{"id":5330,"date":"2023-12-10T00:37:32","date_gmt":"2023-12-10T03:37:32","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2023\/12\/10\/rebaixamento-do-santos-simboliza-decadencia-do-brasil-litoraneo-ante-forca-do-agro\/"},"modified":"2023-12-10T00:37:32","modified_gmt":"2023-12-10T03:37:32","slug":"rebaixamento-do-santos-simboliza-decadencia-do-brasil-litoraneo-ante-forca-do-agro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2023\/12\/10\/rebaixamento-do-santos-simboliza-decadencia-do-brasil-litoraneo-ante-forca-do-agro\/","title":{"rendered":"Rebaixamento do Santos simboliza decad\u00eancia do Brasil litor\u00e2neo ante for\u00e7a do agro"},"content":{"rendered":"<p><span>Era uma vez um pa\u00eds que se industrializava em meio a uma democracia incompleta, cercada por tend\u00eancias autorit\u00e1rias, e cuja identidade foi forjada entre quatro linhas brancas que delimitam gramados imperfeitos, por p\u00e9s de homens de diversas cores e origens. A s\u00edntese do Brasil entre os anos 1950 e 1980 teve sua r\u00e9plica no microcosmo da cidade de Santos, no litoral de S\u00e3o Paulo, mais especificamente na Vila Belmiro, bairro que abriga o Est\u00e1dio Urbano Caldeira, o velho al\u00e7ap\u00e3o do Santos Futebol Clube.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Talvez se trate de um caso \u00fanico na hist\u00f3ria do futebol: um time conquistar tantas gl\u00f3rias sem ter sua origem numa capital nacional, estadual ou provincial. Santos \u2014 a cidade \u2014 j\u00e1 vinha de um ciclo de pujan\u00e7a impulsionado pela exporta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 no s\u00e9culo 19 e come\u00e7o do s\u00e9culo 20. A grande virada, por\u00e9m, do mais robusto time de futebol local deu-se apenas a partir de 1955, quando o clube hom\u00f4nimo ganhou seu segundo Campeonato Paulista depois de 20 anos de jejum. No ano seguinte, Edson Arantes do Nascimento desembarcou na Vila Belmiro para se fazer Pel\u00e9 e, com tantos outros jogadores talentosos, projetar o nome do Santos \u2014 clube e cidade \u2014 no mundo e qui\u00e7\u00e1 na eternidade.<\/span><\/p>\n<p><span>Santos n\u00e3o era mais o porto do caf\u00e9 apenas. A industrializa\u00e7\u00e3o crescente de S\u00e3o Paulo e a instala\u00e7\u00e3o de um polo petroqu\u00edmico e sider\u00fargico na vizinha Cubat\u00e3o gerou riqueza para al\u00e9m dos velhos bar\u00f5es que encheram os bolsos cultivando e exportando aquela <em>commodity<\/em>. Do ponto de vista cultural e pol\u00edtico, a cidade era efervescente. J\u00e1 durante a era cafeeira, Santos havia ganhado a alcunha de \u201cBarcelona brasileira\u201d, com extensa influ\u00eancia sindical, em particular dos estivadores. Em meio \u00e0 paranoia comunista que antecedeu e justificou em parte o golpe militar de 1964, o apelido ainda se justificava, mas fora substitu\u00eddo por \u201cnova Moscou\u201d e \u201cCidade Vermelha\u201d. O prefeito da \u00e9poca, Jos\u00e9 Gomes, do PTB varguista, foi deposto assim que a ditadura militar come\u00e7ou.