{"id":8494,"date":"2024-12-26T19:48:45","date_gmt":"2024-12-26T22:48:45","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/12\/26\/contra-fatos-nao-ha-alimentos\/"},"modified":"2024-12-26T19:48:45","modified_gmt":"2024-12-26T22:48:45","slug":"contra-fatos-nao-ha-alimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/12\/26\/contra-fatos-nao-ha-alimentos\/","title":{"rendered":"Contra fatos, n\u00e3o h\u00e1 alimentos"},"content":{"rendered":"<p><span>Vivemos em uma sociedade que aprendeu desde cedo, pela sabedoria popular, que \u201ccontra fatos, n\u00e3o h\u00e1 argumentos\u201d. No entanto, tamb\u00e9m convivemos com um outro ditado popular que diz que \u201cpercep\u00e7\u00e3o \u00e9 realidade\u201d. Ou seja, a forma como cada pessoa interpreta e compreende o mundo forma sua realidade.<\/span><\/p>\n<p><span>Embora ambos os ditos populares estejam equivocados em sua plenitude (e quem quiser entender melhor deve estudar filosofia), quando uma pessoa interpreta o que acontece ao seu redor, os fatos se transformam em sua percep\u00e7\u00e3o de realidade.<\/span><\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias\">Assine a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas no seu email<\/a><\/h3>\n<p><span>Essa interpreta\u00e7\u00e3o tem o poder de transformar suas vidas, ajudando-os a passar por momentos dif\u00edceis. O dr. Lair Ribeiro, em sua fase motivacional, j\u00e1 dizia: \u201c\u00c0 medida que voc\u00ea modifica sua percep\u00e7\u00e3o, voc\u00ea modifica a realidade. Porque percep\u00e7\u00e3o \u00e9 realidade, tudo o mais \u00e9 ilus\u00e3o\u201d, quando incentivava cada um a construir a sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de experi\u00eancia de vida, de modo a alavancar o seu desenvolvimento pessoal ou o seu potencial interior.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O primeiro ditado tamb\u00e9m traz elementos positivos ao nosso dia a dia. Quando se fala que contra fatos n\u00e3o h\u00e1 argumentos, a frase implica em se preparar analisando fatos para uma tomada de decis\u00e3o devidamente embasada, fundamental para qualquer objetivo de vida que se queira alcan\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<p><span>No entanto, a postura que pode nos ajudar a se desenvolver como pessoa, pode vir a constituir obst\u00e1culo ao considerarmos uma comunidade como um todo. Quando discutimos qualquer assunto dentro do \u00e2mbito de uma comunidade, argumentos podem ser utilizados para guiar a interpreta\u00e7\u00e3o de fatos e criar diferentes percep\u00e7\u00f5es da realidade.<\/span><\/p>\n<p><span>E uma vez formada uma determinada percep\u00e7\u00e3o, temos o que pode ser chamado de senso comum que, a depender sobre como os fatos foram apresentados, tem um grande potencial para criar conflitos que n\u00e3o s\u00e3o produtivos a pr\u00f3pria comunidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Esse conflito se faz particularmente onipresente em mercados que exigem conhecimento t\u00e9cnico, como \u00e9 o caso do uso de produtos fitossanit\u00e1rios na agricultura, que iremos tomar como exemplo.<\/span><\/p>\n<p><span>Produtos fitossanit\u00e1rios foram denominados no Brasil, por for\u00e7a de lei, como \u201cagrot\u00f3xicos\u201d, palavra composta pelo prefixo \u201cagro\u201d do latim \u201c<\/span><span>ager<\/span><span>\u201d, que significa \u201ccampo\u201d e pelo sufixo \u201ct\u00f3xico\u201d, do latim toxicum, \u201cveneno\u201d e, portanto, define tais produtos como \u201cvenenos do campo\u201d. Na \u00e9poca em que se discutia a lei, debateu-se a impropriedade do termo, apresentando-se como fatos a denomina\u00e7\u00e3o destes produtos em outros pa\u00edses com termos mais adequados ao seu prop\u00f3sito final de controle de pragas ou prote\u00e7\u00e3o de plantas.