{"id":26232,"date":"2026-09-18T06:03:42","date_gmt":"2026-09-18T09:03:42","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/18\/a-crise-do-stf-pela-lente-de-quem-cuida-de-reputacoes\/"},"modified":"2026-09-18T06:03:42","modified_gmt":"2026-09-18T09:03:42","slug":"a-crise-do-stf-pela-lente-de-quem-cuida-de-reputacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/18\/a-crise-do-stf-pela-lente-de-quem-cuida-de-reputacoes\/","title":{"rendered":"A crise do STF pela lente de quem cuida de reputa\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>No dia 6 de setembro, mais de uma semana antes de o julgamento sobre <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/alexandre-de-moraes\">Alexandre de Moraes<\/a> chegar ao plen\u00e1rio, o ministro <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/flavio-dino\">Fl\u00e1vio Dino<\/a> j\u00e1 sentia o cheiro de fuma\u00e7a. Foi ao seu perfil pessoal no Instagram, e n\u00e3o a uma nota oficial do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/stf\">STF<\/a> ou a um porta-voz da Corte, lembrar a frase atribu\u00edda a \u00c9squilo, \u201cna guerra, a primeira v\u00edtima \u00e9 a verdade\u201d, para alertar que problemas reais estavam sendo misturados a interesses eleitorais, econ\u00f4micos e \u201cat\u00e9 \u00f3dios pessoais\u201d. Terminou o post citando o Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o sobre quem \u00e9 \u201co pai da mentira\u201d.<\/p>\n<p>Passemos ao largo do m\u00e9rito jur\u00eddico, que cabe aos advogados e n\u00e3o a quem passou a carreira observando como institui\u00e7\u00f5es atravessam crises de credibilidade. O que me interessa aqui \u00e9 outra coisa: como a mais alta Corte do pa\u00eds est\u00e1 se comunicando durante a maior crise de sua hist\u00f3ria recente. E, sob a \u00f3tica de quem estuda gest\u00e3o de crise reputacional h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, a resposta \u00e9 preocupante.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Reputa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que imagem. Imagem \u00e9 o que se v\u00ea num instante: uma foto, uma frase, um gesto capturado por uma c\u00e2mera, um post bem escrito. Reputa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa, mais lenta e mais profunda. Funciona como uma mem\u00f3ria coletiva, formada aos poucos, revisada a cada nova crise e a cada nova decis\u00e3o. Uma opini\u00e3o pode mudar da noite para o dia; uma reputa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00e3o r\u00e1pido assim.<\/p>\n<p>Um tribunal supremo \u00e9, antes de qualquer outra coisa, uma institui\u00e7\u00e3o de poder. E para esse tipo de institui\u00e7\u00e3o, essa mem\u00f3ria coletiva n\u00e3o \u00e9 um verniz decorativo: \u00e9 a pr\u00f3pria subst\u00e2ncia da autoridade que ela exerce. Um tribunal n\u00e3o tem ex\u00e9rcito nem pol\u00edcia pr\u00f3pria, n\u00e3o tem como impor suas decis\u00f5es pela for\u00e7a bruta.<\/p>\n<p>O que faz com que uma senten\u00e7a do STF seja cumprida, mesmo por quem discorda profundamente dela, \u00e9 a cren\u00e7a de que aquela decis\u00e3o nasceu do direito e da imparcialidade, e n\u00e3o da conveni\u00eancia pessoal, pol\u00edtica ou econ\u00f4mica de quem a assinou. \u00c9 essa cren\u00e7a que sustenta o poder de julgar. Quando ela racha, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a legitimidade da pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o de julgar.