Belém do Pará possui, desde seu nascimento em meados do século 17, a missão de proteção do território. A fundação da cidade é marcada pela construção do Forte do Castelo, uma edificação militar localizada às margens da foz do rio Guamá com a Baía do Guajará, que tinha como objetivos impedir a invasão da área e garantir o domínio sobre as “drogas do sertão” (produtos extraídos na floresta amazônica e comercializados na Europa, como castanha-do-Brasil, cacau, urucum e guaraná).
Com o passar dos anos, Belém se desenvolveu mais ativamente a partir de seu núcleo, em ruas estreitas com casarões de arquitetura colonial. As diferentes culturas encontradas na cidade proporcionaram, no entanto, que as dinâmicas de ocupação e ordenamento do território ultrapassassem os planos e estratégias oriundas do governo central, acolhendo, em seus mais de 4.800.000 km², áreas urbanas, remanescentes florestais, assentamentos, invasões, áreas de várzea e igapós. Com temperaturas que oscilam entre 24°C e 32°C, dizemos que Belém possui uma estação que chove mais – o inverno – e outra que chove menos – o verão.
Atualmente, por sua importância regional, Belém é reconhecida como “Metrópole da Amazônia”. Com mais de 2,6 milhões de habitantes, Belém é um retrato das diferentes “amazônias”, uma cidade que abriga indígenas, ribeirinhos, quilombolas, pescadores, agricultores e migrantes em bairros que são ilhas e porções continentais. Em suas ruas, rios e praças exuberantes, a cidade condensa os desafios e a complexidade de uma Amazônia que é também brasileira, mas não apenas.
A exemplo de outros grandes centros urbanos, Belém enfrenta desafios estruturais expressos em índices significativos de violência, desigualdade social, além de problemas históricos de mobilidade urbana e saneamento básico. Quanto à degradação florestal, seu resultado pode ser visto em imagens de satélite, mas também desde o solo e as águas. As ilhas próximas a Belém passam por um processo de desmatamento e ocupação desordenada, impactando a biodiversidade local e os meios de vida de suas populações.
Mas os desafios da cidade de Belém não a tornam menos digna de recepcionar a 30ª edição da COP, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em 2025. As falas xenofóbicas recém dirigidas à cidade apenas reforçam a necessidade de se olhar e reconhecer a cidade e a Amazônia em toda sua complexidade e idiossincrasias.
Compreender as demandas necessárias para o desenvolvimento sustentável, não só de Belém, mas da Amazônia como um todo, requer o reconhecimento das pautas e falas de quem vive e faz a Amazônia. A redução da pressão sobre as áreas de florestas demanda, obrigatoriamente, a agregação de valor aos seus produtos, o reconhecimento dos serviços ecossistêmicos e o respeito aos meios de vida e locais.
A realização do maior evento sobre clima em terras brasileiras e amazônicas veio para mostrar que o debate não é apenas sobre os graus e preservação da floresta e, sim, escancarar, como se diz em Belém, que o debate é também sobre pessoas, meios de vida, cultura e história. A realização da COP em Belém deve demonstrar não apenas a importância da floresta em pé, mas celebrar e fortalecer as pessoas que mantém a floresta em pé, lembrando que são práticas, passadas de geração em geração, que conservam a floresta, que é a conexão espiritual de povos originários com a mata que mantém a floresta equilibrando o clima do planeta. Poderia ser Belém, Afuá, Manaus, Oiapoque ou qualquer outra cidade amazônica. A importância de ter a COP na Amazônia permanece fundamental.
A COP em Belém, reforça, mais uma vez, o papel de proteção do território instituído quando em sua criação. A luta, entretanto, agora é outra e os canhões do Forte do Castelo não servem para frear o desmatamento, reduzir a grilagem de terras e a violência sobre povos e comunidades tradicionais. Essas edificações já não protegem a Amazônia, que precisa agora de novas estratégias de (sobre)vivência. Que possamos desfrutar desta COP para explorar, positivamente, nossos sentidos. Enxergar e sentir para além da floresta, para reconhecer que somos nós, brasileiros e amazônidas, filhos desta terra, quem mantêm a floresta em pé. Resgatando nossa música popular paraense em “Belém-Pará-Brasil” da banda Mosaico de Ravena: que venham um de cada vez, pois “não queremos nossos jacarés tropeçando em vocês”.