<\/span><\/p>\n<p><span>Assim foi com \u201cPesticides\u201d, adotado em pa\u00edses de l\u00edngua inglesa e o seu equivalente em l\u00edngua hisp\u00e2nica \u201cPlaguicidas\u201d, at\u00e9 \u201cProduto fitofarmac\u00eautico\u201d, adotado em alguns pa\u00edses europeus como Portugal, Fran\u00e7a e B\u00e9lgica (Produits phytopharmaceutiques), Gr\u00e9cia (Fytoprostateftik\u00f3n) e Eslov\u00e1quia (Fitofarmacevtskih), dentre outros<\/span><span>[1]<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>No entanto, o termo agrot\u00f3xico ganhou for\u00e7a n\u00e3o por sua corre\u00e7\u00e3o vern\u00e1cula, mas sim por uma quest\u00e3o subjetiva \u2013 seus defensores alegavam que ele serviria de alerta quanto \u00e0 toxicidade desses produtos ao meio ambiente e \u00e0s pessoas. Ou seja, n\u00e3o bastasse a rotulagem desses produtos a alertar sobre os cuidados a serem tomados, a denomina\u00e7\u00e3o \u201cAgrot\u00f3xico\u201d seria fundamental para educar todos os usu\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p><span>Em resumo \u2013 n\u00e3o venceram os fatos e sim a percep\u00e7\u00e3o de risco\/perigo que estava incutida em nossos legisladores. Afinal, melhor prevenir, do que remediar. Resultado: o Brasil passou a ser o \u00fanico pa\u00eds a adotar este termo. Com a evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, atualmente temos produtos biol\u00f3gicos que, apesar de sua baixa toxicidade e origem natural \u2013 incluem extratos de plantas, microrganismos vivos ou inativos e metab\u00f3litos secund\u00e1rios, como enzimas e ferom\u00f4nios, tamb\u00e9m s\u00e3o denominados agrot\u00f3xicos.<\/span><\/p>\n<p><span>Outro exemplo de que o senso comum de nossa avers\u00e3o ao risco interfere em nossa avalia\u00e7\u00e3o racional \u00e9 o que acontece com os alimentos org\u00e2nicos, por exemplo, quando comparados com os alimentos oriundos da agricultura convencional.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Para simplificar, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira considera produto org\u00e2nico, aquele que \u00e9 obtido em um sistema org\u00e2nico de produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, isento de contaminantes em fun\u00e7\u00e3o da n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas e insumos que possam p\u00f4r em risco o meio ambiente e a sa\u00fade do produtor, do trabalhador ou do consumidor.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Ou seja, trata-se t\u00e3o somente de um sistema de produ\u00e7\u00e3o em que o agricultor escolhe adotar pr\u00e1ticas espec\u00edficas de condu\u00e7\u00e3o do cultivo, devidamente normatizadas. Assim como quando esse agricultor escolhe produzir alimentos seguindo pr\u00e1ticas de agricultura biodin\u00e2mica, familiar, regenerativa, de cultivo m\u00ednimo, de rota\u00e7\u00e3o ou intercala\u00e7\u00e3o de cultivos, dentre outras. Todos t\u00eam o direito de implementar as pr\u00e1ticas que acreditam serem as mais adequadas a sua realidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>No entanto, para justificar o pre\u00e7o mais alto dos alimentos org\u00e2nicos, a sua propaganda mostra, com frequ\u00eancia, que produtos de origem org\u00e2nica s\u00e3o mais nutritivos e saborosos que os de origem convencional, o que \u00e9 cientificamente provado n\u00e3o ser verdadeiro<\/span><span>[2]<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>Al\u00e9m disso, condenam o fato de produtos de origem na agricultura convencional, apresentarem res\u00edduos de insumos qu\u00edmicos usados em seu manejo. Desta maneira, o agricultor que adota os insumos necess\u00e1rios para garantir que a sua produ\u00e7\u00e3o, fruto de seu trabalho, chegue ao consumidor final, a um custo mais acess\u00edvel, fica relegado a um segundo plano.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, em nosso subconsciente, produtos mais baratos s\u00e3o de pior qualidade. E o senso comum \u2013 barato \u00e9 de pior qualidade e alimentos convencionais tem res\u00edduos, terminam por se refor\u00e7arem mutuamente, em cren\u00e7as equivocadas, para as quais qualquer fato apresentado n\u00e3o surte efeito algum. Muito pelo contr\u00e1rio, como veremos a seguir.