{"id":25552,"date":"2026-08-26T14:58:39","date_gmt":"2026-08-26T17:58:39","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/26\/a-inclusao-que-nao-veio-ate-onde-a-ia-desceu-a-piramide-social\/"},"modified":"2026-08-26T14:58:39","modified_gmt":"2026-08-26T17:58:39","slug":"a-inclusao-que-nao-veio-ate-onde-a-ia-desceu-a-piramide-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/26\/a-inclusao-que-nao-veio-ate-onde-a-ia-desceu-a-piramide-social\/","title":{"rendered":"A inclus\u00e3o que n\u00e3o veio: at\u00e9 onde a IA desceu a pir\u00e2mide social"},"content":{"rendered":"<p>Duas pesquisas feitas no Brasil com poucos meses de dist\u00e2ncia chegam a retratos opostos da intelig\u00eancia artificial. O \u00cdndice Reglab de Confian\u00e7a e Seguran\u00e7a na Economia Digital, aplicado a 1.103 pessoas da popula\u00e7\u00e3o conectada em junho de 2026, encontra 84,4% de reconhecimento das ferramentas de IA generativa entre as classes D e E.<\/p>\n<p>A TIC Domic\u00edlios 2025, do Cetic.br\/NIC.br, entrevistou 24.535 indiv\u00edduos em 27.177 domic\u00edlios, presencialmente, com amostra probabil\u00edstica. Ela mostra que 16% dos usu\u00e1rios de internet das classes DE usaram alguma ferramenta de IA generativa nos tr\u00eas meses anteriores. Al\u00e9m disso, apontou que, entre os que n\u00e3o usaram, 59% apontam desconhecer que essas ferramentas existem, o que equivale a cerca de metade dos usu\u00e1rios de internet desse recorte.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/17-03-2026-rdstation-lp-jota-pro-tecnologia-conversao-mql-marketing\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Tecnologia, solu\u00e7\u00e3o corporativa que acompanha todas as movimenta\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias e legislativas que impactam o setor<\/span><\/a><\/p>\n<p>De um lado, o reconhecimento quase universal; de outro, o desconhecimento declarado de metade da amostra. Entretanto, perguntar qual resultado est\u00e1 correto \u00e9 a indaga\u00e7\u00e3o errada.<\/p>\n<p>As duas pesquisas medem coisas diferentes: reconhecer um nome numa lista \u00e9 um teste simples que existe em pesquisa de opini\u00e3o; o uso efetivo em tr\u00eas meses \u00e9 mais exigente. H\u00e1, ainda, uma diferen\u00e7a mais relevante, que diz respeito \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Um painel online de ades\u00e3o volunt\u00e1ria alcan\u00e7a quem est\u00e1 conectado o bastante para se cadastrar, permanecer e responder por incentivo.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que est\u00e1 inserido e onde se pergunta sobre a percep\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a nas redes na pesquisa do \u00cdndice Reglab. A pesquisa domiciliar alcan\u00e7a um grupo diferente: quem atende \u00e0 porta. Ambas falam de \u201cclasses D e E\u201d e ambas olham para gente conectada, mas ocupam pontos distintos do mesmo gradiente de engajamento digital.<\/p>\n<p>Essa dist\u00e2ncia mede quanto de uma tecnologia j\u00e1 desceu a pir\u00e2mide social. E a resposta, no caso da IA, \u00e9: pouco.<\/p>\n<p>A TIC mostra essa nuance com bastante nitidez. O uso de IA generativa entre usu\u00e1rios de internet \u00e9 de 69% na classe A, 52% na B, 32% na C e 16% nas classes D\/E. Por escolaridade, vai de 59% no Ensino Superior a 17% no Fundamental. Na \u00e1rea urbana, 34%; na rural, 18%.