{"id":8786,"date":"2025-01-31T22:34:21","date_gmt":"2025-02-01T01:34:21","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/01\/31\/o-voto-feminino-pragmatico-o-que-as-urnas-dizem\/"},"modified":"2025-01-31T22:34:21","modified_gmt":"2025-02-01T01:34:21","slug":"o-voto-feminino-pragmatico-o-que-as-urnas-dizem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/01\/31\/o-voto-feminino-pragmatico-o-que-as-urnas-dizem\/","title":{"rendered":"O voto feminino pragm\u00e1tico: o que as urnas dizem?"},"content":{"rendered":"<p>Quase um s\u00e9culo ap\u00f3s o direito ao voto feminino no Brasil, as escolhas das mulheres continuam sendo analisadas sob lentes que ignoram sua realidade. No Brasil e nos Estados Unidos, onde Donald Trump tomou posse no \u00faltimo dia 20 de janeiro, as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais moldam as decis\u00f5es eleitorais femininas, o que demonstra que votar \u00e9, muitas vezes, uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Historicamente, o voto feminino est\u00e1 associado \u00e0 sensibilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas, especialmente nas \u00e1reas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Segundo a soci\u00f3loga e fundadora do Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o, F\u00e1tima Jord\u00e3o, pesquisas eleitorais realizadas desde 2010 indicam que mulheres priorizam solu\u00e7\u00f5es que afetam diretamente sua qualidade de vida, enquanto homens demonstram maior inclina\u00e7\u00e3o por alian\u00e7as pol\u00edticas e disputas partid\u00e1rias.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Essas diferen\u00e7as refletem vulnerabilidades que atingem mais intensamente as mulheres, como jornadas triplas (mulheres dedicam o dobro do tempo dos homens nas tarefas dom\u00e9sticas, segundo o IBGE), maiores taxas de desemprego (45,3% maior do que os homens, de acordo com a PNAD), menor remunera\u00e7\u00e3o (22% a menos que os homens, segundo o Dieese) e o medo constante de viol\u00eancia (segundo os institutos Locomotiva e Patr\u00edcia Galv\u00e3o, 68% t\u00eam muito medo de andar sozinhas \u00e0 noite ).<\/p>\n<p>De acordo com Jos\u00e9 \u00c1lvaro Mois\u00e9s, professor de ci\u00eancia pol\u00edtica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o voto feminino apresentaria mais criticidade do que o masculino, e n\u00e3o necessariamente se encontraria atrelado a uma op\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica pela esquerda ou direita: <em>\u201cO que pareceria central seria a percep\u00e7\u00e3o de impacto de pol\u00edticas p\u00fablicas e seus resultados\u201d<\/em> .<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 2024 em S\u00e3o Paulo, os dados revelaram um distanciamento significativo entre votos femininos e masculinos, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao candidato <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/pablo-marcal\">Pablo Mar\u00e7al<\/a> (um distanciamento que chegou a 13,7%!). Embora o ex-presidente <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/jair-bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a> tenha declarado timidamente apoio ao atual prefeito, <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ricardo-nunes\">Ricardo Nunes<\/a>, eleitores de direita e extrema direita identificaram em Mar\u00e7al o \u201cverdadeiro\u201d voto dos valores tradicionalmente associados ao bolsonarismo.<\/p>\n<p>A rejei\u00e7\u00e3o feminina a Mar\u00e7al evidenciou uma preocupa\u00e7\u00e3o com as propostas conservadoras e seu impacto direto no cotidiano das mulheres. A depender da classe social e da orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do eleitorado, as preocupa\u00e7\u00f5es das mulheres mudam consideravelmente.<\/p>\n<p>As pesquisas realizadas na academia, principalmente por interm\u00e9dio de grupos focais realizados para entender as preocupa\u00e7\u00f5es dos p\u00fablicos \u201cprogressistas\u201d e \u201cconservadores\u201d, pelo menos nos \u00faltimos 10 anos mostram uma evolu\u00e7\u00e3o diferenciada por classes: enquanto mulheres de baixa renda se preocupam com viol\u00eancia dom\u00e9stica ou com gravidez na adolesc\u00eancia, quest\u00f5es ausentes nos discursos mais conservadores, as mulheres de mais alta renda se preocupam com a condi\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho, igualdade de sal\u00e1rios, ass\u00e9dio sexual e direitos reprodutivos.