeto nasce de uma dor real, validada com dados e com clareza sobre os impactos que sua resolução trará para o negócio.
Outro ponto crítico é a capacitação do time interno para formular demandas de forma estruturada. Saber pedir corretamente é uma competência que precisa ser desenvolvida. Isso envolve trabalhar uma boa descrição do problema, com contextualização da relevância e indicação dos stakeholders envolvidos. Ferramentas como briefings padronizados, formulários de intake e sessões de alinhamento podem ser grandes aliadas nesse processo, promovendo uma cultura de colaboração e foco em resultados. Muito cuidado para que essas reuniões não sigam para um muro de lamentações.
Por fim, a priorização deve ser orientada por critérios objetivos, como impacto no negócio, urgência, complexidade e disponibilidade de recursos. Ao adotar uma abordagem estruturada e colaborativa, o jurídico deixa de ser apenas um centro de custo e passa a atuar como parceiro estratégico da organização.
Ferramentas e metodologias: garantindo uma boa governança e entrega de valor
Para garantir uma boa gestão de projetos na área jurídica, é fundamental começar pela adoção de metodologias que permitam identificar problemas e promover a melhoria contínua dos processos. O Lean Six Sigma, por exemplo, oferece etapas essenciais como o mapeamento detalhado do processo, a identificação das principais dores, a priorização de iniciativas considerando esforço e impacto e, a geração de insights para otimizar os processos.
Essa abordagem ajuda a evitar que a simples implementação de tecnologia seja insuficiente, pois utilizar ferramentas digitais sem revisar e aprimorar os processos internos pode não resolver os desafios e, em alguns casos, até agravá-los.
Com os processos claros e mapeados, o uso de ferramentas adequadas facilita a organização e o acompanhamento das tarefas, garantindo o cumprimento do cronograma estabelecido em cada etapa do projeto. Entre as mais utilizadas pelas empresas estão o Microsoft Planner e o Google Workspace, que oferecem excelentes recursos para gerenciar prazos, documentos e a comunicação entre o time.
Para quem busca uma alternativa gratuita e independente dessas plataformas, o Trello é uma opção simples e eficaz, permitindo visualizar as etapas dos projetos de forma intuitiva, facilitando o controle e a divisão de responsabilidades mesmo para quem não é especialista em gestão de projetos.
Assim, o equilíbrio entre metodologias estruturadas e o uso inteligente de ferramentas tecnológicas é um dos caminhos para uma gestão de projetos eficiente no ambiente jurídico. Organizar prazos, papéis e responsabilidades com recursos digitais é importante, mas a verdadeira eficácia vem da revisão constante dos processos acompanhada de um inconformismo que faz buscarmos sempre alternativas melhores e mais simples, garantindo entrega de valor, governança estratégica e aumento de eficiência.
No ambiente corporativo, onde tudo precisa ser feito rapidamente, o conceito de Produto Mínimo Viável (MVP) é muito importante. Ele consiste em fazer entregas em fases, começando por uma versão básica do projeto que já possa ser usada e avaliada. Assim, é possível mensurar os impactos das iniciativas desde o início, sem esperar por longos cronogramas para ver resultados.
Essa abordagem permite que os benefícios apareçam aos poucos, o que ajuda a convencer a empresa sobre o valor do projeto e facilita a obtenção de recursos para continuar o desenvolvimento.
Comunicação com stakeholders: transparência, alinhamento e coragem para pedir ajuda
A comunicação com stakeholders é um dos pilares mais sensíveis — e estratégicos — na gestão de projetos. Em um ambiente onde prazos são apertados, riscos são altos e a pressão por entregas é constante, saber comunicar-se com clareza e empatia é essencial para manter o alinhamento e a confiança. Isso inclui, principalmente, a habilidade de gerenciar a ansiedade dos clientes internos, que muitas vezes esperam soluções imediatas para problemas complexos.
Um dos erros mais comuns é tentar proteger o stakeholder de más notícias, postergando a comunicação de riscos ou obstáculos. No entanto, a transparência é sempre a melhor estratégia. Compartilhar os riscos de forma estruturada, com clareza sobre impactos e planos de mitigação, transforma a percepção do jurídico: de um setor reativo para um parceiro estratégico e confiável. A comunicação deve ser contínua, com checkpoints regulares e linguagem acessível, evitando jargões técnicos que dificultem o entendimento.
Outro ponto fundamental é criar um ambiente onde pedir ajuda não seja visto como sinal de fraqueza, mas sim de maturidade profissional. Projetos envolvem múltiplas áreas e competências, e é natural que surjam pontos cegos ou gargalos. Saber quando e como acionar outras áreas — seja para apoio técnico, validação de decisões ou reforço de equipe — é uma habilidade que fortalece a governança do projeto e evita retrabalho.
Por fim, é importante lembrar que a comunicação com stakeholders não é apenas informativa, mas também formativa. Cada interação é uma oportunidade de educar o cliente interno sobre o valor da gestão de projetos, sobre os limites e possibilidades do jurídico, e sobre como construir soluções mais sustentáveis. Ao adotar uma postura proativa, empática e orientada a dados, o profissional se posiciona como um verdadeiro facilitador de resultados.
Planejamento de projetos: clareza, objetivos específicos e medição de resultados
Um projeto bem planejado deve ter início, meio e fim claramente definidos, com objetivos específicos e resultados esperados. Para construir esse planejamento, é fundamental ter clareza do problema que se deseja resolver e estabelecer metas claras, que orientem as ações da equipe.
Além disso, é essencial definir como esses resultados serão medidos, seja por indicadores quantitativos ou qualitativos, que acaba sendo mais difícil de tangibilizar. Nesse caso, ferramentas como pesquisas de opinião, feedbacks e análises de percepção podem ajudar a quantificar esses ganhos.
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É importante refletir que o resultado de um projeto não deve ser avaliado apenas ao seu término. Conforme destaca Peter Drucker em sua famosa frase: “o que pode ser medido pode ser gerenciado”. Por isso, reconhecer e mensurar ganhos ao longo do cronograma permite ajustes contínuos e garante que o projeto se mantenha alinhado aos objetivos estratégicos. Pequenas entregas e avanços parciais fortalecem a confiança da equipe e dos stakeholders, além de facilitar a identificação precoce de riscos e melhorias.
Para profissionais da área jurídica que conduzem projetos sem formação específica em gestão, a dica é manter o planejamento simples, objetivo e sempre com foco na clareza dos resultados esperados.
Definir marcos intermediários para acompanhar o progresso e utilizar métricas que façam sentido para o contexto jurídico é um caminho eficiente para garantir o sucesso e a governança do projeto. Assim, o trabalho se torna mais organizado, transparente e capaz de entregar valor contínuo à organização.
Conclusão
Por fim, a adoção da gestão de projetos no jurídico representa uma mudança de paradigma: de uma atuação reativa e técnica para um papel estratégico, colaborativo e orientado a resultados. Com planejamento claro, comunicação eficaz e uso inteligente de metodologias e ferramentas, é possível alinhar as entregas jurídicas aos objetivos corporativos. Essa abordagem fortalece a governança, aumenta a eficiência e posiciona o jurídico como parceiro essencial na geração de valor para o negócio.