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 surpresa em uma tecnologia nova aparecer primeiro no topo da pir\u00e2mide social; o que merece aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o tempo de difus\u00e3o. O acesso domiciliar \u00e0 internet levou cerca de 20 anos para ir de minoria a 86% dos domic\u00edlios, com as classes DE hoje em 73% e a classe A em 100%. A IA generativa est\u00e1 hoje, na base da pir\u00e2mide, exatamente onde a internet estava em 2015: os mesmos 16%. Se a descida seguir esse ritmo, a conta \u00e9 de, pelo menos, uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>O \u00cdndice Reglab permite observar essa cronologia de outro \u00e2ngulo, porque acompanha cinco categorias de plataforma em est\u00e1gios diferentes de difus\u00e3o. Em cada uma delas d\u00e1 para comparar quantas pessoas das classes A e B dizem conhecer aquelas plataformas e quantas das classes C, D e E dizem o mesmo. A diferen\u00e7a entre os dois grupos mede o quanto a classe social ainda separa quem sabe que aquilo existe.<\/p>\n<p>No streaming, a diferen\u00e7a \u00e9 zero: Netflix e YouTube s\u00e3o igualmente conhecidos em todos os recortes. No governo digital, ela \u00e9 de 1,1 ponto porcentual; nas redes sociais, 1,8 ponto; na economia de plataforma, 2,9. Na intelig\u00eancia artificial, 6,1 \u2014 90,7% de reconhecimento nas classes A e B contra 84,6% nas classes C, D e E.<\/p>\n<p>Nas quatro primeiras categorias o reconhecimento saturou e a classe deixou de discriminar. S\u00f3 na IA o degrau persiste no est\u00e1gio inicial da difus\u00e3o, que \u00e9 saber que a coisa existe.<\/p>\n<p>\u00c9 o padr\u00e3o que Comin e Mestieri (2018) descrevem para o s\u00e9culo 20: as tecnologias passaram a chegar cada vez mais r\u00e1pido a todo lugar, enquanto a intensidade de uso divergia. O que separa ricos e pobres n\u00e3o \u00e9 mais a chegada, \u00e9 quanto se usa delas depois.<\/p>\n<p>O Cetic perguntou a quem n\u00e3o usou IA por que n\u00e3o usou, e a resposta desmonta a leitura de que se trata apenas de uma quest\u00e3o de prefer\u00eancia. No conjunto dos usu\u00e1rios de internet que n\u00e3o usaram a tecnologia, os motivos citados foram falta de interesse ou necessidade (76%), preocupa\u00e7\u00f5es com seguran\u00e7a ou privacidade (63%), falta de habilidade para usar esse tipo de ferramenta (58%) e falta de conhecimento de que essas ferramentas existem (52%).<\/p>\n<p>Quando se analisa por escolaridade, a diferen\u00e7a fica clara: no topo, n\u00e3o usar IA \u00e9 decis\u00e3o \u2014 a pessoa conhece a ferramenta, sabe oper\u00e1-la e simplesmente concluiu que n\u00e3o precisa dela. Na base, quatro obst\u00e1culos atuam ao mesmo tempo. Entre quem tem Ensino Superior, o motivo que domina \u00e9 o desinteresse, 87%, e o desconhecimento da exist\u00eancia aparece em apenas 30%. Entre quem tem Ensino Fundamental, os quatro motivos ficam praticamente empatados: 66% de desinteresse, 65% de falta de habilidade, 64% de privacidade e 63% de desconhecimento.<\/p>\n<p>Para a pol\u00edtica p\u00fablica, a consequ\u00eancia \u00e9 que agir sobre o acesso \u2014 o reflexo herdado das duas d\u00e9cadas em que o problema era levar internet at\u00e9 a porta \u2014 deixou de bastar. O Plano Brasileiro de Intelig\u00eancia Artificial, sob o lema \u201cIA para o Bem de Todos\u201d, n\u00e3o \u00e9 silencioso quanto \u00e0 base da pir\u00e2mide social: promete uma campanha de conscientiza\u00e7\u00e3o que alcance 30% da popula\u00e7\u00e3o adulta em tr\u00eas anos e 85% com conhecimento b\u00e1sico sobre IA em cinco, e reserva sua a\u00e7\u00e3o mais concreta voltada explicitamente \u00e0 baixa renda a uma plataforma que usa IA para mapear necessidades de quem est\u00e1 no Cad\u00danico e oferecer cursos e vagas.