<\/span><\/p>\n<p><span>Os pesquisadores norte-americanos Jason Reifler e Brendan Nyhan, estudam o comportamento das pessoas perante falsas cren\u00e7as h\u00e1 alguns anos. Em suas pesquisas, eles identificaram que entre as pessoas com convic\u00e7\u00f5es fortes e consolidadas, os fatos t\u00eam um surpreendente baixo valor quando divergem dessas cren\u00e7as e opini\u00f5es mais arraigadas. E o que \u00e9 pior, conclu\u00edram que os novos fatos apresentados somente as faziam refletir sobre argumentos favor\u00e1veis \u00e0 sua pr\u00f3pria convic\u00e7\u00e3o.<\/span><span>[3,4]<\/span><\/p>\n<p><span>Portanto, em discuss\u00f5es sobre temas que envolvem diferentes percep\u00e7\u00f5es de realidade, como exemplificado acima, o foco exclusivo em fatos pode n\u00e3o ser o caminho mais eficaz para resolver conflitos ou influenciar decis\u00f5es. Quando se trata de confrontar cren\u00e7as profundamente enraizadas, a mera apresenta\u00e7\u00e3o de dados e informa\u00e7\u00f5es objetivas muitas vezes refor\u00e7a a resist\u00eancia da outra parte, em vez de promover um entendimento m\u00fatuo.<\/span><\/p>\n<p><span>Por isso, \u00e9 essencial que profissionais que lidam com conflitos, como advogados, negociadores ou l\u00edderes, deem mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como a outra parte enxerga o problema em quest\u00e3o. Isso implica reconhecer e respeitar suas percep\u00e7\u00f5es, em vez de insistir exclusivamente em provar que est\u00e3o \u201ccertos\u201d ou \u201cerrados\u201d por meio de evid\u00eancias. At\u00e9 mesmo porque a verdade acaba sendo uma quest\u00e3o subjetiva e plenamente poss\u00edvel de ser validada a partir do momento em que voc\u00ea consegue justificar o que se pretende.<\/span><\/p>\n<p><span>Agora, quando a percep\u00e7\u00e3o da outra parte \u00e9 validada, cria-se um ambiente de di\u00e1logo mais aberto, onde o outro se sente ouvido e respeitado. Escuta ativa e respeito s\u00e3o elementos essenciais em uma sociedade civilizada que busca o progresso. Negocia\u00e7\u00f5es pautadas nestes princ\u00edpios s\u00e3o pr\u00f3speras e equilibradas, privilegiam a estabilidade, possuem vis\u00e3o progressista e fomentam um ambiente de neg\u00f3cios pr\u00f3spero para os setores e as pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span>Essa abordagem, focada na empatia e na compreens\u00e3o da realidade subjetiva de cada um, pode desarmar resist\u00eancias e abrir espa\u00e7o para solu\u00e7\u00f5es mais colaborativas. Em vez de insistir em \u201cvencer\u201d uma discuss\u00e3o com argumentos t\u00e9cnicos ou factuais, o profissional jur\u00eddico pode buscar formas de integrar diferentes perspectivas e construir uma solu\u00e7\u00e3o que atenda aos interesses de ambos os lados. Isso n\u00e3o s\u00f3 facilita a resolu\u00e7\u00e3o do conflito, como tamb\u00e9m contribui para um resultado mais duradouro e satisfat\u00f3rio para todas as partes envolvidas.<\/span><\/p>\n<p class=\"jota-article__reference\">[1] Almeida, Sergio L. \u201cA nota de 200, agrot\u00f3xicos e o sexo dos anjos\u201d. Linkedin. https:\/\/www.linkedin.com\/pulse\/nota-de-200-agrot%25C3%25B3xicos-e-o-sexo-dos-anjos-sergio-luiz-de-almeida\/?trackingId=XvwGGAS7SAGUn%2BMSKJ8pAw%3D%3D. Acesso em 28\/08\/2024.<\/p>\n<p class=\"jota-article__reference\">[2] Vital, Nicholas. Agrade\u00e7a aos agrot\u00f3xicos por estar vivo. 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Ed. Record, 2017.<\/p>\n<p class=\"jota-article__reference\">[3] Idoeta, Paula A. \u201cPor que nem sempre adianta apresentar fatos contra not\u00edcias falsas\u201d. BBC News. https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-44686833#:~:text=Pesquisador%20de%20universidade%20brit%C3%A2nica%20que%20estuda. Acesso em 28\/09\/2024<\/p>\n<p class=\"jota-article__reference\">[4] Nyhan, Brendan, and Jason Reifler. \u201cWhen Corrections Fail: The Persistence of Political Misperceptions.\u201d Political Behavior, vol. 32, no. 2, 2010, pp. 303\u201330. JSTOR, http:\/\/www.jstor.org\/stable\/40587320. Acesso em 3\/10\/2024.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos em uma sociedade que aprendeu desde cedo, pela sabedoria popular, que \u201ccontra fatos, n\u00e3o h\u00e1 argumentos\u201d. No entanto, tamb\u00e9m convivemos com um outro ditado popular que diz que \u201cpercep\u00e7\u00e3o \u00e9 realidade\u201d. 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