{"id":25688,"date":"2026-09-01T05:59:02","date_gmt":"2026-09-01T08:59:02","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/01\/o-custo-invisivel-dos-leiloes-da-anp-litigios-passivos-e-incoerencia-climatica\/"},"modified":"2026-09-01T05:59:02","modified_gmt":"2026-09-01T08:59:02","slug":"o-custo-invisivel-dos-leiloes-da-anp-litigios-passivos-e-incoerencia-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/09\/01\/o-custo-invisivel-dos-leiloes-da-anp-litigios-passivos-e-incoerencia-climatica\/","title":{"rendered":"O custo invis\u00edvel dos leil\u00f5es da ANP: lit\u00edgios, passivos e incoer\u00eancia clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>Os leil\u00f5es de blocos explorat\u00f3rios pela Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/anp\">ANP<\/a>) v\u00eam operando sobre uma l\u00f3gica muito cara ao poder p\u00fablico e ao meio ambiente: \u00e1reas de extrema sensibilidade ambiental e social s\u00e3o colocadas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da iniciativa privada como se fossem terrenos em promo\u00e7\u00e3o. O roteiro \u00e9 colonial: leiloa-se primeiro, verificam-se os estragos depois, empurrando a conta para o futuro.<\/p>\n<p>O exemplo mais emblem\u00e1tico dessa l\u00f3gica do licenciamento est\u00e1 acontecendo agora e diz respeito ao bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, na regi\u00e3o da Margem Equatorial.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>O processo controverso durou mais de 12 anos, sendo concedida a licen\u00e7a para explora\u00e7\u00e3o ap\u00f3s fort\u00edssima press\u00e3o pol\u00edtica do Poder Executivo e do Congresso Nacional, com atua\u00e7\u00e3o direta do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (Uni\u00e3o-AP), que intercedeu e pressionou pela libera\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a, em defesa dos interesses do estado que o elegeu \u2013 o Amap\u00e1 abriga grande parte dos blocos da Foz.<\/p>\n<p>Cortes de pa\u00edses do Sul Global j\u00e1 anularam direitos de explora\u00e7\u00e3o offshore justamente porque as autoridades deixaram de consultar, de forma livre, pr\u00e9via e informada, os povos costeiros e tradicionais afetados.<\/p>\n<p>A sensibilidade dessas \u00e1reas n\u00e3o se esgota na linha da costa. A Margem Equatorial abriga o Grande Sistema de Recifes Amaz\u00f4nicos, um mosaico de corais, rodolitos e esponjas ainda pouco estudado pela ci\u00eancia, e as bacias do Nordeste e do Sudeste guardam recifes, bancos de algas calc\u00e1rias e rotas de cet\u00e1ceos que sustentam a pesca artesanal e a pr\u00f3pria regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica dos oceanos. Autorizar a oferta desses blocos \u00e9 apostar contra ecossistemas marinhos que, uma vez degradados, n\u00e3o se recuperam.<\/p>\n<p>O argumento da ANP para justificar o atropelo escancara a in\u00e9rcia burocr\u00e1tica: leiloa-se um bloco em territ\u00f3rio vivo como se fosse um t\u00edtulo, um papel, e qualquer garantia de que o licenciamento ambiental permitir\u00e1, de fato, explorar a \u00e1rea \u00e9 distor\u00e7\u00e3o da realidade. Uma coisa \u00e9 fato: adiar o bom senso n\u00e3o anula o perigo; apenas transfere o risco para a frente, com custos, inclusive, para a pr\u00f3pria ag\u00eancia, para o Poder Executivo e para o Poder Judici\u00e1rio, pois litigar contra a oferta de blocos com problemas t\u00e3o evidentes \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o da sociedade civil tomada pela Arayara.<\/p>\n<p>A luta contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e o combate aos gases de efeito estufa (GEE) devem nortear a atua\u00e7\u00e3o de qualquer defensor do meio ambiente, mas vender o que n\u00e3o se pode explorar \u00e9 um atentado contra o bom senso, a natureza e as contas p\u00fablicas. A hist\u00f3ria \u00e9 testemunha do qu\u00e3o malsucedido esse modelo pode ser.<\/p>\n<p>O not\u00f3rio caso do Bloco BM-ES-20, no Esp\u00edrito Santo, vendido em 2002 para a petroleira estadunidense Newfield, \u00e9 a prova dessa matem\u00e1tica perversa. O governo faturou com o leil\u00e3o, mas anos depois o Ibama negou a licen\u00e7a ambiental porque a \u00e1rea era muito sens\u00edvel \u00e0 atividade extrativista.<\/p>\n<p>O resultado: a empresa devolveu o bloco, processou a Uni\u00e3o e a ANP foi condenada a devolver mais de R$ 5,3 milh\u00f5es corrigidos por \u201cfrustra\u00e7\u00e3o de investimento\u201d. \u00c9 justamente esse tipo de problema que a Arayara visa combater ao litigar os leil\u00f5es de petr\u00f3leo. N\u00e3o se pode simplesmente leiloar uma \u00e1rea sens\u00edvel, esperar que uma empresa arremate, que o Ibama negue a licen\u00e7a e que o Estado pague uma indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se observar que existem decis\u00f5es muito conscientes no Judici\u00e1rio. Recentemente, a Justi\u00e7a Federal em Bras\u00edlia deu raz\u00e3o ao Instituto Internacional Arayara, cancelando e suspendendo a inclus\u00e3o de blocos nas Bacias Potiguar, Sergipe-Alagoas e Esp\u00edrito Santo. O ju\u00edzo reconheceu que a ANP ignorou alertas t\u00e9cnicos de \u00f3rg\u00e3os ambientais para tentar empurrar para o mercado \u00e1reas de alt\u00edssima sensibilidade ecol\u00f3gica. N\u00e3o foi a primeira vez.