{"id":4657,"date":"2023-09-19T16:46:40","date_gmt":"2023-09-19T19:46:40","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2023\/09\/19\/instituicoes-e-modelo-regulatorio-diferencas-entre-risco-e-incertezas\/"},"modified":"2023-09-19T16:46:40","modified_gmt":"2023-09-19T19:46:40","slug":"instituicoes-e-modelo-regulatorio-diferencas-entre-risco-e-incertezas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2023\/09\/19\/instituicoes-e-modelo-regulatorio-diferencas-entre-risco-e-incertezas\/","title":{"rendered":"Institui\u00e7\u00f5es e modelo regulat\u00f3rio: diferen\u00e7as entre risco e incertezas"},"content":{"rendered":"<p>No curso de economia aprendemos desde o come\u00e7o nas disciplinas de estat\u00edstica e microeconomia as diferen\u00e7as entre risco e incertezas. No caso do risco, \u00e9 poss\u00edvel estimar a distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade da ocorr\u00eancia do evento, ou seja, mapear um evento de risco e tomar a decis\u00e3o de seguir ou n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o racional. No caso da incerteza, n\u00e3o h\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade de ocorr\u00eancia, impossibilitando que a decis\u00e3o nesse cen\u00e1rio seja tomada no espectro da racionalidade pela aus\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as s\u00e3o vis\u00edveis no dia a dia das pessoas e das empresas. Os agentes econ\u00f4micos tomam decis\u00f5es diariamente sob incertezas ou calculando riscos. Isso \u00e9 parte da vida. Contudo, o problema emerge quando a quantidade de cen\u00e1rios de incertezas aumenta mais do que proporcionalmente que os cen\u00e1rios de riscos, pois as decis\u00f5es majoritariamente deixam de ser tomadas de forma racional e passam a ser tomadas com base na f\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento que o papel das institui\u00e7\u00f5es \u00e9 notado pela sociedade. As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o o conjunto de regras, normativos e as pr\u00f3prias entidades que as aplicam para manter a estabilidade nas intera\u00e7\u00f5es sociais. Deste modo, a atua\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental para o desenvolvimento dos pa\u00edses, pois sem regras claras e seguran\u00e7a na aplica\u00e7\u00e3o delas, o caos econ\u00f4mico e social come\u00e7a a emergir.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a atua\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e a presen\u00e7a dos cen\u00e1rios de incertezas \u00e9 umbilical, pois a presen\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es atuando de forma eficiente \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a minimiza\u00e7\u00e3o das incertezas.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00f5es e incertezas \u00e9 vis\u00edvel e latente na regula\u00e7\u00e3o dos setores produtivos, especialmente nos setores de infraestrutura que s\u00e3o marcados pela presen\u00e7a de monop\u00f3lios naturais.<\/p>\n<p>Conforme destacam Acemoglu e Robinson (2012), s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es as respons\u00e1veis pelo desenvolvimento, e n\u00e3o a heran\u00e7a ou sorte relacionada a abund\u00e2ncia de recursos naturais. No caso dos setores de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/infraestrutura\">infraestrutura<\/a>, em que lidamos com as falhas de mercado, a necessidade de institui\u00e7\u00f5es bem estabelecidas para garantir essa seguran\u00e7a jur\u00eddica e permitir uma presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o adequada se torna mais evidente. Uma vez que os servi\u00e7os de infraestrutura s\u00e3o marcados por estruturas de mercado monopolistas, \u00e9 necess\u00e1ria a exist\u00eancia do regulador para garantir que a firma n\u00e3o exer\u00e7a o seu poder de monop\u00f3lio e extraia o bem-estar dos consumidores. Sendo assim, atua\u00e7\u00f5es inapropriadas do regulador geram efeitos perversos para a sociedade.<\/p>\n<p>A realidade desses mercados possibilita conectar e entender a discuss\u00e3o entre os modelos regulat\u00f3rios, entre a regula\u00e7\u00e3o discricion\u00e1ria e contratual. No modelo discricion\u00e1rio, a regula\u00e7\u00e3o do setor ganha pela flexibilidade, mas perde por ter mais espa\u00e7o para arbitrariedade. Por outro lado, a regula\u00e7\u00e3o contratual traz um modelo mais previs\u00edvel, mas menos apto a lidar com imprevistos.<\/p>\n<p>Sem entrar nas particularidades dos modelos, a maturidade e qualidade das institui\u00e7\u00f5es influencia diretamente as prefer\u00eancias pelos modelos regulat\u00f3rios citados, norteando a escolha do modelo e as consequ\u00eancias que esses modelos trazem para a sociedade.