{"id":25744,"date":"2026-09-02T10:01:28","date_gmt":"2026-09-02T13:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/02\/o-preco-politico-de-regionalizar-a-saude\/"},"modified":"2026-09-02T10:01:28","modified_gmt":"2026-09-02T13:01:28","slug":"o-preco-politico-de-regionalizar-a-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/02\/o-preco-politico-de-regionalizar-a-saude\/","title":{"rendered":"O pre\u00e7o pol\u00edtico de regionalizar a sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p>Em maio, quatro comit\u00eas estaduais de sa\u00fade passaram dois dias em um <a href=\"https:\/\/ieps.org.br\/jornada-encerra-primeira-etapa-com-planos-de-acao-estaduais-definidos\/\">programa imersivo<\/a> de forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as dedicado \u00e0 regionaliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Diante de um problema simulado, precisaram decidir qual munic\u00edpio receberia um hospital regional, com or\u00e7amento limitado e atores pol\u00edticos disputando a escolha. O exerc\u00edcio era fict\u00edcio, mas reproduzia, em ess\u00eancia, o tipo de decis\u00e3o que esses gestores precisam tomar na vida real, com o pr\u00f3prio nome vinculado ao resultado.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/24-03-2026-rdstation-lp-jota-pro-eleicoes-conversao-mql-marketing?utm_source=direct&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=aon-materias-eleicoes-lead-marketing\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Elei\u00e7\u00f5es, cobertura eleitoral especial do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Nenhum deles precisava aprender o que fazer. A maior parte j\u00e1 sabia. O que faltava era mais dif\u00edcil de nomear em um relat\u00f3rio de gest\u00e3o: a disposi\u00e7\u00e3o de assumir, com poucos aliados formais, o desgaste de reorganizar redes de sa\u00fade que atravessam fronteiras municipais, envolvem realidades populacionais diferentes, dependem de prefeitos com concep\u00e7\u00f5es e agendas pol\u00edticas distintas e esbarram em mandatos estaduais e municipais que n\u00e3o coincidem no tempo.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a lacuna da regionaliza\u00e7\u00e3o no Brasil. O desafio t\u00e9cnico j\u00e1 \u00e9 consider\u00e1vel, mas mesmo quando resolvido n\u00e3o \u00e9 suficiente. O que decide se um plano vira mudan\u00e7a concreta \u00e9 a camada pol\u00edtica, e o sistema nunca criou mecanismos consistentes para distribuir esse risco entre mais atores.<\/p>\n<h2>Uma lacuna persistente<\/h2>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 redesenhou o pacto federativo ao descentralizar recursos e responsabilidades para estados e munic\u00edpios. A mudan\u00e7a fortaleceu os governos subnacionais, mas n\u00e3o veio acompanhada, na mesma medida, de mecanismos institucionais capazes de induzir a coopera\u00e7\u00e3o entre os entes federados.<\/p>\n<p>No caso do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/sus\">SUS<\/a>), a Constitui\u00e7\u00e3o definiu a regionaliza\u00e7\u00e3o como um princ\u00edpio organizativo. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, a implementa\u00e7\u00e3o do SUS avan\u00e7ou sobretudo com a transfer\u00eancia de recursos e responsabilidades aos munic\u00edpios, enquanto a constru\u00e7\u00e3o de mecanismos de coopera\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o regional permaneceu limitada.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, essa lacuna ainda aparece na pr\u00e1tica. O Contrato Organizativo da A\u00e7\u00e3o P\u00fablica da Sa\u00fade, criado em 2011 para formalizar essa coopera\u00e7\u00e3o entre estados e munic\u00edpios, foi assinado por apenas dois estados em mais de dez anos.<\/p>\n<p>Segundo levantamento sobre o tema, munic\u00edpios cujos governos n\u00e3o est\u00e3o politicamente alinhados encaminham menos pacientes entre si, mesmo quando pertencem \u00e0 mesma regi\u00e3o de sa\u00fade, agrupamento de munic\u00edpios vizinhos que deveria compartilhar hospitais, exames e especialistas, o que sugere influ\u00eancia da din\u00e2mica partid\u00e1ria sobre a coordena\u00e7\u00e3o territorial das pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a insufici\u00eancia dos incentivos financeiros, a baixa prioriza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a fragilidade das inst\u00e2ncias de governan\u00e7a regional explicam, em boa medida, esse hiato entre a norma e a pr\u00e1tica.<\/p>\n<h2>Constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es para diluir riscos pol\u00edticos<\/h2>\n<p>Essa tens\u00e3o apareceu de forma recorrente no di\u00e1logo com os secret\u00e1rios participantes: quando as pol\u00edticas de sa\u00fade ficam sujeitas a interfer\u00eancias alheias ao m\u00e9rito t\u00e9cnico, mesmo um diagn\u00f3stico bem fundamentado pode n\u00e3o ser suficiente para sustentar as escolhas do gestor.<\/p>\n<p>O custo de liderar esse processo recai quase sempre sobre um n\u00facleo pequeno de pessoas dentro da secretaria. Reorganizar um fluxo assistencial significa contrariar prefeitos, hospitais e contratos antigos, sabendo que os respons\u00e1veis pela decis\u00e3o podem n\u00e3o estar mais no cargo quando os resultados aparecerem, e que o acordo constru\u00eddo n\u00e3o tem garantia de continuidade.