{"id":3804,"date":"2023-04-25T10:37:21","date_gmt":"2023-04-25T13:37:21","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2023\/04\/25\/regulacao-em-telessaude-o-caso-do-aborto-legal\/"},"modified":"2023-04-25T10:37:21","modified_gmt":"2023-04-25T13:37:21","slug":"regulacao-em-telessaude-o-caso-do-aborto-legal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2023\/04\/25\/regulacao-em-telessaude-o-caso-do-aborto-legal\/","title":{"rendered":"Regula\u00e7\u00e3o em telessa\u00fade: o caso do aborto legal"},"content":{"rendered":"<p>O Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais iniciou um processo administrativo disciplinar para investigar o uso da telessa\u00fade para realiza\u00e7\u00e3o do aborto legal por uma m\u00e9dica de Uberl\u00e2ndia. A m\u00e9dica, Helena Paro, \u00e9 a\u00a0 respons\u00e1vel pelo N\u00facleo de Aten\u00e7\u00e3o Integral a V\u00edtimas de Agress\u00e3o Sexual (Nuavidas), que faz parte do Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Durante a pandemia da Covid-19, a Diretoria e o Comit\u00ea de \u00c9tica do hospital aprovaram, com respaldo em parecer do Conselho de Farm\u00e1cia de Minas Gerais e em recomenda\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.mpf.mp.br\/pfdc\/noticias\/pfdc-emite-nota-tecnica-sobre-adocao-da-telemedicina-na-realizacao-de-etapas-do-aborto-legal\">Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal<\/a>, um protocolo para atendimento de meninas e mulheres com direito ao aborto legal, utilizando a medica\u00e7\u00e3o misoprostol.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) considera o aborto medicamentoso como a modalidade mais segura de faz\u00ea-lo. O uso da telessa\u00fade para a assist\u00eancia ao aborto \u00e9 recomendado pela organiza\u00e7\u00e3o e est\u00e1 presente em diversos pa\u00edses do mundo. O Brasil possui <a href=\"http:\/\/tabnet.datasus.gov.br\/cgi\/tabcgi.exe?cnes\/cnv\/servc2br.def\">127 servi\u00e7os de aborto legal<\/a>, dos quais nem todos realizam o procedimento, apesar de existirem <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/populacao\/9127-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios.html?=&amp;t=resultados\">mais de 50 milh\u00f5es de mulheres em idade reprodutiva<\/a> e haver <a href=\"https:\/\/repositorio.ipea.gov.br\/handle\/11058\/11814\">822 mil casos de estupros<\/a> a cada ano. De acordo com dados da OMS, o Brasil \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/csc\/a\/yNst4qfp9xzkqtvtmbFzDYK\/?lang=pt\">quarto colocado no n\u00famero de nascimentos de fetos anenc\u00e9falos<\/a> (1\/1.600 nascidos vivos), ficando atr\u00e1s somente do M\u00e9xico, Chile e Paraguai.<\/p>\n<p>Para visualizar melhor, o fluxo do atendimento no Nuavidas come\u00e7a com a procura da menina ou mulher pelo atendimento m\u00e9dico para realizar o aborto legal. Em raz\u00e3o da aus\u00eancia de presencialidade, a mulher (ou seu representante legal) assina um termo, comprometendo-se a ser usu\u00e1ria exclusiva da medica\u00e7\u00e3o. A equipe fornece o medicamento, conforme as circunst\u00e2ncias do caso, e a mulher passa a ser acompanhada, de forma remota, durante todo o processo de interrup\u00e7\u00e3o da gesta\u00e7\u00e3o. Conforme o protocolo constru\u00eddo pela equipe, a telessa\u00fade para o aborto legal seria utilizada apenas em gesta\u00e7\u00f5es de at\u00e9 12 semanas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, vale lembrar, restri\u00e7\u00f5es temporais para realiza\u00e7\u00e3o do aborto legal no Brasil. A escolha de um limite gestacional \u00e9 baseada em recomenda\u00e7\u00f5es da OMS sobre o aborto medicamentoso. Os casos de mulheres em gesta\u00e7\u00f5es fora dessa margem s\u00e3o atendidos presencialmemte com o uso de outros m\u00e9todos. As complica\u00e7\u00f5es do aborto medicamentoso s\u00e3o extremamente raras e, no caso de qualquer sintoma, a mulher \u00e9 orientada a buscar o hospital ou o pronto-atendimento de sua cidade. Em termos constitucionais ou legais, n\u00e3o havia conflitos, j\u00e1 que o atendimento se dava em um servi\u00e7o de aborto legal, utilizando a intermedia\u00e7\u00e3o pela telessa\u00fade, que estava autorizada pela <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2020\/Lei\/L13989.htm\">Lei 13.989\/2020<\/a>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a pandemia, a <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2022\/lei\/L14510.htm\">Lei 