{"id":26304,"date":"2026-09-21T17:01:50","date_gmt":"2026-09-21T20:01:50","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/21\/pt-deixa-deserto-a-esquerda-e-fortalece-a-direita-em-2026\/"},"modified":"2026-09-21T17:01:50","modified_gmt":"2026-09-21T20:01:50","slug":"pt-deixa-deserto-a-esquerda-e-fortalece-a-direita-em-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/21\/pt-deixa-deserto-a-esquerda-e-fortalece-a-direita-em-2026\/","title":{"rendered":"PT deixa deserto \u00e0 esquerda e fortalece a direita em 2026"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma frase que circulou recentemente numa conversa entre amigos sobre a elei\u00e7\u00e3o presidencial: \u201cLula n\u00e3o tem quem desidratar em um eventual segundo turno\u201d. Parece uma observa\u00e7\u00e3o banal sobre pesquisas eleitorais. Na verdade, resume um problema que a esquerda brasileira levou mais de uma d\u00e9cada para construir.<\/p>\n<p>A pouco menos de duas semanas da elei\u00e7\u00e3o, o presidente <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/lula\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a> (PT) aparece praticamente empatado com <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/flavio-bolsonaro\">Fl\u00e1vio Bolsonaro<\/a>, uma tend\u00eancia que tem se repetido h\u00e1 algum tempo. Enquanto isso, <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/augusto-cury\">Augusto Cury<\/a> (Avante), <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ronaldo-caiado\">Ronaldo Caiado<\/a> (PSD), <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/renan-santos\">Renan Santos<\/a> (Miss\u00e3o) e <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/romeu-zema\">Romeu Zema<\/a> (Novo) dividem cerca de 15% do eleitorado. A direita tem, portanto, candidatos demais. A esquerda, um s\u00f3, a n\u00e3o ser que contemos com os tra\u00e7os de UP, PSTU, PCO e PCB que, juntos, mal chegam a 1-2% do eleitorado.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/24-03-2026-rdstation-lp-jota-pro-eleicoes-conversao-mql-marketing?utm_source=direct&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=aon-materias-eleicoes-lead-marketing\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Elei\u00e7\u00f5es, cobertura eleitoral especial do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Isso parece, \u00e0 primeira vista, uma vantagem para Lula, mas na verdade \u00e9 um (grande) problema. H\u00e1 votos \u00e0 direita espalhados entre v\u00e1rias candidaturas que podem mudar de destino durante a reta final, ao passo que no campo progressista, praticamente todo o voto \u00fatil dispon\u00edvel j\u00e1 foi capturado. Lula n\u00e3o tem quem desidratar.<\/p>\n<p>E esse deserto n\u00e3o surgiu em 2026. Longe disso. Durante d\u00e9cadas, o PT foi n\u00e3o apenas o maior partido da esquerda brasileira, mas tamb\u00e9m seu principal polo gravitacional. A capacidade de Lula para construir alian\u00e7as, incorporar movimentos sociais e transformar advers\u00e1rios em aliados foi uma das raz\u00f5es fundamentais de seu sucesso pol\u00edtico. Mas isso tamb\u00e9m produziu consequ\u00eancias menos celebradas: enfraqueceu progressivamente a possibilidade de uma esquerda independente do lulismo.<\/p>\n<p>O processo j\u00e1 se desenhava ainda no per\u00edodo do primeiro governo Lula (2003-2006): lideran\u00e7as sindicais e de movimentos sociais passaram a ocupar espa\u00e7os no Estado; estruturas participativas aproximaram organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil do governo; centrais sindicais e movimentos historicamente aut\u00f4nomos passaram a ter uma rela\u00e7\u00e3o muito mais org\u00e2nica com o poder. H\u00e1 uma literatura que descreve esse fen\u00f4meno explicitamente em termos de coopta\u00e7\u00e3o, institucionaliza\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o da autonomia dos movimentos sociais.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que todos tenham sido comprados, silenciados ou deixado de criticar o governo, mas sim algo politicamente mais importante: o PT tornou-se o lugar pelo qual grande parte da esquerda precisava passar para ter acesso ao poder. Ainda que tenha havido desaven\u00e7as no campo progressista \u2014 o surgimento do PSOL como dissid\u00eancia do PT \u00e9 o maior exemplo disso \u2014, a tend\u00eancia de coopta\u00e7\u00e3o prevaleceu.<\/p>\n<p>Anos depois, os protestos de junho de 2013 deveriam ter funcionado como alerta para a esquerda como um todo. As primeiras manifesta\u00e7\u00f5es daquele ciclo tinham origem claramente progressista e, em boa medida, estavam \u00e0 esquerda do pr\u00f3prio PT, que seguia liderando o governo federal. A literatura acad\u00eamica sobre junho registra justamente essa origem antes de as ruas passarem a abrigar tamb\u00e9m grupos liberais e conservadores. O que explodiu ali n\u00e3o foi apenas uma revolta contra 20 centavos, mas tamb\u00e9m uma crise de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O PT, que em 2013 estava havia uma d\u00e9cada \u00e0 frente do governo federal, j\u00e1 n\u00e3o conseguia monopolizar a linguagem da transforma\u00e7\u00e3o social. Uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o havia vivido a funda\u00e7\u00e3o do partido, as greves do ABC ou a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura simplesmente