{"id":25885,"date":"2026-09-07T06:00:38","date_gmt":"2026-09-07T09:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/07\/por-que-o-esg-nao-vai-morrer\/"},"modified":"2026-09-07T06:00:38","modified_gmt":"2026-09-07T09:00:38","slug":"por-que-o-esg-nao-vai-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/07\/por-que-o-esg-nao-vai-morrer\/","title":{"rendered":"Por que o ESG n\u00e3o vai morrer"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 decretaram v\u00e1rias vezes a morte do ESG (boas pr\u00e1ticas ambientais, sociais e de governan\u00e7a), mas o interesse continua aceso e vem se expandindo por meio de normatiza\u00e7\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es. As informa\u00e7\u00f5es sobre sustentabilidade continuam a ser um dos temas principais na agenda mundial corporativa, embora as empresas enfrentem uma esp\u00e9cie de \u201cmontanha russa regulat\u00f3ria\u201d sobre informa\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 sustentabilidade.\u00b9<\/p>\n<p>Este ditado popular emprega o sobe e desce do brinquedo disputado dos parques de divers\u00f5es, sendo que subir a montanha \u00e9 uma forma de avan\u00e7ar e descer, equivale a decair, numa oscila\u00e7\u00e3o da normatiza\u00e7\u00e3o. Guimar\u00e3es Rosa, no conto \u201cA Terceira Margem do Rio\u201d\u00b2, nega essa verticalidade. N\u00e3o h\u00e1 subida, nem descida para o escritor \u2014 h\u00e1 uma corrente que segue, indiferente.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>No conto, o pai constr\u00f3i uma canoa, rema e fica l\u00e1 no meio do rio, recusando tanto a margem de onde veio quanto a que teria diante de si. \u00c9 o ir e vir levado ao paradoxo m\u00e1ximo: um movimento que n\u00e3o vai a lugar nenhum, porque j\u00e1 chegou ao \u00fanico lugar que importava \u2014 o pr\u00f3prio entremeio \u2013 a terceira margem, que pode sempre ser recriada.<\/p>\n<p>Podemos entender que o ESG est\u00e1 nesse novo ponto, de rompimento com a l\u00f3gica bin\u00e1ria e cria\u00e7\u00e3o de um caminho novo. Atualmente, seria dif\u00edcil para uma empresa ignorar a economia de energia e \u00e1gua, suas emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa, diversidade e inclus\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho, rela\u00e7\u00f5es com seus stakeholders, os direitos humanos, governan\u00e7a \u00e9tica, data protection, conselho administrativo diverso, entre outros indicativos.<\/p>\n<p>Nesse novo ponto, os relat\u00f3rios ESG, obrigat\u00f3rios ou volunt\u00e1rios, s\u00e3o importantes. Tornou-se imposs\u00edvel ignorar as preocupa\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, por exemplo. Durante quase uma d\u00e9cada, a sustentabilidade corporativa foi tratada nos discursos p\u00fablicos e nos relat\u00f3rios institucionais como uma esp\u00e9cie de inten\u00e7\u00e3o moral das empresas. Tinha um tom de idealiza\u00e7\u00e3o. Falava-se em prop\u00f3sito, em legado, em transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Essa fase, que podemos chamar de \u201cromantizada\u201d cumpriu um papel hist\u00f3rico importante: ajudou a colocar o tema na agenda de conselhos de administra\u00e7\u00e3o que, at\u00e9 ent\u00e3o, o ignoravam.<\/p>\n<p>Contudo, essa fase est\u00e1 terminando e o que pode substitu\u00ed-la \u00e9 uma exig\u00eancia muito mais efetiva e muito mais \u00fatil, a exig\u00eancia de comparabilidade. O sintoma mais claro desse fim de ciclo \u00e9 regulat\u00f3rio. Por isso, a decis\u00e3o da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios (CVM), de suspender a obrigatoriedade de divulga\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios ESG para as empresas brasileiras listadas em Bolsa este ano, segundo os padr\u00f5es internacionais IFRS S1 e S2, causou tanta perplexidade, mas n\u00e3o deve ser lida como um recuo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Na\u00a0verdade, exp\u00f5e o cen\u00e1rio da sustentabilidade corporativa, pouco detalhado em dados, muitas vezes, sem padroniza\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel entre empresas, setores e pa\u00edses. Quando a obrigatoriedade cai, reduz a press\u00e3o para manter minimamente estruturado um conjunto de indicadores que existe para ser mensurado, n\u00e3o apenas para ser publicizado.