{"id":6502,"date":"2024-05-02T11:26:54","date_gmt":"2024-05-02T14:26:54","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/05\/02\/por-um-direito-maritimo-autonomo-no-brasil\/"},"modified":"2024-05-02T11:26:54","modified_gmt":"2024-05-02T14:26:54","slug":"por-um-direito-maritimo-autonomo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/05\/02\/por-um-direito-maritimo-autonomo-no-brasil\/","title":{"rendered":"Por um Direito Mar\u00edtimo aut\u00f4nomo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span>O Direito, como express\u00e3o da sociedade, deve acompanhar as transforma\u00e7\u00f5es de seu tempo e se adaptar a ele. O sistema jur\u00eddico de um Estado ser\u00e1 eficaz \u00e0 medida que refletir as demandas da sociedade, suas rela\u00e7\u00f5es sociais, seus mecanismos de poder legitimados, essencialmente sua natureza, rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e cultura.<\/span><\/p>\n<p><span>Embora negligencie esta condi\u00e7\u00e3o desde sua independ\u00eancia, o Brasil \u00e9, essencialmente, um Estado mar\u00edtimo com uma das maiores costas do mundo, al\u00e9m de uma profunda rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com o mar que centraliza 90% de seu com\u00e9rcio internacional. Rela\u00e7\u00e3o que se redimensionou ainda mais com a Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o Direito do Mar que reconheceu legalmente a soberania brasileira sobre a Plataforma Continental e a Zona Econ\u00f4mica Exclusiva, posi\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada com a proposta de extens\u00e3o da Plataforma Continental e o disciplinamento jur\u00eddico da \u201cAmaz\u00f4nia Azul\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>O patrim\u00f4nio mar\u00edtimo engloba uma s\u00e9rie de atividades econ\u00f4micas que movimentam bilh\u00f5es em riquezas, com impacto direto na economia brasileira e nos neg\u00f3cios: explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo offshore; \u00f3leo e g\u00e1s; navega\u00e7\u00e3o e transporte de cargas; constru\u00e7\u00e3o naval; comunica\u00e7\u00e3o por cabos e dutos submarinos; setor portu\u00e1rio; exporta\u00e7\u00e3o de commodities; com\u00e9rcio; turismo; emprego; recursos gen\u00e9ticos e propriedade intelectual; produ\u00e7\u00e3o de energia; alimenta\u00e7\u00e3o; tecnologia; ci\u00eancia; seguran\u00e7a; defesa; derivando uma s\u00e9rie de neg\u00f3cios. N\u00e3o s\u00f3 isso, existem custos sociais, em raz\u00e3o de diferentes demandas da sociedade contempor\u00e2nea que envolvem inst\u00e2ncias de decis\u00e3o e governan\u00e7a ligadas principalmente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, polui\u00e7\u00e3o marinha e prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente, combate \u00e0 criminalidade no mar, entre outras quest\u00f5es fundamentais de Direitos Humanos.<\/span><\/p>\n<p><span>Numa interpreta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, todo esse contingente econ\u00f4mico demanda um aparato jur\u00eddico apropriado, atualizado, sistematizado, claro e acess\u00edvel aos atores centrais para que tenham seguran\u00e7a em seus neg\u00f3cios jur\u00eddicos, prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a, para que possam regular de forma justa as rela\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas nesse espa\u00e7o, mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece.<\/span><\/p>\n<p><span>Diferentemente de outros Estados mar\u00edtimos, como Estados Unidos, Inglaterra, China, Fran\u00e7a, Jap\u00e3o, Gr\u00e9cia e Noruega, para citar alguns, o Brasil, ao longo de sua hist\u00f3ria, nunca teve uma legisla\u00e7\u00e3o mar\u00edtima aut\u00f4noma e sistematizada, tampouco a mat\u00e9ria foi estudada de forma program\u00e1tica nas faculdades de Direito como disciplina fundamental obrigat\u00f3ria nas grades curriculares.