n\u00e3o reconhecia automaticamente o partido como representante de sua insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que aconteceu depois, por\u00e9m, n\u00e3o foi a constru\u00e7\u00e3o de uma esquerda alternativa forte. Viu-se um <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/574640-a-crise-da-intelectualidade-brasileira-a-interdicao-do-debate-e-a-imposicao-de-padroes-de-comportamento-e-pensamento-entrevista-especial-com-raphael-tsavkko-garcia\">processo insistente de coopta\u00e7\u00e3o e de esmagamento<\/a> daqueles que se recusavam a se submeter. E ent\u00e3o veio a tempestade perfeita: <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/lava-jato\">Lava Jato<\/a>, o impeachment de Dilma Rousseff, Michel Temer, a pris\u00e3o de Lula e a elei\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/jair-bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a> para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A defesa da democracia e o combate \u00e0 extrema direita criaram raz\u00f5es perfeitamente compreens\u00edveis para reunir novamente quase toda a esquerda ao redor do PT. No entanto, o excepcional virou permanente. Qualquer tentativa de autonomia passou a enfrentar a mesma obje\u00e7\u00e3o: agora n\u00e3o \u00e9 a hora \u2013 e a hora nunca chega e nunca vai chegar.<\/p>\n<p>Voltemos ao caso do PSOL. Ele nasceu em 2004 justamente de uma ruptura pela esquerda com o PT e, em 2018, apresentou <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/guilherme-boulos\">Guilherme Boulos<\/a> \u00e0 Presid\u00eancia. Em 2022 decidiu apoiar Lula j\u00e1 no primeiro turno e, em 2026, repetiu a decis\u00e3o e novamente abriu m\u00e3o de candidatura pr\u00f3pria sob o argumento de ser necess\u00e1rio derrotar a extrema direita.<\/p>\n<p>S\u00e3o duas elei\u00e7\u00f5es presidenciais consecutivas sem candidato do partido que nasceu para construir uma alternativa ao PT. Nem sempre a uni\u00e3o faz a for\u00e7a: \u00e0s vezes apenas impede a multiplicidade de discursos e que novas ideias surjam e conquistem mentes.<\/p>\n<p>Boulos, ali\u00e1s, completa a ironia hist\u00f3rica: o militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que em outros tempos protestava contra governos petistas, tornou-se ministro da Secretaria-Geral de Lula e passou a trabalhar diretamente pela reelei\u00e7\u00e3o do presidente, tornando-se, assim, mais lulista do que um defensor dos interesses de seu pr\u00f3prio partido e do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Marcelo Freixo percorreu caminho semelhante por outra rota: deixou o PSOL, migrou para o PSB para disputar, sem sucesso, o Governo do Rio de Janeiro em 2022 sob uma l\u00f3gica de frente ampla, que contava at\u00e9 mesmo com nomes de centro-direita, como C\u00e9sar Maia. Freixo acabou no governo Lula, na presid\u00eancia da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/embratur\">Embratur<\/a>. Hoje no PT, \u00e9 uma sombra da lideran\u00e7a que um dia foi no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Mesmo dentro do PSOL h\u00e1 correntes que descrevem explicitamente esse movimento de Freixo e Boulos como abandono de um projeto pol\u00edtico independente. Pode-se discordar dessa interpreta\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 dif\u00edcil ignorar o resultado: onde est\u00e1 hoje a candidatura presidencial competitiva \u00e0 esquerda de Lula? Onde est\u00e1 a lideran\u00e7a nacional capaz de dizer que apoia pol\u00edticas do governo quando concorda, critica quando discorda e, sobretudo, pretende disputar seu eleitorado? N\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Chegamos ent\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de 2026. A direita pode sofrer um processo de voto \u00fatil j\u00e1 que os eleitores hoje distribu\u00eddos entre Cury, Caiado, Zema, Renan e outros podem se reorganizar a favor do candidato de extrema direita <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/flavio-bolsonaro\">Fl\u00e1vio Bolsonaro<\/a> (PL). N\u00e3o sabemos se isso acontecer\u00e1, nem para onde ir\u00e3o esses votos, mas sabemos que esse eleitorado existe e tende \u00e0 direita. Lula n\u00e3o pode lan\u00e7ar m\u00e3o de estrat\u00e9gia equivalente j\u00e1 que a hegemonia constru\u00edda pelo PT foi t\u00e3o bem-sucedida que eliminou quase toda competi\u00e7\u00e3o significativa dentro do seu pr\u00f3prio campo.<\/p>\n<p>Durante anos, o dom\u00ednio petista pareceu uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, mas agora revela sua outra face: Lula tornou-se praticamente insubstitu\u00edvel para a esquerda brasileira, o que talvez seja seu maior triunfo pol\u00edtico, mas \u00e9 tamb\u00e9m um dos maiores problemas que ele deixar\u00e1 para os progressistas quando finalmente se aposentar. As chances de isso acontecer j\u00e1 nesta elei\u00e7\u00e3o s\u00e3o, infelizmente, grandes.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma frase que circulou recentemente numa conversa entre amigos sobre a elei\u00e7\u00e3o presidencial: \u201cLula n\u00e3o tem quem desidratar em um eventual segundo turno\u201d. Parece uma observa\u00e7\u00e3o banal sobre pesquisas eleitorais. Na verdade, resume um problema que a esquerda brasileira levou mais de uma d\u00e9cada para construir. 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