14.510\/2022<\/a> regulamentou a telessa\u00fade de forma permanente, expandindo o seu uso para outros profissionais de sa\u00fade, al\u00e9m de m\u00e9dicas e m\u00e9dicos. A lei tem como princ\u00edpios a autonomia profissional, o consentimento do paciente e a assist\u00eancia segura e com qualidade, quest\u00f5es presentes nos atendimentos feitos em Uberl\u00e2ndia. A Lei 14.510\/2022 tamb\u00e9m prev\u00ea que qualquer ato que pretenda restringir a presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de telessa\u00fade dever\u00e1 demonstrar a imprescindibilidade da medida para que sejam evitados danos \u00e0 sa\u00fade das e dos pacientes. O uso da telessa\u00fade para o aborto legal, como apontado, \u00e9 seguro, eficaz, bem aceito pelas mulheres e recomendado pela OMS.<\/p>\n<p>Por que o \u00f3rg\u00e3o que controla e fiscaliza os aspectos \u00e9ticos do exerc\u00edcio da profiss\u00e3o (conselhos estadual e federal de medicina) se disp\u00f5e a investigar o uso de um procedimento legal, reconhecido como boa pr\u00e1tica pela OMS? Por que a primeira m\u00e9dica e a equipe de sa\u00fade que pensou, desenhou e negociou com as autoridades do sistema de justi\u00e7a o primeiro servi\u00e7o de aborto por telessa\u00fade est\u00e1 respondendo a um procedimento \u00e9tico e n\u00e3o recebendo pr\u00eamios de inova\u00e7\u00e3o em sa\u00fade e servindo de exemplo para a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas? A resposta tem algumas camadas.<\/p>\n<p>A mais superficial \u00e9 a que afasta as evid\u00eancias cient\u00edficas para sustentar uma falsa defesa da sa\u00fade da mulher, insistindo na necessidade de interna\u00e7\u00e3o em ambiente hospitalar para realiza\u00e7\u00e3o do procedimento. N\u00e3o faltam evid\u00eancias cientificas da <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/28885427\/\">seguran\u00e7a do aborto medicamentoso, autoinduzido, sem interna\u00e7\u00e3o<\/a> como regra. S\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas da mulher que poder\u00e3o indicar a necessidade de interna\u00e7\u00e3o. Em 2021, houve uma consulta p\u00fablica sobre a Portaria SVS 344\/1998, que trata das subst\u00e2ncias sujeitas a controle especial. Apesar da participa\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es e especialistas que forneceram argumentos para a remo\u00e7\u00e3o ou altera\u00e7\u00e3o de disposi\u00e7\u00f5es que restringem injustificadamente o misoprostol ao ambiente hospitalar, ainda n\u00e3o houve qualquer mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>A segunda camada, mais espessa, \u00e9 a restri\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 autonomia reprodutiva da mulher. A tarefa de refazer o mundo, a miss\u00e3o feminista, n\u00e3o se completar\u00e1 at\u00e9 que as mulheres possam exercer o que o constitucionalismo liberal chama de autonomia individual, o que as feministas negras chamam de igualdade racial, o que chamaremos de autonomia interseccionalizada. Autonomia interseccionalizada significa liberdade posicionada, em termos mais dogm\u00e1ticos, a aplica\u00e7\u00e3o dos direitos s\u00f3 ser\u00e1 igual se abranger as diferentes posi\u00e7\u00f5es dos sujeitos de direito. Nesse caso, ter \u00fatero significa poder acessar bens e servi\u00e7os de sa\u00fade durante um longo per\u00edodo na vida. Isso inclui, inevitavelmente, o direito ao aborto.<\/p>\n<p>A terceira camada \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o. Essa camada apoia a segunda e \u00e9 menos conhecida: trata-se da restri\u00e7\u00e3o do acesso ao misoprostol, com a <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/artigos\/quando-se-criminaliza-o-direito-a-saude-o-erro-do-brasil-com-o-misoprostol-05042019\">manuten\u00e7\u00e3o de uma regula\u00e7\u00e3o injustificadamente restritiva<\/a>. O misoprostol \u00e9 dispensado unicamente em hospitais credenciados conforme a autoridade sanit\u00e1ria competente. Essa restri\u00e7\u00e3o est\u00e1 definida por antiga norma da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/anvisa\">Anvisa<\/a>) e conta com total apoio do Conselho Federal de Medicina. A rigidez da regula\u00e7\u00e3o restringe o acesso das mulheres ao aborto, nas hip\u00f3teses em que j\u00e1 \u00e9 permitido.