{"id":5585,"date":"2024-01-15T03:21:01","date_gmt":"2024-01-15T06:21:01","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/01\/15\/por-um-direito-ao-nao-esquecimento-o-stf-e-o-debate-do-direito-a-historia\/"},"modified":"2024-01-15T03:21:01","modified_gmt":"2024-01-15T06:21:01","slug":"por-um-direito-ao-nao-esquecimento-o-stf-e-o-debate-do-direito-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2024\/01\/15\/por-um-direito-ao-nao-esquecimento-o-stf-e-o-debate-do-direito-a-historia\/","title":{"rendered":"Por um \u2018direito ao n\u00e3o esquecimento\u2019: o STF e o debate do direito \u00e0 hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Recentemente, a vice-presid\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) reconheceu uma poss\u00edvel disson\u00e2ncia entre o julgamento, pela 4\u00aa Turma da Corte Superior, do Recurso Especial 1.334.097\/RJ, e o enunciado firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por meio do Tema de Repercuss\u00e3o Geral 786, que estabeleceu o regime de incompatibilidade entre a ideia de um <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/direito-ao-esquecimento\"><em>\u201cdireito ao esquecimento\u201d<\/em><\/a> e os direitos fundamentais previstos pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988. O processo, autuado como RE 1.379.821\/RJ e distribu\u00eddo ao ministro Andr\u00e9 Mendon\u00e7a, \u00e9 relacionado \u00e0 infame <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2023\/07\/relembre-o-que-foi-a-chacina-da-candelaria-que-completa-30-anos.shtml\">chacina da Candel\u00e1ria<\/a>.<\/p>\n<p>Para fins de contextualiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 relevante destacar que a no\u00e7\u00e3o de <em>\u201cdireito ao esquecimento\u201d <\/em>decorre de uma defesa da possibilidade de remo\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es e, ainda, de inibi\u00e7\u00e3o de novas produ\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am men\u00e7\u00e3o a determinado fato essencialmente por conta da passagem de tempo. Esse direito, que envolve impedimentos micro ou macro, desde situa\u00e7\u00f5es individualizadas e at\u00e9 mesmo em interpreta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas amplas, surge frequentemente em ambientes de debate p\u00fablico em oposi\u00e7\u00e3o a um autoexplicativo \u201c<em>direito \u00e0 hist\u00f3ria<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O caso apreciado pelo STF, sob a \u00f3tica da repercuss\u00e3o geral, tinha vincula\u00e7\u00e3o com o relato de ocorr\u00eancia criminosa que reverberou, sensivelmente, durante determinado per\u00edodo hist\u00f3rico, e que teve sua relev\u00e2ncia restabelecida por ocasi\u00e3o da veicula\u00e7\u00e3o de um programa televisivo que abordou o assunto muito anos ap\u00f3s o fato em si. Na hip\u00f3tese, o STF considerou que a rede de televis\u00e3o tinha o direito de contar a hist\u00f3ria como efetivamente ocorrida e que os familiares da v\u00edtima n\u00e3o poderiam impedir o acesso da sociedade aos fatos, justamente porque a ideia de um <em>\u201cdireito ao esquecimento\u201d<\/em> n\u00e3o seria compat\u00edvel, como dito, com a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>No novo processo que ser\u00e1 trazido ao conhecimento do STF, o debate gira em torno dos fatos relacionados aos assassinatos e de suas repercuss\u00f5es judiciais. Novamente, o lit\u00edgio envolve um programa televisivo veiculado anos ap\u00f3s a ocorr\u00eancia: a produ\u00e7\u00e3o citou nome e condi\u00e7\u00e3o de pessoa que inicialmente foi alvo de acusa\u00e7\u00f5es, mas que posteriormente se viu absolvida. Embora todo esse contexto tenha sido trazido pelo programa, o indiv\u00edduo citado considerou o material infringente e buscou uma indeniza\u00e7\u00e3o em ju\u00edzo.