{"id":25464,"date":"2026-08-24T05:58:47","date_gmt":"2026-08-24T08:58:47","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/24\/rede-social-de-agente-publico-em-ano-eleitoral-o-que-a-lei-realmente-veda\/"},"modified":"2026-08-24T05:58:47","modified_gmt":"2026-08-24T08:58:47","slug":"rede-social-de-agente-publico-em-ano-eleitoral-o-que-a-lei-realmente-veda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/24\/rede-social-de-agente-publico-em-ano-eleitoral-o-que-a-lei-realmente-veda\/","title":{"rendered":"Rede social de agente p\u00fablico em ano eleitoral: o que a lei realmente veda"},"content":{"rendered":"<p>Imagine um secret\u00e1rio estadual que decide visitar os equipamentos p\u00fablicos administrados por sua pasta: uma biblioteca, um posto de sa\u00fade, uma escola t\u00e9cnica. Leva o celular e grava v\u00eddeos curtos do atendimento, do hor\u00e1rio de funcionamento, do que mudou desde a \u00faltima reforma. Quer publicar o material no pr\u00f3prio Instagram. Ele n\u00e3o \u00e9 candidato a nada. E estamos em agosto de um ano de elei\u00e7\u00e3o, com as restri\u00e7\u00f5es a agentes p\u00fablicos em vigor desde 4 de julho.<\/p>\n<p>Pode?<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/24-03-2026-rdstation-lp-jota-pro-eleicoes-conversao-mql-marketing?utm_source=direct&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=aon-materias-eleicoes-lead-marketing\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Elei\u00e7\u00f5es, cobertura eleitoral especial do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>A pergunta parece pequena. Mas cabem nela, em um gesto de 30 segundos, quase todos os pontos de tens\u00e3o do direito eleitoral brasileiro: o uso do patrim\u00f4nio p\u00fablico, a fronteira entre informar e se promover, o alcance de regras pensadas para candidatos e a liberdade de express\u00e3o de quem ocupa um cargo. A resposta n\u00e3o \u00e9 \u201csim\u201d nem \u201cn\u00e3o\u201d. \u00c9 \u201cdepende de tr\u00eas coisas\u201d, e as tr\u00eas costumam ser mal compreendidas.<\/p>\n<p>E ela se repete. S\u00f3 nos \u00faltimos dois anos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgou v\u00eddeos gravados no gabinete de uma prefeitura, na tribuna de uma assembleia legislativa e dentro de uma viatura da guarda municipal, todos publicados depois em redes sociais. N\u00e3o \u00e9 d\u00favida de exce\u00e7\u00e3o, mas rotina administrativa que ningu\u00e9m parou para ensinar.<\/p>\n<h2>O primeiro engano: \u201ceu n\u00e3o sou candidato\u201d<\/h2>\n<p>\u00c9 a premissa mais comum e a mais fr\u00e1gil. O <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l9504.htm\">artigo 73 da Lei das Elei\u00e7\u00f5es<\/a>, que lista as chamadas condutas vedadas, n\u00e3o se dirige a candidatos, mas a \u201cagentes p\u00fablicos, servidores ou n\u00e3o\u201d, e define agente p\u00fablico como quem exer\u00e7a cargo por qualquer forma de investidura, ainda que transit\u00f3ria e sem remunera\u00e7\u00e3o. Um secret\u00e1rio executivo, um assessor comissionado, o presidente de uma autarquia: todos est\u00e3o dentro.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de candidatura afasta apenas a san\u00e7\u00e3o mais grave, a cassa\u00e7\u00e3o do registro ou do diploma, que s\u00f3 faz sentido para quem disputa. Permanece a multa, que o TSE j\u00e1 aplicou a agentes n\u00e3o candidatos, inclusive a titulares de secretaria estadual responsabilizados por publicidade veiculada em per\u00edodo proibido (REspe 119473, rel. min. Maria Thereza de Assis Moura, 2016). N\u00e3o ser candidato muda a san\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, n\u00e3o a sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 regra.