{"id":7310,"date":"2024-08-14T14:15:05","date_gmt":"2024-08-14T17:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/08\/14\/capitalismo-do-desastre-e-doutrina-do-choque\/"},"modified":"2024-08-14T14:15:05","modified_gmt":"2024-08-14T17:15:05","slug":"capitalismo-do-desastre-e-doutrina-do-choque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/08\/14\/capitalismo-do-desastre-e-doutrina-do-choque\/","title":{"rendered":"Capitalismo do desastre e doutrina do choque"},"content":{"rendered":"<p><span>Em <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/constituicao-empresa-e-mercado\/a-industria-da-consultoria-e-seus-impactos-nas-economias-e-democracias-22052024\">coluna anterior<\/a>, j\u00e1 tive a oportunidade de tratar do instigante livro de Mariana Mazzucato e Rosie Collington sobre o papel crescente das consultorias privadas nos governos e os diversos riscos da\u00ed decorrentes.<\/span><\/p>\n<p><span> Tamb\u00e9m j\u00e1 tive <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/constituicao-empresa-e-mercado\/a-doutrina-do-choque-18092019\">oportunidade de tratar do sensacional livro<\/a> de Naomi Klein sobre \u201ca doutrina do choque\u201d, que ressalta o quanto crises e cat\u00e1strofes podem ser excelentes oportunidades para restringir direitos e esvaziar o Estado e pol\u00edticas p\u00fablicas, aproveitando a confus\u00e3o social e o enfraquecimento institucional que costumam caracterizar tais epis\u00f3dios para emplacar medidas antipopulares que, em outras circunst\u00e2ncias, encontrariam grande resist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span> Ao que parece, a reconstru\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/rio-grande-do-sul\">Rio Grande do Sul<\/a> ap\u00f3s a trag\u00e9dia das enchentes ser\u00e1 um excelente estudo de caso para as duas teses, diante da contrata\u00e7\u00e3o de famosas consultorias privadas \u2013 McKinsey, Ernest Young e Alvarez &amp; Marsal \u2013 que podem aproveitar a oportunidade da reconstru\u00e7\u00e3o do Estado para implementar medidas muito mais em prol do interesse de grandes agentes econ\u00f4micos do que dos interesses da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span> Nesse sentido, a interessante <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/31\/alvarez-marsal-mckinsey-e-ey-capitalismo-de-desastre-toma-a-frente-na-reconstrucao-do-rs\">reportagem<\/a> \u201cAlvarez &amp; Marsal, McKinsey e EY: capitalismo de desastre toma a frente na reconstru\u00e7\u00e3o do RS\u201d entrevista o soci\u00f3logo e professor do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) Victor Marchezini. Fazendo alus\u00e3o precisamente ao livro <em>A Doutrina do Choque<\/em>, de Naomi Klein, o professor mostra os riscos de que se aproveitem trag\u00e9dias como a ga\u00facha para implementar oportunidades de neg\u00f3cios privados que n\u00e3o ocorreriam em situa\u00e7\u00f5es de normalidade.<\/span><\/p>\n<p><span> No caso do Rio Grande do Sul, tais neg\u00f3cios se referem \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o de consultorias estadunidenses, o que desperta problemas que v\u00e3o al\u00e9m do benef\u00edcio a interesses privados. Com efeito, segundo Marchezini, se a reconstru\u00e7\u00e3o for pautada pela l\u00f3gica do mercado, as cidades ser\u00e3o reerguidas por meio do aprofundamento do modelo de desenvolvimento que causou o desastre, j\u00e1 que este n\u00e3o decorreu apenas das chuvas, mas sim da forma de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span> Com efeito, no caso do Rio Grande do Sul, campos da serra foram aplainados para planta\u00e7\u00e3o de soja, o que reduziu a cobertura vegetal, assoreou os rios e fez com que a \u00e1gua ca\u00edsse mais r\u00e1pido. Da\u00ed o argumento de que, se o desastre resulta de um modelo econ\u00f4mico, a reconstru\u00e7\u00e3o exige, antes de tudo, uma reflex\u00e3o sobre esse modelo. Consequentemente, n\u00e3o pode ser orientada pela mesma l\u00f3gica do passado nem ser capitaneada pelos mesmos grupos pol\u00edticos e econ\u00f4micos que foram respons\u00e1veis pela degrada\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos anos.<\/span><\/p>\n<p><span> No caso espec\u00edfico da McKinsey, a reportagem cita o livro <em>Nos bastidores da McKinsey<\/em>, de Duff McDonald, ao afirmar que a companhia ajudou \u201cempresas e governos a criar e manter muitos dos comportamentos corporativos que moldaram o mundo em que vivemos\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span> J\u00e1 no caso da Alvarez &amp; Marsal, a reportagem descreve o que ocorreu quando a consultoria gerenciou a reconstru\u00e7\u00e3o de Nova Orleans ap\u00f3s o furac\u00e3o Katrina: implementa\u00e7\u00e3o de um verdadeiro plano de privatiza\u00e7\u00e3o espelhado em Milton Friedman, com distribui\u00e7\u00e3o de vouchers para acesso a servi\u00e7os essenciais. No caso da educa\u00e7\u00e3o, em 19 meses, 318 escolas foram privatizadas \u2013 sobrando apenas 4 escolas p\u00fablicas, com uma maci\u00e7a dispensa de professores.