<\/span><\/p>\n<p><span>O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/direito-maritimo?non-beta=1\">Direito Mar\u00edtimo<\/a> sempre foi tratado como um ap\u00eandice do Direito Comercial, em um dos cap\u00edtulos de sua normatiza\u00e7\u00e3o, ostentando hoje o in\u00fatil t\u00edtulo de ser a \u00fanica parte do C\u00f3digo Comercial de 1850 que permanece em vigor. O que parece algo positivo \u00e9, na realidade, resultado de descaso com a mat\u00e9ria, e representa um atraso vergonhoso para o Estado brasileiro.<\/span><\/p>\n<p><span>A legisla\u00e7\u00e3o mar\u00edtima em vigor j\u00e1 foi suplantada pelo tempo com o surgimento de novos mecanismos tecnol\u00f3gicos para a realiza\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios mar\u00edtimos, com\u00e9rcio internacional, preocupa\u00e7\u00f5es ambientais e sistema de armazenamento e transporte, valendo destacar: a internacionaliza\u00e7\u00e3o de regras a partir de institui\u00e7\u00f5es internacionais destinadas a uniformizar pr\u00e1ticas e padr\u00f5es globais como a Solas e Marpol, entre outras; regulamenta\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e seguros o que inclui normas para constru\u00e7\u00e3o de navios, manuten\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00f5es para garantir seguran\u00e7a no mar, bem como o desenvolvimento de sistemas complexos que ajudam a gerenciar os riscos financeiros associados aos transportes mar\u00edtimos; Direito Ambiental Mar\u00edtimo e a prote\u00e7\u00e3o de ecossistemas marinhos; combate \u00e0 pirataria, tr\u00e1fico de drogas e armas; seguran\u00e7a mar\u00edtima; tecnologia e automa\u00e7\u00e3o; arbitragem e resolu\u00e7\u00e3o de disputas; Direito dos trabalhadores, al\u00e9m da padroniza\u00e7\u00e3o de armazenamento, digitaliza\u00e7\u00e3o e rastreamento dos cont\u00eaineres, que ampliaram e complexibilizaram as rela\u00e7\u00f5es contratuais no transporte de carga; entre outros m\u00faltiplos temas que demonstram que \u00e9 preciso e urgente discutir o Direito Mar\u00edtimo com seriedade e coragem.<\/span><\/p>\n<p><span>A prop\u00f3sito, \u00e9 importante destacar que o Direito Mar\u00edtimo tem uma epistemologia pr\u00f3pria, mesmo sendo decorrente de neg\u00f3cios e contratos, tem sujeitos, nomenclaturas, denomina\u00e7\u00f5es, conceitos, processos e procedimentos pr\u00f3prios, que o distancia de qualquer outro ramo do Direito, embora dialogue com eles.<\/span><\/p>\n<p><span>A legisla\u00e7\u00e3o brasileira que trata do Direito Mar\u00edtimo \u00e9 um compilado de leis, decretos e portarias, tratados incorporados, que leva a um sistema confuso e pouco seguro e absolutamente desorganizado. Isso pode ser constatado nos movimentos legislativos recentes, temos um c\u00f3digo defasado, suplantado pela realidade, com um cat\u00e1logo fragmentado de legisla\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span>Recentemente, foi elaborado um novo projeto do c\u00f3digo comercial que manteve o Direito Mar\u00edtimo como um ap\u00eandice sem import\u00e2ncia, sem que houvesse uma discuss\u00e3o aprofundada com a sociedade e envolvimento direto do setor mar\u00edtimo.<\/span><\/p>\n<p><span>Foi aprovada a \u201c<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/transportes\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2022\/01\/br-do-mar-sancionada-lei-que-institui-programa-de-incentivo-a-cabotagem-no-brasil\">BR do Ma<\/a>r\u201d com inova\u00e7\u00f5es no setor de navega\u00e7\u00e3o e transporte de cargas como uma norma aut\u00f4noma cheia de remendos e contradi\u00e7\u00f5es. H\u00e1 pouco tempo, o Congresso instituiu uma comiss\u00e3o para regular o setor portu\u00e1rio e todos os dias s\u00e3o aprovadas normativas administrativas emitidas pela <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/marinha\">Marinha<\/a>, as chamadas \u201cNormam\u201d e, ainda, v\u00e1rias leis modelos da IMO est\u00e3o por ser recepcionadas como decreto.