<\/p>\n<p>H\u00e1 um recorte que funciona como filtro. A proibi\u00e7\u00e3o de publicidade institucional alcan\u00e7a apenas as esferas administrativas cujos cargos est\u00e3o em disputa. Em elei\u00e7\u00e3o municipal, o agente estadual fica de fora. Em 2026, com presidente, governadores, senadores e deputados na urna, Uni\u00e3o e estados est\u00e3o dentro; os munic\u00edpios, n\u00e3o.<\/p>\n<h2>O segundo engano: \u201cn\u00e3o posso usar pr\u00e9dio p\u00fablico\u201d<\/h2>\n<p>Aqui a intui\u00e7\u00e3o erra para o lado oposto, o do excesso de cautela. Gravar imagens de um bem p\u00fablico n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, conduta vedada.<\/p>\n<p>O TSE fixou essa distin\u00e7\u00e3o ao julgar a grava\u00e7\u00e3o de um programa eleitoral dentro de uma biblioteca p\u00fablica. O que a lei pro\u00edbe, disse a Corte, \u00e9 o uso efetivo do aparato estatal em favor de campanha, n\u00e3o a simples capta\u00e7\u00e3o de imagens. Pesou o fato de que a biblioteca n\u00e3o fora aberta especialmente para a filmagem nem fechada ao p\u00fablico por causa dela (Rp 3267-25\/DF, rel. min. Marcelo Ribeiro, 2012).<\/p>\n<p>A jurisprud\u00eancia posterior transformou esse racioc\u00ednio em uma <a href=\"https:\/\/temasselecionados.tse.jus.br\/temas-selecionados\/condutas-vedadas-a-agentes-publicos\/bens-publicos-2013-uso-ou-cessao\">lista de condi\u00e7\u00f5es objetivas<\/a>. O uso de bem p\u00fablico como cen\u00e1rio \u00e9 l\u00edcito se o local for de livre acesso, se o servi\u00e7o n\u00e3o for interrompido em raz\u00e3o das filmagens, se as depend\u00eancias forem franqueadas igualmente aos demais candidatos e se a atividade se limitar a captar imagens, sem encena\u00e7\u00e3o (AgR-REspEl 603168-40\/RS, rel. min. Alexandre de Moraes, 2021).<\/p>\n<p>E a r\u00e9gua subiu. Em decis\u00f5es de 2025 e 2026, o TSE somou a esses requisitos a aus\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o direta entre servidores, usu\u00e1rios e c\u00e2mera. Reconheceu conduta vedada em grava\u00e7\u00e3o feita na via p\u00fablica, sem interrup\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, porque a agente dispunha de informa\u00e7\u00e3o privilegiada sobre a obra, indispon\u00edvel aos concorrentes, que lhe permitiu preparar a capta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m considerou il\u00edcito v\u00eddeo gravado em \u00e1rea interna de hospital, com servidores uniformizados e atividades suspensas.<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio, no fundo, \u00e9 a igualdade. O problema come\u00e7a quando o acesso deixa de ser o de qualquer visitante e passa a ser o do cargo. A\u00ed o cen\u00e1rio deixou de ser cen\u00e1rio e virou estrutura.<\/p>\n<h2>A pergunta que realmente importa: perfil pessoal \u00e9 publicidade institucional?<\/h2>\n<p>Nos tr\u00eas meses anteriores \u00e0 elei\u00e7\u00e3o, \u00e9 proibido autorizar publicidade institucional de atos, programas, obras e servi\u00e7os dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. A regra existe para impedir que a m\u00e1quina estatal financie, com dinheiro de todos, a visibilidade de quem a comanda.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9, exatamente, \u201cpublicidade institucional\u201d? A resposta n\u00e3o est\u00e1 no suporte em que a mensagem circula. Est\u00e1 no dinheiro e nos s\u00edmbolos.