<\/p>\n<p>O STJ, em ac\u00f3rd\u00e3o datado de 2013, considerou as condutas da rede de televis\u00e3o pass\u00edveis de indeniza\u00e7\u00e3o justamente por reconhecer <em>\u201co direito ao esquecimento dos condenados que cumpriram integralmente a pena e, sobretudo, dos que foram absolvidos em processo criminal\u201d<\/em>. Ap\u00f3s a decis\u00e3o do Supremo que enunciou a incompatibilidade entre o <em>\u201cdireito ao esquecimento\u201d<\/em> e a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, os autos foram devolvidos ao colegiado para eventual ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o. A citada reconsidera\u00e7\u00e3o, contudo, foi afastada sob o argumento de que o Supremo teria, na segunda parte da tese, possibilitado a san\u00e7\u00e3o de eventuais excessos ou abusos no exerc\u00edcio da liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, os eventuais abusos citados pelo STJ podem ser motivo de imposi\u00e7\u00e3o de penalidades c\u00edveis e criminais no Brasil. O que se v\u00ea, contudo, \u00e9 que, na pr\u00e1tica, a Corte Superior parece ter considerado abusiva a simples men\u00e7\u00e3o a fatos verdadeiros, relacionados a uma ocorr\u00eancia de forte repercuss\u00e3o midi\u00e1tica. De acordo com o ac\u00f3rd\u00e3o que ser\u00e1 levado \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do Supremo, a hist\u00f3ria teria que ser contada parcialmente para n\u00e3o incorrer em abusividade, com a exclus\u00e3o do nome e da imagem de qualquer pessoa que tenha sido absolvida ou cumprido integralmente a pena arbitrada pelo Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por mais que a nova decis\u00e3o do STJ, apresentada em ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o, tenha tentado afastar a conex\u00e3o inicialmente realizada, a hip\u00f3tese defendida pela Corte Superior tem potenciais conex\u00f5es com a ideia de um <em>\u201cdireito ao esquecimento\u201d<\/em>, expressamente afastada pelo Supremo porque, como visto, a abusividade da produ\u00e7\u00e3o decorreu exclusivamente da aus\u00eancia de omiss\u00e3o de fatos verdadeiros.<\/p>\n<p>A esse respeito, \u00e9 imprescind\u00edvel destacar que o STF definiu no ac\u00f3rd\u00e3o que suscitou a tese de repercuss\u00e3o geral que <em>\u201cum comando jur\u00eddico que eleja a passagem do tempo como restri\u00e7\u00e3o \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o verdadeira, licitamente obtida e com adequado tratamento dos dados nela inseridos, precisa estar previsto em lei, de modo pontual, clarividente e sem anula\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o. Ele n\u00e3o pode, ademais, ser fruto apenas de pondera\u00e7\u00e3o judicial\u201d<\/em>. O julgamento do STJ, inclusive aquele realizado em ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o, parece n\u00e3o ter enfrentado o argumento em refer\u00eancia. Especialmente porque, ao menos de acordo com a presente opini\u00e3o, a condena\u00e7\u00e3o imposta tem vincula\u00e7\u00e3o direta com a pondera\u00e7\u00e3o judicial expressamente vedada pelo STF.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, mesmo que aplic\u00e1vel a pondera\u00e7\u00e3o, do que se verifica, o sopesamento de direitos parece pender para a preponder\u00e2ncia de um \u201cdireito \u00e0 hist\u00f3ria\u201d, decorrente da l\u00f3gica da liberdade de express\u00e3o tantas vezes reafirmada pelo STF \u2014 como, por exemplo, durante o julgamento da <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2009-nov-07\/leia-integra-acordao-stf-derrubou-lei-imprensa\/\">ADPF 130<\/a>. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3. Embora ocorrido no in\u00edcio dos anos 90, o terr\u00edvel epis\u00f3dio da Candel\u00e1ria \u00e9 de uma contemporaneidade assustadora. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2023\/08\/17\/monitor-da-violencia-com-17percent-rj-tem-a-2o-maior-alta-de-assassinatos-no-1o-semestre-no-pais.ghtml\">Em 2023, dez pessoas foram assassinadas por dia no Rio de Janeiro<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2023\/10\/de-grupos-de-exterminio-a-narcomilicianos-em-73-anos-a-evolucao-das-milicias-no-rio.shtml#:~:text=A%20mil%C3%ADcia%20no%20Rio%20de,ter%20comando%20territorial%20de%20comunidades.