{"id":26308,"date":"2026-09-21T19:00:29","date_gmt":"2026-09-21T22:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/21\/nicaragua-vai-ter-que-indenizar-americano-preso-e-deportado-ilegalmente\/"},"modified":"2026-09-21T19:00:29","modified_gmt":"2026-09-21T22:00:29","slug":"nicaragua-vai-ter-que-indenizar-americano-preso-e-deportado-ilegalmente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/21\/nicaragua-vai-ter-que-indenizar-americano-preso-e-deportado-ilegalmente\/","title":{"rendered":"Nicar\u00e1gua vai ter que indenizar americano preso e deportado ilegalmente"},"content":{"rendered":"<p><span>A Corte Interamericana de Direitos Humanos (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/corte-idh\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Corte IDH<\/a>) declarou a responsabilidade internacional da Nicar\u00e1gua pela deten\u00e7\u00e3o ilegal e arbitr\u00e1ria do americano Jason Zachary Puracal, pelos tratos cru\u00e9is, desumanos e degradantes sofridos durante o per\u00edodo em que ficou preso e por sua deporta\u00e7\u00e3o, considerada arbitr\u00e1ria pelo tribunal. A senten\u00e7a do caso <\/span><span>Puracal e outros vs. Nicar\u00e1gua<\/span><span> foi adotada em abril deste ano e notificada \u00e0s partes em agosto.<\/span><\/p>\n<p><span>Puracal, ex-volunt\u00e1rio do Corpo de Paz, se dedicava a neg\u00f3cios imobili\u00e1rios na cidade tur\u00edstica de San Juan del Sur, na Nicar\u00e1gua, quando passou a ser alvo de uma investiga\u00e7\u00e3o por tr\u00e1fico de drogas. No dia 11 de novembro de 2010, agentes da pol\u00edcia com o rosto coberto invadiram \u00e0 noite seu escrit\u00f3rio e sua casa, sem mandado judicial v\u00e1lido, na presen\u00e7a de seu filho, ent\u00e3o com tr\u00eas anos. Bens foram apreendidos e nunca devolvidos.<\/span><\/p>\n<p><span>A partir da pris\u00e3o, Puracal foi levado sucessivamente \u00e0 delegacia de San Juan del Sur, \u00e0 cadeia de Rivas e \u00e0s pris\u00f5es conhecidas como El Chipote e La Modelo, sem registros claros de seu paradeiro por v\u00e1rios dias. Uma norma do C\u00f3digo Processual Penal ent\u00e3o vigente impedia a substitui\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o preventiva por outra medida cautelar em casos relacionados a drogas e lavagem de dinheiro, o que manteve Puracal detido sem que um juiz avaliasse a necessidade da medida no caso concreto.<\/span><\/p>\n<p><span>Para Marina Rosa, especialista em Direito Internacional, esse tipo de previs\u00e3o \u00e9 \u201cincompat\u00edvel com uma jurisprud\u00eancia bastante consolidada da Corte Interamericana sobre a excepcionalidade da pris\u00e3o cautelar\u201d, j\u00e1 que a pris\u00e3o preventiva \u201cn\u00e3o pode funcionar como antecipa\u00e7\u00e3o da pena\u201d e precisa estar fundamentada nas circunst\u00e2ncias espec\u00edficas de cada caso. Segundo ela, a Corte j\u00e1 havia enfrentado o problema em outros dois julgamentos contra o M\u00e9xico, <\/span><span>Tzompaxtle Tecpile e outros<\/span><span> (2022) e <\/span><span>Garc\u00eda Rodr\u00edguez e outro<\/span><span> (2023), e Puracal \u201cpode ser compreendido como mais um passo na consolida\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o interamericano contr\u00e1rio a regimes de pris\u00e3o preventiva que operem de forma autom\u00e1tica\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>Puracal chegou a ser condenado, mas passou mais de 21 meses preso em condi\u00e7\u00f5es de superlota\u00e7\u00e3o, com acesso limitado \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e sem atendimento m\u00e9dico adequado, enquanto o processo se arrastava em meio a sucessivos atrasos e falhas no devido processo. S\u00f3 em setembro de 2012 um tribunal de apela\u00e7\u00f5es anulou o processo e determinou sua soltura.<\/span><\/p>\n<p><span>Ao sair da pris\u00e3o, Puracal foi deportado para os Estados Unidos, sem que a Corte reconhecesse base legal para a medida. Para o advogado Daniel Maranh\u00e3o, mestre em direito com pesquisa em Justi\u00e7a e Direitos Humanos na Am\u00e9rica Latina, \u201cuma deporta\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria ocorre quando um cidad\u00e3o \u00e9 for\u00e7osamente expulso de um determinado pa\u00eds sob alega\u00e7\u00f5es que n\u00e3o possuem base jur\u00eddica fundamentada ou n\u00e3o seguem o devido rito processual\u201d. Segundo ele, \u201ca v\u00edtima foi extraditada para os Estados Unidos sem a realiza\u00e7\u00e3o do devido processo, sem fundamentos cab\u00edveis, o que violou princ\u00edpios b\u00e1sicos do Estado Democr\u00e1tico de Direito e direitos garantidos pela Conven\u00e7\u00e3o Americana sobre Direitos Humanos\u201d. Entre as repara\u00e7\u00f5es, a Corte determinou que a Nicar\u00e1gua anule a ordem de deporta\u00e7\u00e3o e regularize a situa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria de Puracal em at\u00e9 um ano.