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre um problema e uma crise est\u00e1 em dois testes simples. Existe crise quando aquilo que sustenta a raz\u00e3o de existir de uma institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob amea\u00e7a real, e quando ela perde o controle sobre a pr\u00f3pria narrativa. No caso do Supremo, o que sustenta sua raz\u00e3o de existir \u00e9 exatamente essa cren\u00e7a coletiva na imparcialidade, e \u00e9 exatamente essa cren\u00e7a que est\u00e1 sendo posta \u00e0 prova, publicamente, ministro contra ministro, nas redes sociais. Pelos dois crit\u00e9rios, o STF est\u00e1, hoje, em crise.<\/p>\n<p>Toda crise s\u00e9ria, em qualquer tipo de institui\u00e7\u00e3o, costuma se decidir em um punhado de perguntas simples. Existe um comando \u00fanico? Existe uma linha do tempo clara para as respostas? Existe algu\u00e9m preparado para falar em nome do todo? O Supremo falha visivelmente na primeira dessas perguntas. Produzem falas distintas, e nenhuma delas pela institui\u00e7\u00e3o como um todo.<\/p>\n<p>Isso talvez seja o ponto mais grave do ponto de vista reputacional. Cada ministro produz sua pr\u00f3pria vers\u00e3o dos fatos, em seu pr\u00f3prio canal, para sua pr\u00f3pria audi\u00eancia. Um post no Instagram, por mais bem escrito e sincero que seja (e o do ministro Dino \u00e9 as duas coisas), n\u00e3o substitui uma narrativa institucional coordenada. \u00c9 a voz de um homem, n\u00e3o a voz da Corte.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a quest\u00e3o do timing. Na sess\u00e3o de ter\u00e7a-feira, o julgamento avan\u00e7ou por horas e terminou sem decis\u00e3o, interrompido por um pedido de vista.<\/p>\n<p>Esse tipo de suspens\u00e3o \u00e9, para quem lida com crises de credibilidade, um dos piores cen\u00e1rios poss\u00edveis. Mant\u00e9m o assunto em aberto por mais duas semanas, sem fechamento, alimentando especula\u00e7\u00e3o e teorias. \u00c9 exatamente o oposto do que a boa pr\u00e1tica recomenda: uma primeira resposta r\u00e1pida, ainda que provis\u00f3ria, para que a opini\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o passe a comandar a narrativa no lugar de quem deveria faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 justo reconhecer, no entanto, algo que nenhuma leitura apressada capta. Um tribunal n\u00e3o \u00e9, e talvez n\u00e3o devesse ser, uma institui\u00e7\u00e3o de comando \u00fanico. A independ\u00eancia de cada ministro para se manifestar publicamente \u00e9, em tese, uma garantia constitucional, n\u00e3o um defeito de comunica\u00e7\u00e3o a ser corrigido. E a lentid\u00e3o do rito processual, que tanto incomoda quem observa de fora, \u00e9 tamb\u00e9m, em parte, o pre\u00e7o de decis\u00f5es graves que n\u00e3o deveriam ser tomadas no calor do notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que parece falta de comando pode ser, na verdade, o funcionamento correto de uma institui\u00e7\u00e3o colegiada deliberando sob os olhos de todos, ainda que, aos olhos de quem cuida de reputa\u00e7\u00f5es, o custo dessa delibera\u00e7\u00e3o p\u00fablica e fragmentada seja, de fato, alto.<\/p>\n<p>Fica, de todo modo, uma li\u00e7\u00e3o que atravessa qualquer institui\u00e7\u00e3o que dependa da confian\u00e7a p\u00fablica para exercer sua autoridade. Quando v\u00e1rias vozes tentam comandar uma crise ao mesmo tempo, quem perde n\u00e3o \u00e9 nenhum dos envolvidos individualmente. \u00c9 a reputa\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o como um todo.<\/p>\n<p>Antes de discutir quem tem raz\u00e3o, talvez valesse a pena ao Supremo se perguntar: afinal, quem est\u00e1 contando a nossa hist\u00f3ria?<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 6 de setembro, mais de uma semana antes de o julgamento sobre Alexandre de Moraes chegar ao plen\u00e1rio, o ministro Fl\u00e1vio Dino j\u00e1 sentia o cheiro de fuma\u00e7a. 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