{"id":26315,"date":"2026-09-22T06:00:47","date_gmt":"2026-09-22T09:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/22\/o-problema-do-supremo-como-um-problema-de-agencia\/"},"modified":"2026-09-22T06:00:47","modified_gmt":"2026-09-22T09:00:47","slug":"o-problema-do-supremo-como-um-problema-de-agencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/22\/o-problema-do-supremo-como-um-problema-de-agencia\/","title":{"rendered":"O problema do Supremo como um problema de ag\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais importantes da economia das organiza\u00e7\u00f5es foi demonstrar que n\u00e3o basta perguntar quais s\u00e3o as compet\u00eancias formalmente atribu\u00eddas a determinado agente. \u00c9 preciso perguntar tamb\u00e9m quem controla aquele que exerce essas compet\u00eancias.<\/p>\n<p>Michael Jensen e William Meckling formularam esse problema de maneira cl\u00e1ssica em 1976, ao desenvolverem a chamada teoria da ag\u00eancia. A rela\u00e7\u00e3o de ag\u00eancia surge quando algu\u00e9m, o principal, delega a outra pessoa, o agente, poderes para agir em seu nome. O problema \u00e9 que principal e agente n\u00e3o necessariamente possuem os mesmos interesses e, sobretudo, n\u00e3o disp\u00f5em das mesmas informa\u00e7\u00f5es. O agente normalmente sabe mais sobre suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es do que aquele em cujo benef\u00edcio deveria atuar.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Surgem, assim, os chamados custos de ag\u00eancia: os custos de monitoramento suportados pelo principal, os mecanismos destinados a alinhar o comportamento do agente e, finalmente, a perda residual decorrente das diverg\u00eancias que n\u00e3o puderam ser eliminadas.<\/p>\n<p>A teoria nasceu associada \u00e0 firma e, particularmente, ao problema da separa\u00e7\u00e3o entre propriedade e controle. Em uma companhia de capital disperso, os acionistas s\u00e3o os titulares econ\u00f4micos da empresa, mas n\u00e3o administram diretamente seus ativos. Delegam essa fun\u00e7\u00e3o aos administradores. Como seria extraordinariamente caro para milhares de acionistas acompanhar diariamente cada decis\u00e3o empresarial, s\u00e3o criados mecanismos intermedi\u00e1rios de fiscaliza\u00e7\u00e3o e controle.<\/p>\n<p>O ponto fundamental \u00e9 bastante simples: delega\u00e7\u00e3o de poder gera um problema de ag\u00eancia sempre que existem assimetria de informa\u00e7\u00e3o, interesses potencialmente divergentes e custos elevados de monitoramento. E esse racioc\u00ednio n\u00e3o precisa ficar limitado \u00e0s sociedades empres\u00e1rias.<\/p>\n<p>Richard Posner, ao aplicar a an\u00e1lise econ\u00f4mica ao comportamento judicial, chamou aten\u00e7\u00e3o para um ponto que parece \u00f3bvio, mas frequentemente \u00e9 esquecido no debate jur\u00eddico: ju\u00edzes tamb\u00e9m s\u00e3o seres humanos que respondem a incentivos. Em seu conhecido artigo \u201cWhat Do Judges and Justices Maximize?\u201d, Posner procura construir uma teoria positiva do comportamento judicial. Independ\u00eancia, estabilidade e prote\u00e7\u00e3o contra press\u00f5es externas s\u00e3o essenciais ao exerc\u00edcio da jurisdi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o transformam magistrados em agentes imunes aos incentivos presentes em qualquer organiza\u00e7\u00e3o humana. Essa percep\u00e7\u00e3o permite olhar para o Poder Judici\u00e1rio tamb\u00e9m a partir do problema de ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Em uma democracia constitucional, os poderes exercidos pelas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas n\u00e3o pertencem \u00e0s pessoas que momentaneamente ocupam seus cargos. S\u00e3o poderes delegados pela sociedade e delimitados pela Constitui\u00e7\u00e3o. A sociedade pode, nesse sentido anal\u00edtico, ser compreendida como principal, enquanto os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos exercem fun\u00e7\u00f5es que lhes foram institucionalmente delegadas.<\/p>\n<p>Evidentemente, milh\u00f5es de cidad\u00e3os n\u00e3o podem fiscalizar diretamente, todos os dias, o exerc\u00edcio dessas fun\u00e7\u00f5es. Os custos de informa\u00e7\u00e3o, coordena\u00e7\u00e3o e monitoramento seriam proibitivos. O pr\u00f3prio desenho constitucional procura, portanto, distribuir poderes e criar mecanismos institucionais de controle.<\/p>\n<p>No caso do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/stf\">Supremo Tribunal Federal<\/a>, esse problema assume caracter\u00edsticas particularmente interessantes. A independ\u00eancia judicial exige que ministros possam decidir sem receio de retalia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas decorrentes do conte\u00fado de suas decis\u00f5es. Ao mesmo tempo, independ\u00eancia n\u00e3o elimina o problema de ag\u00eancia inerente ao exerc\u00edcio de qualquer poder delegado.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o procurou lidar com essa tens\u00e3o por meio de mecanismos espec\u00edficos. Entre eles, conferiu ao <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/senado\">Senado<\/a> participa\u00e7\u00e3o na aprova\u00e7\u00e3o dos ministros do Supremo e compet\u00eancia para process\u00e1-los e julg\u00e1-los nos casos de crime de responsabilidade.<\/p>\n<p>Ora, a analogia com as sociedades an\u00f4nimas evidentemente n\u00e3o \u00e9 perfeita, mas \u00e9 \u00fatil.