<\/p>\n<p>O que as une \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de permanente assimetria e viol\u00eancia, bem como a desconsidera\u00e7\u00e3o de suas principais inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, os dados s\u00e3o expressivos: ap\u00f3s o epis\u00f3dio da cadeirada, em que Mar\u00e7al foi v\u00edtima da agress\u00e3o, ficou claro que suas provoca\u00e7\u00f5es constantes geraram um clima de tens\u00e3o insuport\u00e1vel. Isso gerou uma diferen\u00e7a de 16 pontos percentuais entre as inten\u00e7\u00f5es de voto de mulheres e homens para o candidato. Entre as eleitoras, a inten\u00e7\u00e3o de votar em Mar\u00e7al oscilou de 13% para 12%, enquanto entre os homens foi de 26% para 28%, indicando concord\u00e2ncia total ou parcial com a postura de Mar\u00e7al no epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Um outro ponto importante em rela\u00e7\u00e3o ao discurso mais conservador \u00e9 que o flerte com ideias que refor\u00e7am o papel \u201cnatural\u201d das mulheres em trabalhos de cuidado, enquanto aos homens caberia o de provedor, reflete uma vis\u00e3o reacion\u00e1ria que n\u00e3o passou despercebido \u00e0s mulheres. Essas eleitoras, cientes da viol\u00eancia dom\u00e9stica e das desigualdades estruturais, rejeitaram candidaturas alinhadas a essas perspectivas.<\/p>\n<p>Antes de seguirmos, \u00e9 importante recordar que o padrinho ideol\u00f3gico de Mar\u00e7al, Jair Bolsonaro, tamb\u00e9m enfrentou grande rejei\u00e7\u00e3o feminina, por sua postura reacion\u00e1ria \u00e0 pauta de costumes e falta de empatia diante das calamidades e mortes causadas pela pandemia. \u00c9 preciso lembrar ainda que a economia conta e conta muito. T\u00e3o grande, a ponto de lhe custar a elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>Vamos aos dados: no governo Bolsonaro (2019-2022), o crescimento m\u00e9dio foi de apenas 1,12%, inferior \u00e0 m\u00e9dia mundial de 1,95%, e o sal\u00e1rio m\u00ednimo caiu 2%. Esses n\u00fameros mostram o impacto direto das pol\u00edticas econ\u00f4micas sobre as mulheres, que muitas vezes s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelo sustento familiar.<\/p>\n<p>Contudo, as dificuldades econ\u00f4micas atuais, como o aumento da infla\u00e7\u00e3o e a queda no poder de compra, exp\u00f5em limita\u00e7\u00f5es preocupantes no modelo econ\u00f4mico do governo e podem influenciar decisivamente nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Vale reconhecer que, embora as pol\u00edticas p\u00fablicas inclusivas dos governos Lula tenham gerado avan\u00e7os importantes na redu\u00e7\u00e3o da pobreza e da desigualdade, os desafios recentes ressaltam a falta de respostas estruturais para proteger a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pesquisas apontam que 48% das mulheres brasileiras est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o restrita financeiramente, 36% endividadas e 4% temem a fome, segundo o relat\u00f3rio Esgotadas, da consultoria Think Olga. Muitas delas dependem de uma economia est\u00e1vel para garantir seguran\u00e7a pessoal e familiar.<\/p>\n<p>No Brasil, 29% dos lares chefiados por mulheres s\u00e3o compostos por m\u00e3es solo, segundo o Censo 2022. Isso equivale a mais de 10 milh\u00f5es de domic\u00edlios, n\u00famero muito superior aos chefiados por homens nessas condi\u00e7\u00f5es, que somam apenas 4,4% dos lares. A falta de pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes torna o voto pragm\u00e1tico uma escolha de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Agora, vamos tra\u00e7ar um paralelo com a situa\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. Desde os anos 1980, as mulheres s\u00e3o maioria no eleitorado, e, a partir de 1996, preferem votar em candidatos democratas. Em 2020, as mulheres foram cruciais para a vit\u00f3ria de Joe Biden, que conquistou 57% do voto feminino.