<\/p>\n<p>Mas as duas iniciativas n\u00e3o resolvem a quest\u00e3o do uso. Uma trata de conhecimento, isto \u00e9, saber que a IA existe, entender seus riscos, e \u00e9 justamente o degrau que a difus\u00e3o fecha primeiro, o de entrada; a outra faz da base benefici\u00e1ria de um servi\u00e7o movido a IA, n\u00e3o usu\u00e1ria da ferramenta. E essa segunda \u00e9 a marca de toda a camada de a\u00e7\u00f5es imediatas do plano: a IA atende o cidad\u00e3o da base sem torn\u00e1-lo usu\u00e1rio dela (sistemas que apoiam professores e gestores contra a evas\u00e3o escolar, um chatbot que orienta o produtor rural, outro que responde ao cidad\u00e3o no consulado).<\/p>\n<p>Nenhuma das duas op\u00e7\u00f5es fecha a dist\u00e2ncia que a TIC localiza com nitidez, e que diverge: ela est\u00e1 na intensidade de uso, e ser atendido por um sistema de IA n\u00e3o \u00e9 operar a ferramenta, assim como saber que ela existe n\u00e3o \u00e9 us\u00e1-la.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A isso soma-se um problema de desenho. A meta de conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 agregada \u2014 85% da popula\u00e7\u00e3o adulta \u2014, e n\u00e3o um piso para as classes D e E: como o topo j\u00e1 beira a satura\u00e7\u00e3o, o \u00edndice nacional pode ser cumprido com a base ainda para tr\u00e1s. E os recursos seguem outra dire\u00e7\u00e3o: dos R$ 23 bilh\u00f5es do plano, 59,9% v\u00e3o para inova\u00e7\u00e3o empresarial e 25,2% para infraestrutura, contra 5% para difus\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o \u2014 da qual a literacia digital da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma fra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Limitada a esse desenho, a IA repetir\u00e1 a cronologia da internet \u2014 uma d\u00e9cada ou mais para descer \u2014 e chegar\u00e1 embaixo depois que o ganho de produtividade j\u00e1 tiver sido capturado no alto. A pergunta relevante n\u00e3o \u00e9 se a IA vai descer a pir\u00e2mide, mas se descer\u00e1 antes de a dist\u00e2ncia entre o topo e a base se converter em vantagem consolidada para quem j\u00e1 est\u00e1 no topo da pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>BRASIL. Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o. <strong>Plano Brasileiro de Intelig\u00eancia Artificial 2024\u20132028: IA para o bem de todos.<\/strong> Bras\u00edlia: MCTI, 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/acompanhe-o-mcti\/transformacaodigital\/plano-brasileiro-de-inteligencia-artificial\">https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/acompanhe-o-mcti\/transformacaodigital\/plano-brasileiro-de-inteligencia-artificial<\/a>. Acesso em: 21 ago. 2026.<\/p>\n<p>COMIN, D.; MESTIERI, M. If technology has arrived everywhere, why has income diverged? <strong>American Economic Journal: Macroeconomics<\/strong>, v. 10, n. 3, p. 137\u2013178, 2018.<\/p>\n<p>PALANCA, T.; RAMOS, P. H. <strong>\u00cdndice Reglab de Confian\u00e7a e Seguran\u00e7a na Economia Digital.<\/strong> Edi\u00e7\u00e3o 1 \u2013 2\u00ba trimestre de 2026. S\u00e3o Paulo: Reglab, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/reglab.com.br\/indice-reglab-confianca-seguranca-economia-digital-relatorio1\/\">https:\/\/reglab.com.br\/indice-reglab-confianca-seguranca-economia-digital-relatorio1\/<\/a>. Acesso em: 21 ago. 2026.<\/p>\n<p>TIC Domic\u00edlios 2025 (Cetic.br\/NIC.br): 27.177 domic\u00edlios e 24.535 indiv\u00edduos, entrevistas presenciais entre mar\u00e7o e setembro de 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/cetic.br\/pt\/pesquisa\/domicilios\/analises\/\">https:\/\/cetic.br\/pt\/pesquisa\/domicilios\/analises\/<\/a>. Acesso em: 21 ago. 2026.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas pesquisas feitas no Brasil com poucos meses de dist\u00e2ncia chegam a retratos opostos da intelig\u00eancia artificial. 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