<\/p>\n<p>Os acionistas de uma grande companhia n\u00e3o acompanham pessoalmente cada ato dos administradores. O sistema cria inst\u00e2ncias de fiscaliza\u00e7\u00e3o justamente porque monitorar diretamente os agentes seria excessivamente custoso. Quando aparecem comportamentos potencialmente desviantes da administra\u00e7\u00e3o, uma das primeiras perguntas feitas pelos estudiosos de organiza\u00e7\u00f5es \u00e9: onde estavam os mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Essa pergunta tem ocupado posi\u00e7\u00e3o relevante no debate empresarial recente. Esc\u00e2ndalos corporativos frequentemente n\u00e3o revelam apenas um problema relacionado ao comportamento do administrador. Revelam tamb\u00e9m a incapacidade, omiss\u00e3o ou insufici\u00eancia daqueles encarregados de monitor\u00e1-lo. A mesma l\u00f3gica pode ser aplicada, com as necess\u00e1rias cautelas, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Quando surgem controv\u00e9rsias relevantes sobre a extens\u00e3o do poder exercido por determinado \u00f3rg\u00e3o, conflitos de interesse, atua\u00e7\u00e3o individual de seus membros ou limites de compet\u00eancia, a discuss\u00e3o n\u00e3o deveria se resumir \u00e0s caracter\u00edsticas pessoais daqueles que exercem o cargo. A teoria da ag\u00eancia sugere outra pergunta: os mecanismos previstos para controlar o agente est\u00e3o efetivamente funcionando?<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio supor que os agentes p\u00fablicos sejam mal-intencionados para justificar mecanismos de controle. Jensen e Meckling jamais partiram da premissa de que administradores fossem necessariamente desonestos. O problema decorre da pr\u00f3pria estrutura da delega\u00e7\u00e3o: quem recebe poder possui informa\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, incentivos pr\u00f3prios e alguma margem de discricionariedade. Por isso, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o desenhadas com base apenas na confian\u00e7a nas qualidades pessoais de seus agentes.<\/p>\n<p>O Supremo precisa de independ\u00eancia para exercer sua fun\u00e7\u00e3o constitucional. O Senado, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 uma inst\u00e2ncia revisora das decis\u00f5es judiciais e n\u00e3o pode controlar o conte\u00fado jurisdicional das decis\u00f5es conforme conveni\u00eancias pol\u00edticas circunstanciais. Mas disso n\u00e3o decorre que os mecanismos constitucionais de fiscaliza\u00e7\u00e3o e responsabiliza\u00e7\u00e3o devam permanecer inoperantes. Talvez, portanto, parte daquilo que estamos chamando de crise do Supremo seja mais bem compreendida como uma crise de ag\u00eancia.<\/p>\n<p>E isso recoloca no debate uma institui\u00e7\u00e3o sobre a qual curiosamente se fala pouco: o Senado. A Constitui\u00e7\u00e3o lhe atribuiu compet\u00eancias espec\u00edficas de controle em rela\u00e7\u00e3o aos ministros do Supremo. Entretanto, a capacidade de exerc\u00edcio dessas compet\u00eancias depende tamb\u00e9m de regras internas de funcionamento. O pr\u00f3prio Regimento do Senado confere ao presidente da Casa poder significativo sobre a forma\u00e7\u00e3o da pauta e a Ordem do Dia.<\/p>\n<p>Da perspectiva da teoria da ag\u00eancia, portanto, tamb\u00e9m se pode perguntar se \u00e9 adequado concentrar em um \u00fanico ator tamanho poder de agenda sobre mecanismos institucionais de controle. Uma eventual reforma poderia discutir, por exemplo, formas de reduzir essa concentra\u00e7\u00e3o, criar crit\u00e9rios objetivos para aprecia\u00e7\u00e3o de determinadas mat\u00e9rias ou permitir que uma parcela qualificada dos senadores provoque sua delibera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata aqui de defender uma f\u00f3rmula espec\u00edfica, mas de reconhecer que o desenho dos mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m produz incentivos e custos de ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o d\u00e1 relev\u00e2ncia particular \u00e0s elei\u00e7\u00f5es para o Senado. O debate eleitoral brasileiro costuma se concentrar quase integralmente no Executivo, embora a Constitui\u00e7\u00e3o tenha atribu\u00eddo ao Senado fun\u00e7\u00f5es centrais no equil\u00edbrio entre os Poderes. A composi\u00e7\u00e3o da Casa importa n\u00e3o apenas para a produ\u00e7\u00e3o legislativa, mas para o funcionamento dos controles constitucionais sobre outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Por isso, talvez a discuss\u00e3o p\u00fablica devesse prestar mais aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas a quem ocupar\u00e1 a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, mas tamb\u00e9m a quais senadores ser\u00e3o escolhidos e a como esses representantes compreendem o papel institucional da Casa.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 um problema de ag\u00eancia no exerc\u00edcio do poder, \u00e9 preciso olhar igualmente para os agentes encarregados de monitor\u00e1-lo. Esse talvez seja um dos debates institucionais mais relevantes das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais importantes da economia das organiza\u00e7\u00f5es foi demonstrar que n\u00e3o basta perguntar quais s\u00e3o as compet\u00eancias formalmente atribu\u00eddas a determinado agente. \u00c9 preciso perguntar tamb\u00e9m quem controla aquele que exerce essas compet\u00eancias. Michael Jensen e William Meckling formularam esse problema de maneira cl\u00e1ssica em 1976, ao desenvolverem a chamada teoria da ag\u00eancia. 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