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3. H\u00e1 um outro medicamento, a mifepristona que, combinada com o misoprostol, adiciona mais seguran\u00e7a e efic\u00e1cia ao aborto medicamentoso. A mifepristona n\u00e3o est\u00e1 regulada pela Anvisa. H\u00e1 evid\u00eancias cient\u00edficas suficientes de que o misoprostol e a mifepristona <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/33605016\/\">podem ser administrados em regime ambulatorial<\/a>, com menores custos inclusive. O uso da telessa\u00fade, diante da baixa disponibilidade de servi\u00e7os de aborto e sua concentra\u00e7\u00e3o nas capitais do pa\u00eds, amplia o acesso de meninas e mulheres ao procedimento, eliminando barreiras que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, deixam as mulheres abandonadas ao dilema entre realizar um aborto inseguro ou dar seguimento a um gesta\u00e7\u00e3o fruto de viol\u00eancia sexual contra sua vontade.<\/p>\n<p>A restri\u00e7\u00e3o no acesso ao aborto legal \u00e9 parte de um sistema regulat\u00f3rio em vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria que se apresenta sob as bases da neutralidade de g\u00eanero. A avalia\u00e7\u00e3o de impacto regulat\u00f3rio e a pr\u00f3pria an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio n\u00e3o s\u00e3o instrumentos neutros de regula\u00e7\u00e3o que atingem da mesma forma homens e mulheres, pessoas n\u00e3o brancas, pobres, deficientes. Todas as normas e pol\u00edticas regulat\u00f3rias precisam considerar os marcadores sociais das pessoas que ser\u00e3o atingidas. \u00c9 isso que o direito constitucional imp\u00f5e \u00e0 regula\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica, que considere que o \u201cusu\u00e1rio final\u201d \u00e9 uma pessoa socialmente posicionada e n\u00e3o uma abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O uso da telessa\u00fade traz diversas provoca\u00e7\u00f5es ao direito constitucional e regulat\u00f3rio. A primeira delas \u00e9 a necessidade de revisar a Portaria SVS 344\/1998 a partir das evid\u00eancias cient\u00edficas atualizadas. A tend\u00eancia em pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, inclusive naqueles que garantem o acesso ao aborto apenas em alguns casos, t\u00eam sido eliminar as restri\u00e7\u00f5es injustificadas de compra e venda do misoprostol. A segunda \u00e9 a necessidade de incluir o procedimento de aborto por telessa\u00fade na lista de procedimentos do SUS, para que se elimine qualquer d\u00favida sobre a legalidade do procedimento.<\/p>\n<p>A terceira e mais fundamental \u00e9 o potencial de democratizar o acesso \u00e0 sa\u00fade para meninas, mulheres e outras pessoas que gestam, fortalecendo os princ\u00edpios do SUS. A literatura cient\u00edfica nos mostra que muitas mulheres preferem o procedimento por telessa\u00fade pela maior privacidade e autonomia que proporciona. Al\u00e9m da necessidade de que se ampliem os servi\u00e7os de aborto legal, \u00e9 preciso que Minist\u00e9rio da Sa\u00fade inclua nos processos educativos das e dos profissionais de sa\u00fade a habilidade de acolhimento de mulheres e meninas que t\u00eam direito ao aborto, propiciando tamb\u00e9m as habilidades cl\u00ednicas para realiz\u00e1-lo em qualquer modalidade.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, os entes reguladores da sa\u00fade, inclu\u00eddo o CFM, n\u00e3o podem atuar ignorando os direitos fundamentais das mulheres, o aborto pode ser um acontecimento na vida reprodutiva de pessoas com \u00fateros. Desprezar as evid\u00eancias cient\u00edficas sobre a seguran\u00e7a do aborto realizado por telessa\u00fade em regime domiciliar \u00e9 uma maneira de desfazer o direito ao aborto legal, tornando-o mais inacess\u00edvel, mais caro, e expondo as mulheres aos riscos de sa\u00fade de um aborto inseguro.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais iniciou um processo administrativo disciplinar para investigar o uso da telessa\u00fade para realiza\u00e7\u00e3o do aborto legal por uma m\u00e9dica de Uberl\u00e2ndia. A m\u00e9dica, Helena Paro, \u00e9 a\u00a0 respons\u00e1vel pelo N\u00facleo de Aten\u00e7\u00e3o Integral a V\u00edtimas de Agress\u00e3o Sexual (Nuavidas), que faz parte do Hospital das Cl\u00ednicas da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3804"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3804"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3804\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}