\">as mil\u00edcias, originadas dos antigos comandos de exterm\u00ednio, dominam o estado, mais fortalecidas do que nunca na regi\u00e3o Sudeste do pa\u00eds<\/a>. Sonegar informa\u00e7\u00e3o da sociedade sobre o evento \u00e9 impedir que ela consiga compreender e enfrentar o fen\u00f4meno da viol\u00eancia end\u00eamica; \u00e9 esconder a causa e abandonar a popula\u00e7\u00e3o vendada para lidar com a sua delet\u00e9ria consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o aqui esbo\u00e7ada \u00e9 genu\u00edna. No direito comparado, <a href=\"https:\/\/deliverypdf.ssrn.com\/delivery.php?ID=584095096086108098081116076010006127032069023053024057123008014026070115029099119025037027038012044049023030008125094121000124119094030029067020095007115085084027110038038064024104100068087066085081012127097030077022096088066093071028072090093004002021&amp;EXT=pdf&amp;INDEX=TRUE\">a Decis\u00e3o-Quadro 2008\/913\/JHA, proferida pelo Conselho da Uni\u00e3o Europeia, \u00e9 uma norma que visa combater certas formas e express\u00f5es de racismo e xenofobia atrav\u00e9s do Direito Penal<\/a>. Esse paradigma legal de constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria pro\u00edbe diretamente a nega\u00e7\u00e3o, a banaliza\u00e7\u00e3o e a minimiza\u00e7\u00e3o de certos eventos, entre eles, o Holocausto.<\/p>\n<p>O Direito, para o bem e para o mal, afeta o conhecimento hist\u00f3rico por meio de normas e decis\u00f5es com o objetivo principal de adicionar ou retirar o peso de um conte\u00fado do passado. <a href=\"https:\/\/deliverypdf.ssrn.com\/delivery.php?ID=680074082121115024014093023125086113005035046078090017099117013064086094108115030077114007007115059023062064027087115064018094121012037073045073101068077114123084023019066054020094013102067095085112025011067021067097003111119010117124069124000088083088&amp;EXT=pdf&amp;INDEX=TRUE\">Imagine, em um exerc\u00edcio extremo de imagina\u00e7\u00e3o, que todos os governos se unissem para insistir que Lu\u00eds XVI nunca foi guilhotinado. Tal esfor\u00e7o n\u00e3o tornaria a hist\u00f3ria revisada factualmente verdadeira, mas impediria a capacidade dos cidad\u00e3os de confirmar a ocorr\u00eancia do evento<\/a>. Isso tornaria a nova afirma\u00e7\u00e3o persuasiva, particularmente em um mundo \u2014 at\u00e9 mesmo na Europa, \u00e9 bom dizer \u2014 onde muitos sabem pouco ou quase nada sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>Possibilitar o apagamento de fatos verdadeiros e de relev\u00e2ncia social por meio de decis\u00f5es judiciais, como se v\u00ea, \u00e9 medida absolutamente contr\u00e1ria ao desejo da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, aos precedentes do Supremo e ao princ\u00edpio democr\u00e1tico. O direito ao esquecimento n\u00e3o deve sobrepor a \u00e9tica da mem\u00f3ria, consubstanciada no direito universal \u00e0 hist\u00f3ria. O senso de futuro \u00e9 baseado, ainda que parcialmente, no conhecimento do passado. Como bem uma vez disse o Papa Francisco, ao tratar do genoc\u00eddio arm\u00eanio perpetrado pelo Imp\u00e9rio Turco-Otomano, <a href=\"https:\/\/www.rferl.org\/a\/armenia-pope-never-forget-genocide\/27820048.html\">\u201c<em>a mem\u00f3ria nunca deve ser dilu\u00edda ou esquecida. A mem\u00f3ria \u00e9 a fonte da paz e do futuro<\/em>\u201d<\/a>.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente, a vice-presid\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) reconheceu uma poss\u00edvel disson\u00e2ncia entre o julgamento, pela 4\u00aa Turma da Corte Superior, do Recurso Especial 1.334.097\/RJ, e o enunciado firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por meio do Tema de Repercuss\u00e3o Geral 786, que estabeleceu o regime de incompatibilidade entre a ideia de um \u201cdireito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5585"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5585\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}