<\/p>\n<p>Em 2020, o TSE <a href=\"https:\/\/temasselecionados.tse.jus.br\/temas-selecionados\/condutas-vedadas-a-agentes-publicos\/propaganda-institucional\">assentou<\/a> que postagens sobre atos, obras e servi\u00e7os p\u00fablicos feitas em perfil privado de rede social n\u00e3o se confundem com a publicidade institucional vedada, que \u00e9 aquela autorizada pelo \u00f3rg\u00e3o e custeada com recursos p\u00fablicos (AgR-REspe 376-15\/ES, rel. min. Lu\u00eds Roberto Barroso). Nesse espa\u00e7o, prevalece a liberdade de express\u00e3o do agente.<\/p>\n<p>A rec\u00edproca \u00e9 o ponto cego: o crit\u00e9rio que protege \u00e9 o que condena. Se a postagem, ainda que em perfil pessoal, incorpora a logomarca da gest\u00e3o, o slogan do governo ou a identidade visual da secretaria, ou se foi produzida pela equipe oficial de comunica\u00e7\u00e3o, com equipamento e pessoal pagos com dinheiro p\u00fablico, ela readquire car\u00e1ter institucional e recai na proibi\u00e7\u00e3o. O perfil \u00e9 privado; a pe\u00e7a, n\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um risco que a aus\u00eancia de candidatura desloca em vez de eliminar. Quem n\u00e3o concorre pode servir de ve\u00edculo para propaganda em favor de quem concorre: o titular da pasta, o chefe do Executivo em campanha, o partido no poder. O uso da fun\u00e7\u00e3o para desequilibrar a disputa em favor de terceiro pode configurar <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/lcp\/lcp64.htm\">abuso de poder pol\u00edtico<\/a>, com consequ\u00eancias que atingem tamb\u00e9m o beneficiado.<\/p>\n<h2>O que n\u00e3o se pode esquecer: ningu\u00e9m perde direitos fundamentais ao tomar posse<\/h2>\n<p>Existe uma tenta\u00e7\u00e3o, em ano eleitoral, de resolver toda d\u00favida com uma proibi\u00e7\u00e3o. \u00c9 a sa\u00edda mais c\u00f4moda, e raramente a mais correta.<\/p>\n<p>A liberdade de express\u00e3o \u00e9 direito fundamental, e a <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm\">Constitui\u00e7\u00e3o veda expressamente qualquer censura de natureza pol\u00edtica<\/a>. A investidura em cargo p\u00fablico n\u00e3o a suprime. O TSE tem reafirmado que n\u00e3o cabe \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral impedir previamente, no plano abstrato, manifesta\u00e7\u00f5es que sequer se exteriorizaram: a puni\u00e7\u00e3o ao il\u00edcito vem depois de sua configura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o antes.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o transforma a liberdade de express\u00e3o em carta branca. Ela protege a opini\u00e3o, a cr\u00edtica e a informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a ofensa nem a mentira. O C\u00f3digo Eleitoral tipifica a cal\u00fania, a difama\u00e7\u00e3o e a inj\u00faria praticadas na propaganda ou com fins de propaganda, e pune quem divulga fatos que sabe inver\u00eddicos, em rela\u00e7\u00e3o a partidos e candidatos, com capacidade de influenciar o eleitorado. Quem \u00e9 atingido disp\u00f5e ainda do direito de resposta, com rito pr\u00f3prio e prazos curtos.