<\/span><\/p>\n<p><span> A reportagem chega a citar depoimento do <\/span><span>American Enterprise Institute<\/span><span>, entidade ligada \u00e0 promo\u00e7\u00e3o dos interesses corporativos, dizendo que o Katrina realizou em um dia o que os reformadores educacionais da Louisiana tentaram fazer durante anos. Entretanto, os resultados concretos n\u00e3o foram t\u00e3o promissores: o prefeito que estava \u00e0 frente da reconstru\u00e7\u00e3o foi preso por fraude, suborno e lavagem de dinheiro, Nova Orleans hoje tem 200 mil habitantes a menos e a \u00e1rea do distrito hist\u00f3rico, antes habitada pela popula\u00e7\u00e3o negra e pobre, foi reconstru\u00edda para viabilizar neg\u00f3cios.<\/span><\/p>\n<p><span> Dessa maneira, o exemplo de Nova Orleans pode mostrar como os riscos de consultorias se potencializam em casos de crise, quando elementos da doutrina do choque podem ser facilmente implementados, muitas vezes sem a delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, sem transpar\u00eancia e sem o necess\u00e1rio escrut\u00ednio p\u00fablico tanto na tomada da decis\u00e3o como na sua execu\u00e7\u00e3o e acompanhamento de resultados.<\/span><\/p>\n<p><span> O fato de algumas dessas consultorias serem <\/span><span>pro bono<\/span><span> n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o resolve o problema como pode criar outros, at\u00e9 porque deflagra a discuss\u00e3o sobre os reais interesses de tais consultorias nos respectivos contratos e os ganhos indiretos que podem obter. Dentre estes, o acesso a informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas estrat\u00e9gicas \u2013 que depois poder\u00e3o ser vendidas a pre\u00e7o de ouro no mercado \u2013 pode ser fator que, por si s\u00f3, desperta a necessidade de maior aten\u00e7\u00e3o com tais contratos.<\/span><\/p>\n<p><span> De toda sorte, aponta a reportagem que situa\u00e7\u00f5es de crise deveriam ser oportunidades para o estabelecimento e fortalecimento de uma grande coaliz\u00e3o com as pessoas \u2013 e n\u00e3o somente com as corpora\u00e7\u00f5es \u2013 assim como novas reflex\u00f5es sobre a ideia e o sentido da riqueza.<\/span><\/p>\n<p><span> As mesmas preocupa\u00e7\u00f5es foram trazidas em <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cn00wykl901o\">reportagem da BBC News<\/a>, que tamb\u00e9m destacou a cr\u00edtica \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da Alvarez &amp; Marsal, diante da sua associa\u00e7\u00e3o a pol\u00edticas de desregula\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. A reportagem entrevistou Kenneth Saltman, autor do livro <em>Capitalizing on disaster: taking and breaking public schools<\/em>, que mostra como a consultoria foi determinante para a implementa\u00e7\u00e3o da agenda de privatiza\u00e7\u00e3o e elitiza\u00e7\u00e3o das escolas p\u00fablicas locais em Nova Orleans: <\/span><\/p>\n<p><span>Saltman afirmou, por e-mail, \u00e0 BBC News Brasil: \u201cEm raz\u00e3o da folha corrida da A&amp;M em possibilitar a privatiza\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o das escolas p\u00fablicas de Nova Orleans e do seu envolvimento na demiss\u00e3o em massa de professores e no desmantelamento ilegal de seu sindicato, qualquer um que se preocupe com a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica deveria ficar alarmado e c\u00e9tico sobre qualquer consultoria que eles derem em educa\u00e7\u00e3o em qualquer lugar\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span> N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que o an\u00fancio do contrato entre a Prefeitura de Porto Alegre e a Alvarez &amp; Marsal provocou cr\u00edticas tamb\u00e9m na academia. Um grupo de professores da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de outras institui\u00e7\u00f5es, contr\u00e1rio \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o da reconstru\u00e7\u00e3o ga\u00facha, prop\u00f4s em manifesto, entre outras medidas, que o governo do estado crie uma funda\u00e7\u00e3o de estudos estrat\u00e9gicos respons\u00e1vel pela gera\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas e por an\u00e1lises essenciais para a boa condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/span><\/p>\n<p><span> Como igualmente fica claro em <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/blogs\/pontaesquerda\/2024\/5\/23\/qual-papel-do-povo-na-reconstruo-do-rio-grande-do-sul-159304.html\">reportagem da Revista Forum<\/a>, a grande quest\u00e3o, diante do cen\u00e1rio da trag\u00e9dia, \u00e9 como ficar\u00e1 a participa\u00e7\u00e3o popular, j\u00e1 que a terceiriza\u00e7\u00e3o do processo e das solu\u00e7\u00f5es de reconstru\u00e7\u00e3o para consultorias privadas implica o esvaziamento do necess\u00e1rio debate democr\u00e1tico em torno desses assuntos.<\/span><\/p>\n<p><span> O que se observa, a partir desse conjunto de preocupa\u00e7\u00f5es, \u00e9 que n\u00e3o faz sentido que a reconstru\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul, longe de procurar incorporar a participa\u00e7\u00e3o popular e ensejar uma reflex\u00e3o sobre o modelo econ\u00f4mico que contribuiu para a crise, tente buscar o atalho f\u00e1cil, ileg\u00edtimo e antidemocr\u00e1tico das consultorias privadas.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em coluna anterior, j\u00e1 tive a oportunidade de tratar do instigante livro de Mariana Mazzucato e Rosie Collington sobre o papel crescente das consultorias privadas nos governos e os diversos riscos da\u00ed decorrentes. 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