<\/span><\/p>\n<p><span>A Corte IDH concluiu tamb\u00e9m que a pris\u00e3o foi ilegal e arbitr\u00e1ria desde o in\u00edcio, e que o Estado nicaraguense desrespeitou o direito de Puracal \u00e0 assist\u00eancia consular. Os ju\u00edzes entenderam ainda que a forma como a pris\u00e3o foi conduzida, incluindo a exibi\u00e7\u00e3o dele pelas ruas de San Juan del Sur dentro de uma viatura policial, violou sua honra e a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span>Maranh\u00e3o lembra que esse tipo de exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 comum nas senten\u00e7as da Corte, mas j\u00e1 apareceu em casos ligados ao Peru durante a ditadura de Alberto Fujimori, como <\/span><span>Loayza Tamayo vs. Per\u00fa<\/span><span> e <\/span><span>Cantoral Benavides vs. Per\u00fa<\/span><span>. \u201cS\u00e3o fatos presentes, em verdade, nos regimes de exce\u00e7\u00e3o, onde a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de supostos criminosos ocorre como demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a estatal e de propaganda para a popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. J\u00e1 as condi\u00e7\u00f5es em que Puracal ficou detido, marcadas pela falta de atendimento m\u00e9dico e de acesso \u00e0 \u00e1gua e ao saneamento, foram classificadas pela Corte como tratos cru\u00e9is, desumanos e degradantes.<\/span><\/p>\n<p><span>O tribunal deu aten\u00e7\u00e3o especial aos efeitos da invas\u00e3o noturna e da pris\u00e3o sobre o filho de Puracal, que segundo Marina Rosa tem s\u00edndrome de Down. Para ela, o ponto mais relevante da senten\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a durante a opera\u00e7\u00e3o policial em si, mas as consequ\u00eancias que a deten\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria do pai produziu sobre ela e sobre a unidade familiar. \u201cO filho de Puracal tinha apenas tr\u00eas anos quando o pai foi detido e ficou privado de sua presen\u00e7a por mais de 21 meses. Posteriormente, a deporta\u00e7\u00e3o de Puracal tamb\u00e9m produziu consequ\u00eancias sobre a unidade familiar\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p><span>A Corte reconheceu ainda que a pris\u00e3o, o julgamento e a deporta\u00e7\u00e3o afetaram a esposa de Puracal, Scarlette Flores, e os dois filhos do casal (o mais velho identificado apenas pelas iniciais J.P.F., por ser menor de idade), al\u00e9m das irm\u00e3s e da m\u00e3e de Puracal, que se envolveram ativamente em sua defesa enquanto ele estava preso. Para Maranh\u00e3o, essa extens\u00e3o da responsabilidade aos familiares \u00e9 \u201cum avan\u00e7o na prote\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas e na prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, porque muitas vezes as fam\u00edlias s\u00e3o diretamente afetadas pelas viola\u00e7\u00f5es decorrentes, todavia ficam exclu\u00eddas dos processos de repara\u00e7\u00e3o\u201d. O tribunal considerou tamb\u00e9m que o caso comprometeu o projeto de vida de Puracal, da esposa, do filho mais velho e da irm\u00e3 Janis Puracal.<\/span><\/p>\n<p><span>Entre as medidas de repara\u00e7\u00e3o, a Corte determinou que a Nicar\u00e1gua deixe sem efeito qualquer consequ\u00eancia do processo penal movido contra Puracal, promova um ato p\u00fablico de reconhecimento de responsabilidade e adapte sua legisla\u00e7\u00e3o sobre pris\u00e3o preventiva autom\u00e1tica para que passe a respeitar a Conven\u00e7\u00e3o Americana. O pa\u00eds tamb\u00e9m dever\u00e1 adotar medidas para que as condi\u00e7\u00f5es das pris\u00f5es La Modelo e El Chipote sigam padr\u00f5es internacionais de direitos humanos, criar um mecanismo independente para fiscalizar essas unidades, treinar os funcion\u00e1rios do sistema penitenci\u00e1rio e pagar indeniza\u00e7\u00f5es por danos materiais e imateriais \u00e0s v\u00edtimas.