<\/p>\n<p><strong>Figura 1: Rela\u00e7\u00e3o entre Qualidade Institucional e Modelo de Regula\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\n<strong>Econ\u00f4mica<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Fonte: Adaptado de Turolla (2023), webinar \u201cRegula\u00e7\u00e3o contratual x regula\u00e7\u00e3o discricion\u00e1ria: como avan\u00e7ar no saneamento\u201d<\/p>\n<p>No quadrante A e B temos os casos em que a sociedade consegue ter o seu bem-estar maximizado, onde teoricamente A=B. O quadrante C trata do <em>second-best<\/em> entre as op\u00e7\u00f5es existentes, pois ainda \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar um n\u00edvel de m\u00e1ximo de bem-estar, embora esse m\u00e1ximo seja local e n\u00e3o global, seguindo a linguagem dos matem\u00e1ticos. O quadrante D traz o pior dos cen\u00e1rios, pois neste caso n\u00e3o seria poss\u00edvel alcan\u00e7ar algum n\u00edvel satisfat\u00f3rio de bem-estar, pois as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para essa otimiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o seriam mais presentes.<\/p>\n<p>Os quadrantes A e B s\u00e3o teoricamente equivalentes por se tratar de modelos que buscam a mesma coisa, mas de formas diferentes, que seria o m\u00e1ximo bem-estar para sociedade. Na pr\u00e1tica, as diferen\u00e7as de bem-estar seriam causadas pelos custos de transa\u00e7\u00e3o presentes nos modelos discricion\u00e1rio ou contratual.<\/p>\n<p>Com efeito, A &gt; B se o custo de transa\u00e7\u00e3o atrelado aos custos de elabora\u00e7\u00e3o de contratos e judicializa\u00e7\u00f5es fossem maiores do que os custos para manter uma estrutura regulat\u00f3ria robusta. Da mesma forma, B &gt; A se o custo de manuten\u00e7\u00e3o da estrutura regulat\u00f3ria fosse maior do que o custo de estrutura\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o do contrato.<\/p>\n<p>O ponto principal dessa an\u00e1lise simplificada \u00e9 que, com maturidade regulat\u00f3ria, institui\u00e7\u00f5es eficientes e seguran\u00e7a jur\u00eddica, os efeitos e consequ\u00eancias da aplica\u00e7\u00e3o do modelo contratual ou discricion\u00e1rio s\u00e3o m\u00ednimos, pois as institui\u00e7\u00f5es funcionam apropriadamente, conseguindo criar o ambiente para a maximiza\u00e7\u00e3o do bem-estar social.<\/p>\n<p>Essa equival\u00eancia \u00e9 mais vis\u00edvel quando analisado as diferen\u00e7as entre os quadrantes C e D, pois o bem-estar sempre seguir\u00e1 C &gt; D. Em um cen\u00e1rio de baixa qualidade institucional, as brechas que o modelo traz para a arbitrariedade e captura s\u00e3o muito maiores do que a do modelo contratual, deste modo as firmas sempre estar\u00e3o sujeitas \u00e0s vontades e desejos dos reguladores.<\/p>\n<p>Para sanar parte das externalidades negativas que o ambiente de baixa qualidade institucional gera, o modelo de regula\u00e7\u00e3o contratual surge como esperan\u00e7a para mitigar esses efeitos adversos. No modelo contratual, as condi\u00e7\u00f5es e regras ficam claras e os riscos podem ser precificados, de forma que eventos de riscos podem ser mapeados e precificados novamente.<\/p>\n<p>A baixa qualidade institucional sempre ser\u00e1 presente no cen\u00e1rio posto pelo quadrante C, de forma que haver\u00e1 uma perda de bem-estar pelos custos de transa\u00e7\u00e3o gerados para mitigar os efeitos das institui\u00e7\u00f5es. Ainda assim, consideradas as condi\u00e7\u00f5es de contorno adversas postas, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar um equil\u00edbrio onde o bem-estar \u00e9 maximizado, pois isso a defini\u00e7\u00e3o dele como um <em>second-best<\/em>.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio imposto pelo quadrante D \u00e9 considerado imposs\u00edvel de alcan\u00e7ar um equil\u00edbrio no bem-estar, pois no cen\u00e1rio de baixa qualidade institucional e regula\u00e7\u00e3o discricion\u00e1ria, os incentivos \u00e0s boas pr\u00e1ticas se esvaziam e o ambiente se torna mais prop\u00edcio ao <em>rent-seeking, <\/em>capturas regulat\u00f3rias ou de abuso de mercado. Desta forma, os servi\u00e7os tendem a n\u00e3o ser prestados de forma universalizada, com pre\u00e7os elevados e baixa qualidade.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o resumida entre os modelos regulat\u00f3rios e o n\u00edvel de qualidade institucional reflete os questionamentos de Acemoglu e Robinson de porque algumas na\u00e7\u00f5es prosperam mais do que outras. Nesse contexto a governan\u00e7a regulat\u00f3ria tem um papel fundamental e tende a contribuir diretamente para o sucesso de presta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o em ambientes de monop\u00f3lio natural.<\/p>\n<p>Embora seja um exerc\u00edcio te\u00f3rico, \u00e9 importante que sempre haja a reflex\u00e3o sobre o n\u00edvel de qualidade institucional de um pa\u00eds, estado ou munic\u00edpio no momento de desenhar contratos para a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos, pois essas escolhas podem ter reflexos significativos sobre o bem-estar da sociedade.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No curso de economia aprendemos desde o come\u00e7o nas disciplinas de estat\u00edstica e microeconomia as diferen\u00e7as entre risco e incertezas. 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