<\/span><\/p>\n<p><span>Pel\u00e9 jogaria no clube at\u00e9 1974, mas o auge do alvinegro praiano e da cidade tinha passado, uma estagna\u00e7\u00e3o talvez iniciada com o fim da democracia, mas convertida em espiral descendente apenas no come\u00e7o do s\u00e9culo 21. Depois das eras Robinho-Diego (com dois t\u00edtulos brasileiros, em 2002 e 2004) e a ascens\u00e3o de Neymar (que levou o time \u00e0 conquista da primeira e \u00fanica Libertadores depois da era Pel\u00e9 em 2011), o Santos e a Santos parecem ter entrado num decl\u00ednio que, temo, seja irrevers\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span>Os embates pol\u00edticos entre esquerda e direita democr\u00e1ticas do p\u00f3s-ditadura na pol\u00edtica local deram lugar nos anos 2010 ao dom\u00ednio de um grupo pol\u00edtico com ra\u00edzes olig\u00e1rquicas no autoritarismo e que recentemente abra\u00e7ou o bolsonarismo de modo expl\u00edcito. At\u00e9 agora sequer tiveram a coragem de homenagear Pel\u00e9 \u00e0 altura: mesmo depois de um ano de sua morte, causa esp\u00e9cie que a cidade n\u00e3o tenha nenhum de seus principais logradouros com o nome daquele que \u00e9 seu principal personagem hist\u00f3rico \u2014 supera at\u00e9 mesmo Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, santista de nascimento e patriarca da independ\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span>Curiosamente, Santos abra\u00e7ou uma tend\u00eancia iniciada em regi\u00f5es do Centro-Oeste que hoje d\u00e3o as cartas na pol\u00edtica e economia nacionais. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, Jair Bolsonaro (PL) recebeu 56,20% dos votos. Seu pupilo-mor, o governador Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos), obteve 56,58%. Para quem se imaginou ser uma Barcelona, deve ser duro perceber-se uma Miami do terceiro mundo, reacion\u00e1ria, com cada vez mais pr\u00e9dios de arquitetura duvidosa. Ambas, ali\u00e1s, tiveram Messi em seus respectivos times locais. Nos \u00faltimos anos, Santos teve apenas Neymar, que, em vez de bolas de ouro, coleciona flertes com a extrema direita nacional.<\/span><\/p>\n<p><span>Outra ironia \u00e9 que enquanto o Santos vai jogar a s\u00e9rie B sem boas perspectivas de recupera\u00e7\u00e3o devido \u00e0 crise financeira em que se encontra, Cuiab\u00e1 \u2014 uma das capitais do agro e do bolsonarismo \u2014 tem um time hom\u00f4nimo na primeira divis\u00e3o nacional h\u00e1 tr\u00eas temporadas. O eixo da for\u00e7a da economia e pol\u00edtica parece ser indissoci\u00e1vel de transforma\u00e7\u00f5es nos esportes, inclusive o futebol.<\/span><\/p>\n<p><span>Tais transforma\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m colocam em xeque o maior porto da Am\u00e9rica Latina, localizado na cidade. Com a melhoria da infraestrutura no Norte do pa\u00eds, o escoamento de soja e outras <em>commodities<\/em> tende a prescindir de Santos num futuro pr\u00f3ximo.<\/span><\/p>\n<p><span>Todos aqueles que imaginavam um Brasil industrializado, democr\u00e1tico, orgulhoso de seu sincretismo, livre do reacionarismo devem chorar a queda do Santos e do meio sociopol\u00edtico e econ\u00f4mico que permitiu a ascens\u00e3o de um dos maiores times da hist\u00f3ria e do melhor jogador de todos os tempos. Se Santos \u2014 o time e a cidade \u2014 n\u00e3o s\u00e3o capazes de defender o legado de Pel\u00e9, que os demais brasileiros o fa\u00e7am. Pode ser a \u00fanica lembran\u00e7a tang\u00edvel daquilo que, parafraseando Darcy Ribeiro, poderia ter sido o Brasil, mas nos causa tamanha dor porque cada vez mais integra apenas um passado sob risco de ser definitivamente esquecido.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez um pa\u00eds que se industrializava em meio a uma democracia incompleta, cercada por tend\u00eancias autorit\u00e1rias, e cuja identidade foi forjada entre quatro linhas brancas que delimitam gramados imperfeitos, por p\u00e9s de homens de diversas cores e origens. 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