<\/span><\/p>\n<p><span>Maranh\u00e3o avalia que esse tipo de mecanismo de fiscaliza\u00e7\u00e3o \u201cobriga o Estado a ter um mecanismo aut\u00f4nomo que possa investigar e verificar as condi\u00e7\u00f5es dos estabelecimentos penais de forma cont\u00ednua e n\u00e3o apenas pontual\u201d, e cita como refer\u00eancia o Sistema Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Combate \u00e0 Tortura, criado no Brasil pela Lei n\u00ba 12.847, de 2013.<\/span><\/p>\n<p><span>Marina Rosa, por\u00e9m, pede cautela quanto ao efeito pr\u00e1tico dessas determina\u00e7\u00f5es no caso espec\u00edfico da Nicar\u00e1gua. Segundo ela, \u201co Estado sequer compareceu ao processo Puracal: n\u00e3o designou agentes, n\u00e3o apresentou contesta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o participou da audi\u00eancia perante a Corte\u201d. A pr\u00f3pria senten\u00e7a registra que a \u00faltima vez que o pa\u00eds compareceu perante o tribunal foi em 2020, e que a Corte j\u00e1 acionou o mecanismo do artigo 65 da Conven\u00e7\u00e3o Americana diante do descumprimento reiterado de suas decis\u00f5es pela Nicar\u00e1gua.<\/span><\/p>\n<p><span>\u201cAs determina\u00e7\u00f5es de Puracal s\u00e3o juridicamente vinculantes e permanecem relevantes, inclusive como par\u00e2metros para outros Estados da regi\u00e3o. Mas, no contexto nicaraguense atual, existe uma dist\u00e2ncia significativa entre aquilo que a senten\u00e7a determina e a perspectiva concreta de implementa\u00e7\u00e3o dessas medidas\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<h2>Onde os ju\u00edzes discordaram<\/h2>\n<p><span>A senten\u00e7a foi proferida pelos ju\u00edzes Rodrigo Mudrovitsch (presidente), Patricia P\u00e9rez Goldberg (vice-presidenta), Ricardo P\u00e9rez Manrique, Nancy Hern\u00e1ndez L\u00f3pez, Ver\u00f3nica G\u00f3mez, Alberto Borea Odr\u00eda e Diego Moreno Rodr\u00edguez. A maior parte da decis\u00e3o foi un\u00e2nime, mas dois pontos dividiram o colegiado.<\/span><\/p>\n<p><span>Por cinco votos a dois, a Corte condenou a Nicar\u00e1gua por viola\u00e7\u00e3o ao direito \u00e0 sa\u00fade e ao direito \u00e0 \u00e1gua e ao saneamento, enquadrando as duas viola\u00e7\u00f5es no artigo 26 da Conven\u00e7\u00e3o Americana, que trata de direitos econ\u00f4micos, sociais e culturais. P\u00e9rez Goldberg e Borea Odr\u00eda ficaram vencidos.<\/span><\/p>\n<p><span>Segundo Marina Rosa, a diverg\u00eancia remonta ao caso <\/span><span>Lagos del Campo vs. Peru<\/span><span>, de 2017, quando a Corte passou a admitir a justiciabilidade direta desses direitos com base no artigo 26, extraindo-os das normas econ\u00f4micas, sociais e educacionais da Carta da OEA. \u201cO artigo 26 n\u00e3o traz um cat\u00e1logo de direitos\u201d, explica, e existe ainda um tratado espec\u00edfico sobre o tema, o Protocolo de San Salvador, cujo artigo 19.6 definiu expressamente quais direitos poderiam ser objeto do sistema de peti\u00e7\u00f5es individuais.<\/span><\/p>\n<p><span>Ela observa que P\u00e9rez Goldberg chegou a defender que os fatos do caso poderiam ser protegidos pelo artigo 5 da Conven\u00e7\u00e3o, que trata da integridade pessoal, sem necessidade de recorrer ao artigo 26. \u201cA quest\u00e3o \u00e9 qual obriga\u00e7\u00e3o est\u00e1 contida no artigo 26: se ele \u00e9 essencialmente uma cl\u00e1usula de desenvolvimento progressivo e n\u00e3o regressividade ou se tamb\u00e9m constitui uma fonte direta de direitos aut\u00f4nomos justici\u00e1veis perante a Corte\u201d, resume.<\/span><\/p>\n<p><span>A vota\u00e7\u00e3o ficou ainda mais apertada em outro ponto: por quatro votos a tr\u00eas, a Corte responsabilizou a Nicar\u00e1gua tamb\u00e9m pela viola\u00e7\u00e3o ao direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e aos direitos da crian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao filho mais velho de Puracal. P\u00e9rez Goldberg, Hern\u00e1ndez L\u00f3pez e Borea Odr\u00eda discordaram, mas a senten\u00e7a n\u00e3o detalha as raz\u00f5es de cada diverg\u00eancia nesse ponto espec\u00edfico.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) declarou a responsabilidade internacional da Nicar\u00e1gua pela deten\u00e7\u00e3o ilegal e arbitr\u00e1ria do americano Jason Zachary Puracal, pelos tratos cru\u00e9is, desumanos e degradantes sofridos durante o per\u00edodo em que ficou preso e por sua deporta\u00e7\u00e3o, considerada arbitr\u00e1ria pelo tribunal. 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