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em 2024, apesar de Kamala Harris ter conquistado 54% do voto feminino, isso n\u00e3o foi suficiente para garantir sua vit\u00f3ria contra Donald Trump, que obteve 55% dos votos masculinos. Entre as mulheres negras, Harris alcan\u00e7ou expressivos 90% de apoio, mas esse grupo representa apenas 8% do eleitorado, limitando o impacto eleitoral.<\/p>\n<p>Por outro lado, as mulheres brancas mantiveram a tend\u00eancia de votar nos republicanos, refletindo preocupa\u00e7\u00f5es com demandas econ\u00f4micas que apontam uma percep\u00e7\u00e3o de degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s altas taxas de infla\u00e7\u00e3o herdadas pelo governo Biden<\/p>\n<p>O resultado tamb\u00e9m evidencia que Trump utilizou uma ret\u00f3rica semelhante \u00e0 de Bolsonaro e Mar\u00e7al em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, refor\u00e7ada por acusa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio sexual e declara\u00e7\u00f5es infames, como \u201cgrab\u2019em by the pussy\u201d. Embora Harris tenha contado com o apoio feminino, sua vantagem foi menor do que a de seus antecessores democratas. Pesquisa da Edison aponta que, em 2024, a economia foi a principal preocupa\u00e7\u00e3o para 31% das mulheres, enquanto apenas 14% destacaram o aborto como prioridade.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre o voto pragm\u00e1tico precisa ser compreendida sem culpabilizar as mulheres. A press\u00e3o por escolhas que parecem menos ideol\u00f3gicas n\u00e3o significa falta de comprometimento com pautas feministas. Pelo contr\u00e1rio, reflete as condi\u00e7\u00f5es reais em que muitas delas vivem, nas quais a sobreviv\u00eancia e a seguran\u00e7a pessoal s\u00e3o prioridades absolutas. Em um sistema que historicamente as coloca em situa\u00e7\u00f5es de maior vulnerabilidade, o pragmatismo eleitoral \u00e9 uma ferramenta de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o impacto das pol\u00edticas p\u00fablicas deve ser constantemente avaliado. Enquanto avan\u00e7os hist\u00f3ricos no sal\u00e1rio m\u00ednimo e na redu\u00e7\u00e3o da pobreza marcaram gest\u00f5es anteriores, os desafios atuais exp\u00f5em as limita\u00e7\u00f5es dessas pol\u00edticas em atender \u00e0s necessidades de longo prazo das mulheres. Essa reflex\u00e3o tamb\u00e9m evidencia a necessidade de lideran\u00e7as que reconhe\u00e7am a import\u00e2ncia de equilibrar melhorias econ\u00f4micas e oportunidades iguais, o que a campanha de Harris, por exemplo, n\u00e3o conseguiu emplacar.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, a luta por independ\u00eancia financeira tem sido um pilar da emancipa\u00e7\u00e3o feminina. O voto feminino pragm\u00e1tico, ao priorizar solu\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas imediatas, n\u00e3o \u00e9 menos feminista. Representa uma forma de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia em um contexto de desigualdades estruturais. O reconhecimento dessa realidade deve inspirar debates mais profundos sobre como transformar as condi\u00e7\u00f5es que perpetuam a desigualdade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>De acordo com a teoria de Linda Mayoux, a participa\u00e7\u00e3o plena das mulheres na pol\u00edtica depende de seguran\u00e7a no \u00e2mbito individual e familiar. Enquanto essa base n\u00e3o for garantida, o voto pragm\u00e1tico continua sendo, tamb\u00e9m, um voto feminista por sobreviv\u00eancia. Pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes, sustentadas por lideran\u00e7as conscientes, transformam o pragmatismo em uma escolha genu\u00edna e emancipadora. Reconhecer essa for\u00e7a \u00e9 essencial para que a igualdade de g\u00eanero deixe de ser uma meta e se torne uma realidade.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase um s\u00e9culo ap\u00f3s o direito ao voto feminino no Brasil, as escolhas das mulheres continuam sendo analisadas sob lentes que ignoram sua realidade. 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