<\/p>\n<p>Para o agente p\u00fablico, o peso \u00e9 maior, n\u00e3o menor. A mesma posi\u00e7\u00e3o funcional que amplia o alcance da sua palavra amplia o estrago quando ela \u00e9 falsa ou ofensiva, e pode somar \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o comum a apura\u00e7\u00e3o por abuso de autoridade ou de poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A sa\u00edda, portanto, \u00e9 conciliar, n\u00e3o sacrificar. Preserva-se o n\u00facleo da liberdade de express\u00e3o, que garante ao agente informar e se manifestar sobre aquilo que faz, e o da tutela eleitoral, que impede a convers\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica em promo\u00e7\u00e3o pessoal ou em propaganda disfar\u00e7ada. A linha divis\u00f3ria est\u00e1 no conte\u00fado, no custeio e no momento, nunca em um veto gen\u00e9rico \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>A sa\u00edda mais simples \u00e9 a menos jur\u00eddica: o calend\u00e1rio<\/h2>\n<p>Como a proibi\u00e7\u00e3o de publicidade institucional tem prazo, registrar durante o per\u00edodo e publicar depois resolve boa parte do problema. A capta\u00e7\u00e3o nunca esteve vedada; a divulga\u00e7\u00e3o, sim, e s\u00f3 enquanto a janela estiver aberta.<\/p>\n<p>Tr\u00eas detalhes, por\u00e9m, costumam escapar. O marco seguro n\u00e3o \u00e9 o primeiro turno, mas o encerramento definitivo do pleito, porque eventual segundo turno prorroga o per\u00edodo cr\u00edtico. O dever constitucional de impessoalidade na publicidade dos atos de governo n\u00e3o tem calend\u00e1rio: encerrada a elei\u00e7\u00e3o, cessa a regra eleitoral, n\u00e3o a constitucional. E o material gravado hoje n\u00e3o deve ser reaproveitado como propaganda antecipada de pleito futuro, porque o arquivo n\u00e3o caduca e a finalidade de quem o publica \u00e9 afer\u00edvel.<\/p>\n<h2>Por que isso interessa a quem n\u00e3o \u00e9 secret\u00e1rio<\/h2>\n<p>A mesma l\u00f3gica alcan\u00e7a o diretor de escola que grava a reforma da quadra, o m\u00e9dico que mostra o equipamento novo do hospital, o servidor que registra o mutir\u00e3o de atendimento. Quase todos operam com uma de duas certezas erradas: a de que \u201cperfil pessoal pode tudo\u201d ou a de que \u201cem ano eleitoral n\u00e3o se posta nada\u201d.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-por-dentro-da-maquina\">Quer acompanhar os principais fatos ligados ao servi\u00e7o p\u00fablico? Inscreva-se na newsletter Por Dentro da M\u00e1quina. \u00c9 gr\u00e1tis!<\/a><\/p>\n<p>Nenhuma se sustenta, embora a legisla\u00e7\u00e3o em vigor n\u00e3o seja imune a cr\u00edticas. H\u00e1 quem argumente que normas pensadas para a era da publicidade paga em r\u00e1dio e televis\u00e3o envelheceram diante de um ambiente em que qualquer agente p\u00fablico \u00e9, ele pr\u00f3prio, um canal de comunica\u00e7\u00e3o, e que corrigir esse descompasso caberia ao legislador, n\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o caso a caso. A obje\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria. Mas, enquanto as regras forem estas, \u00e9 com elas que se decide.<\/p>\n<p>O que elas imp\u00f5em n\u00e3o \u00e9 sil\u00eancio ao servidor p\u00fablico, mas uma distin\u00e7\u00e3o entre o Estado que informa e o gestor que se promove. Distin\u00e7\u00e3o que, ao contr\u00e1rio do que parece, \u00e9 bastante operacional: basta perguntar quem pagou, quais s\u00edmbolos aparecem e o que se pede, ainda que sem palavras, a quem assiste.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine um secret\u00e1rio estadual que decide visitar os equipamentos p\u00fablicos administrados por sua pasta: uma biblioteca, um posto de sa\u00fade, uma escola t\u00e9cnica. Leva o celular e grava v\u00eddeos curtos do atendimento, do hor\u00e1rio de funcionamento, do que mudou desde a \u00faltima reforma. Quer publicar o material no pr\u00f3prio Instagram. 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