<\/p>\n<p>Foi esse cen\u00e1rio que orientou o desenho do programa de forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as estaduais dedicado \u00e0 regionaliza\u00e7\u00e3o conduzido pelo Instituto de Estudos para Pol\u00edticas de Sa\u00fade (IEPS). A premissa da iniciativa \u00e9 que, se o obst\u00e1culo central \u00e9 o risco pol\u00edtico concentrado em poucas m\u00e3os, a resposta n\u00e3o pode ser expor lideran\u00e7as estaduais apenas a mais conte\u00fado t\u00e9cnico. Precisamos, sim, promover a constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es que possam diluir esses custos entre mais pessoas.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso levou \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es de gabinete por decis\u00f5es de comit\u00eas formados por at\u00e9 seis pessoas de cada secretaria, e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de troca entre estados que, de outra forma, dificilmente teriam oportunidade de comparar processos e aprendizados em um ambiente politicamente neutro. Uma gestora estadual resumiu bem esse tipo de troca: evita que cada estado precise reinventar o mesmo processo a cada novo desafio. Nada disso exigiu uma lei nova. Exigiu um espa\u00e7o em que assumir risco deixasse de ser tarefa de poucos.<\/p>\n<p>O resultado, ainda parcial, j\u00e1 aparece nos planos de a\u00e7\u00e3o que os estados v\u00eam construindo desde ent\u00e3o. Um comit\u00ea criou uma inst\u00e2ncia de governan\u00e7a que passou a preceder as discuss\u00f5es formais entre gestores, permitindo um alinhamento pr\u00e9vio que antes n\u00e3o existia. Outro usou o processo para revisar pactua\u00e7\u00f5es antigas com munic\u00edpios, um movimento que dificilmente sairia de uma secretaria isoladamente. Nenhum desses arranjos est\u00e1 consolidado. A sustenta\u00e7\u00e3o de ambos depende da continuidade institucional que nenhum dos dois garante por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<h2>Propostas para o futuro do SUS<\/h2>\n<p>Esse \u00e9 o motivo pelo qual o problema n\u00e3o pode ficar restrito a alguns estados nem a um \u00fanico programa. A <a href=\"https:\/\/ieps.org.br\/agenda-mais-sus-2027-2030\/\">Agenda Mais SUS 2027-2030<\/a>, documento elaborado pelo IEPS e pela Umane com dez propostas para o pr\u00f3ximo ciclo pol\u00edtico, chega a uma conclus\u00e3o semelhante. Segundo o documento, a coordena\u00e7\u00e3o regional do SUS n\u00e3o se constr\u00f3i apenas com normas: exige autoridade real, capacidade t\u00e9cnica e financiamento que torne a coopera\u00e7\u00e3o vantajosa para todos os entes.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/saude?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_saude_q2&amp;utm_id=cta_texto_saude_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_saude&amp;utm_term=cta_texto_saude_meio_materias\"><span>Com not\u00edcias da Anvisa e da ANS, o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Sa\u00fade entrega previsibilidade e transpar\u00eancia para empresas do setor<\/span><\/a><\/p>\n<p>A proposta \u00e9 que os estados assumam o papel de organizadores dos fluxos assistenciais, com inst\u00e2ncias que tenham poder de decis\u00e3o real sobre refer\u00eancias e aloca\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, e n\u00e3o apenas a fun\u00e7\u00e3o protocolar que muitos ainda exercem. \u00c0 Uni\u00e3o cabe parte equivalente desse esfor\u00e7o, hoje tamb\u00e9m incompleta, sobretudo na consolida\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura nacional de dados cl\u00ednicos e no financiamento vinculado \u00e0 regula\u00e7\u00e3o regionalizada.<\/p>\n<p>O que j\u00e1 est\u00e1 em teste em diferentes estados brasileiros pode se tornar pr\u00e1tica comum ao SUS, ou continuar dependendo da disposi\u00e7\u00e3o individual de cada gest\u00e3o. A pergunta que caber\u00e1 aos futuros gestores n\u00e3o \u00e9 mais se a regionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel, algo que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 em disputa h\u00e1 anos. \u00c9 se o pa\u00eds vai continuar tratando o risco de liderar esse processo como problema de poucos, ou se vai finalmente criar os arranjos institucionais (financeiros e normativos) capazes de dividi-lo e endere\u00e7\u00e1-lo.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em maio, quatro comit\u00eas estaduais de sa\u00fade passaram dois dias em um programa imersivo de forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as dedicado \u00e0 regionaliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Diante de um problema simulado, precisaram decidir qual munic\u00edpio receberia um hospital regional, com or\u00e7amento limitado e atores pol\u00edticos disputando a escolha. O exerc\u00edcio era fict\u00edcio, mas reproduzia, em ess\u00eancia, o tipo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25744"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25744\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}