<\/span><\/p>\n<p><span>N\u00e3o obstante a inefic\u00e1cia de tais iniciativas, todos esses movimentos legislativos revelam que o tema e os m\u00faltiplos setores do mar t\u00eam reclamado uma necess\u00e1ria atualiza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o brasileira, mas a discuss\u00e3o de temas esparsos, sem uma sistematiza\u00e7\u00e3o coerente envolvendo todos os m\u00faltiplos atores que atuam no setor mar\u00edtimo, leva \u00e0 confus\u00e3o jur\u00eddica com dispositivos de diferentes n\u00edveis e objetivos, se chocando, criando conflitos de legisla\u00e7\u00e3o e lacunas interpretativas que trazem inseguran\u00e7a para investidores e neg\u00f3cios internacionais e levam a um sistema absolutamente disfuncional para seus operadores.<\/span><\/p>\n<p><span>Este anacronismo legislativo n\u00e3o s\u00f3 compromete a efici\u00eancia e a seguran\u00e7a das opera\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas como tamb\u00e9m coloca o Brasil em desvantagem competitiva no cen\u00e1rio internacional.<\/span><\/p>\n<p><span>\u00c9 imperiosa uma legisla\u00e7\u00e3o mar\u00edtima aut\u00f4noma para o Brasil. O Congresso apoiado e motivado por aqueles que trabalham com o setor mar\u00edtimo, deveria criar uma comiss\u00e3o de alto n\u00edvel com um plano de trabalho a longo prazo, para buscar a sistematiza\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o mar\u00edtima aut\u00f4noma, que seja resultado de um amplo debate nacional envolvendo a sociedade, maritimistas, comunidades, Estados e munic\u00edpios, setor privado e econ\u00f4mico, universidades, com o objetivo de criar um todo coerente uma \u201clex mar\u00edtima\u201d de vanguarda que corresponda \u00e0 dimens\u00e3o e \u00e0 natureza jur\u00eddica do pa\u00eds e lhe permita n\u00e3o apenas modernizar suas opera\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas, mas tamb\u00e9m posicionar-se como l\u00edderes no com\u00e9rcio e neg\u00f3cios internacionais mar\u00edtimos, repercutindo no desenvolvimento do setor, gerando desenvolvimento econ\u00f4mico e social.<\/span><\/p>\n<p><span>Recentemente, na Faculdade de Direito da USP, a comunidade jur\u00eddica mar\u00edtima brasileira concordou sobre a necessidade de aprimorar os debates sobre a sistematiza\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o mar\u00edtima aut\u00f4noma para o pa\u00eds, tendo sido lan\u00e7ado um movimento para ampliar e amadurecer o debate e sensibilizar as autoridades a partir da realiza\u00e7\u00e3o de semin\u00e1rios, com a abertura de discuss\u00e3o sobre o tema.<\/span><\/p>\n<p><span>Pensar estrategicamente o Estado brasileiro envolve a discuss\u00e3o acerca das estrat\u00e9gias de governan\u00e7a do mar, e a necessidade de uma legisla\u00e7\u00e3o mar\u00edtima brasileira aut\u00f4noma se acentua em face dos desafios contempor\u00e2neos impostos pela globaliza\u00e7\u00e3o e pelas espec\u00edficas demandas do com\u00e9rcio e dos neg\u00f3cios internacionais.<\/span><\/p>\n<p><span>O Direito Mar\u00edtimo, por sua natureza intrincada e sua epistemologia pr\u00f3pria, requer uma abordagem especializada que o distingue de outras \u00e1reas do Direito. A ado\u00e7\u00e3o de uma lei mar\u00edtima aut\u00f4noma no Brasil representaria um reconhecimento da import\u00e2ncia estrat\u00e9gica deste setor, corrigindo equ\u00edvocos hist\u00f3ricos e posicionando o Brasil como um player proeminente no com\u00e9rcio internacional.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Direito, como express\u00e3o da sociedade, deve acompanhar as transforma\u00e7\u00f5es de seu tempo e se adaptar a ele. O sistema jur\u00eddico de um Estado ser\u00e1 eficaz \u00e0 medida que refletir as demandas da sociedade, suas rela\u00e7\u00f5es sociais, seus mecanismos de poder legitimados, essencialmente sua natureza, rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e cultura. 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