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico destes blocos retirados, foram muitos os avisos de \u00f3rg\u00e3os ambientais, como o Ibama e ICMBio, que indicaram sobreposi\u00e7\u00e3o a reservas do Patrim\u00f4nio Natural e de habitats de esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o na Bacia Potiguar. Em Sergipe-Alagoas, os blocos invadem locais vitais para a desova de tartarugas marinhas e abrigam o territ\u00f3rio da ave vira-folha-pardo, criticamente amea\u00e7ada, com pouqu\u00edssimos indiv\u00edduos na natureza e que correm s\u00e9rio risco de desaparecer do mapa. \u00c9 neste cen\u00e1rio que a ambi\u00e7\u00e3o petroleira no Esp\u00edrito Santo atropela corredores ecol\u00f3gicos e \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Contra a retirada, a ANP recorre ao Tribunal Regional Federal (TRF), mas a tentativa de anular a decis\u00e3o n\u00e3o passa de mero cumprimento de protocolo burocr\u00e1tico. A decis\u00e3o do juiz Manoel Pedro Martins de Castro Filho \u00e9 blindada por uma solidez t\u00e9cnica e jur\u00eddica irretoc\u00e1vel. N\u00e3o se trata de uma opini\u00e3o ideol\u00f3gica, mas de um diagn\u00f3stico fundado em dados da pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, no Princ\u00edpio da Precau\u00e7\u00e3o e na Constitui\u00e7\u00e3o Federal. A tese constru\u00edda pelo Instituto Arayara provou que transferir a an\u00e1lise ambiental para a fase p\u00f3s-leil\u00e3o viola a efici\u00eancia administrativa e a moralidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina brasileira de criar passivos ambientais precisa parar de funcionar. \u00c9 hora de colocar um ponto final ao regime de concess\u00e3o de petr\u00f3leo no Brasil. No modelo de concess\u00e3o, o Estado entrega o patrim\u00f4nio de bandeja e recebe como contrapartida apenas migalhas de royalties e impostos, precisando arcar com todo o impacto socioambiental da atividade explorat\u00f3ria e produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural, enquanto o lucro enche os cofres de multinacionais.<\/p>\n<p>Se interromper imediatamente a produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, o Brasil precisa fazer o que est\u00e1 ao seu alcance: licitar blocos apenas sob o regime de partilha de produ\u00e7\u00e3o, que traz mais retorno ao pa\u00eds e \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Por fim, essa discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas dom\u00e9stica. Na sua nova Contribui\u00e7\u00e3o Nacionalmente Determinada (NDC) ao Acordo de Paris, o Brasil prometeu reduzir as emiss\u00f5es l\u00edquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% at\u00e9 2035, em rela\u00e7\u00e3o a 2005; e, na COP30, em Bel\u00e9m, defendeu um \u201cMapa do Caminho\u201d para o abandono gradual dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, apoiado por cerca de 80 pa\u00edses. Meses depois, na primeira Confer\u00eancia Internacional sobre a Transi\u00e7\u00e3o para Longe dos Combust\u00edveis F\u00f3sseis, realizada em Santa Marta, na Col\u00f4mbia, em abril de 2026, mais de 50 pa\u00edses passaram a articular roteiros nacionais de transi\u00e7\u00e3o e a pressionar por um tratado de n\u00e3o prolifera\u00e7\u00e3o dos f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>O pa\u00eds que reivindica protagonismo na diplomacia clim\u00e1tica do Sul Global n\u00e3o pode, ao mesmo tempo, leiloar essa expans\u00e3o sobre a foz de seus maiores rios e sobre seus recifes. Blocos que n\u00e3o podem ser licenciados s\u00e3o, na pr\u00e1tica, ativos encalhados: ativos que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica tornar\u00e1 antiecon\u00f4micos e que, hoje, s\u00f3 servem para gerar lit\u00edgio, passivo ambiental e risco fiscal. Alinhar a pol\u00edtica de leil\u00f5es aos compromissos clim\u00e1ticos assumidos \u00e9, portanto, tanto uma exig\u00eancia jur\u00eddica quanto uma quest\u00e3o de coer\u00eancia e de credibilidade.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os leil\u00f5es de blocos explorat\u00f3rios pela Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis (ANP) v\u00eam operando sobre uma l\u00f3gica muito cara ao poder p\u00fablico e ao meio ambiente: \u00e1reas de extrema sensibilidade ambiental e social s\u00e3o colocadas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da iniciativa privada como se fossem terrenos em promo\u00e7\u00e3o. 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