<\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios obrigat\u00f3rios geralmente possuem uma diretriz de divulga\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es ESG, contornando o risco do greenwashing. Podem ser analisados com base em diferentes teorias, como dos Stakeholders, que envolve as partes interessadas, ajudando a melhorar o desempenho; a teoria da legitimidade, pela qual as organiza\u00e7\u00f5es em bom n\u00edvel de transpar\u00eancia conseguem legitimar suas opera\u00e7\u00f5es ou a teoria institucional, que busca responder a press\u00f5es institucionais da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recursos destinados \u00e0 agenda ESG ainda avan\u00e7am dentro e fora do Brasil. Uma prova disto est\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o do Fundo Retomada RS, que coloca ao alcance de empreendedores ga\u00fachos R$ 30 milh\u00f5es\u00a0 de recursos para enfrentarem eventos clim\u00e1ticos extremos, criando projetos de adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o. Com recursos vindos de capital filantr\u00f3pico e privado, as companhias do Rio Grande do Sul se preparam para n\u00e3o terem de enfrentar a mesma realidade vivida nas enchentes devastadoras de 2024. \u00b3<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, setores tradicionais relatam dificuldades reais em expor suas atividades ESG; enquanto setores regulados ou expostos a cadeias internacionais, como o financeiro, o energ\u00e9tico, o agroneg\u00f3cio exportador e a tecnologia, continuam avan\u00e7ando em sustentabilidade. Essa diverg\u00eancia setorial \u00e9, em si, a prova mais contundente de que a sustentabilidade nunca formou um bloco \u00fanico e coerente. Est\u00e1 mais sintonizada com um mosaico de pr\u00e1ticas distintas, que formam realidades diferentes.<\/p>\n<p>Uma empresa que reduz investimentos\u00a0ESG n\u00e3o est\u00e1, necessariamente, abandonando a responsabilidade socioambiental, est\u00e1 simplesmente analisando se determinada m\u00e9trica\u00a0\u00e9 motivo suficiente para justificar um gasto cont\u00ednuo. O problema nunca foi o recuo em si, mas o fato de que, durante anos, avan\u00e7os e recuos conviveram sob o mesmo r\u00f3tulo, sem que houvesse instrumentos capazes de distinguir um do outro com precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Tratar dados ESG para revelar uma realidade compar\u00e1vel significa, antes de tudo, abandonar a ideia de que sustentabilidade \u00e9 uma nota \u00fanica, um selo, um \u00edndice consolidado que resume tudo. Contudo, o ESG s\u00f3 se torna analiticamente \u00fatil quando decomposto por setor, por porte de empresa, por exposi\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria e por exposi\u00e7\u00e3o a mercados internacionais, porque \u00e9 exatamente nesses recortes que aparecem as diferen\u00e7as\u00a0 e\u00a0 a realidade se configura.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o temporal que o ESG tem de enfrentar. N\u00e3o basta saber se uma empresa divulga relat\u00f3rio ESG com base em dados fi\u00e9is, \u00e9 preciso saber se ela divulgava h\u00e1 quanto tempo e com que metodologia. S\u00e9ries hist\u00f3ricas curtas, indicadores que mudam de defini\u00e7\u00e3o a cada ciclo e a aus\u00eancia de auditoria externa s\u00e3o exatamente os elementos que permitiram, por tanto tempo, que a narrativa avan\u00e7asse mais r\u00e1pido do que a pr\u00e1tica. Dados compar\u00e1veis de verdade s\u00e3o aqueles que resistem \u00e0 mudan\u00e7a de humor regulat\u00f3rio e \u00e0 altera\u00e7\u00e3o de conjunturas econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>O caminho adiante poss\u00edvel ao ESG \u00e9 de convers\u00e3o \u00e0 disciplina anal\u00edtica. Isso significa m\u00e9tricas padronizadas entre setores, obrigatoriedade de s\u00e9rie hist\u00f3rica, auditoria independente e, sobretudo, disposi\u00e7\u00e3o para admitir que nem todo recuo \u00e9 fracasso e nem todo avan\u00e7o \u00e9 m\u00e9rito. \u00a0O Brasil vive hoje aquilo que j\u00e1 foi descrito em \u201cA Terceira Margem do Rio\u201d: o entremeio.<\/p>\n<p>O desafio n\u00e3o \u00e9 convencer o mercado de que a sustentabilidade importa, isso j\u00e1 foi feito, o desafio \u00e9 olhar para uma nova margem, como escrito pelo Guimar\u00e3es Rosa, uma vez que um dos \u00e1pices da experi\u00eancia humana n\u00e3o \u00e9 escolher entre dois lados, mas criar um terceiro que s\u00f3 existe para quem sabe ver mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>[1] https:\/\/www.investordaily.com.au\/esg-reporting-faces-pullback-but-investor-demand-persists\/<\/p>\n<p>[2] ROSA, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es. <strong>Primeiras Est\u00f3rias.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Global Editora, 2019<\/p>\n<p>[3] https:\/\/valor.globo.com\/brasil\/esg\/noticia\/2026\/08\/27\/apos-enchentes-fundo-gaucho-direciona-r-30-milhoes-para-prevencao-de-novos-eventos-climaticos.ghtml<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 decretaram v\u00e1rias vezes a morte do ESG (boas pr\u00e1ticas ambientais, sociais e de governan\u00e7a), mas o interesse continua aceso e vem se expandindo por meio de normatiza\u00e7\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es. 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