{"id":25333,"date":"2026-08-19T06:03:14","date_gmt":"2026-08-19T09:03:14","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/19\/o-municipalismo-acabou\/"},"modified":"2026-08-19T06:03:14","modified_gmt":"2026-08-19T09:03:14","slug":"o-municipalismo-acabou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/19\/o-municipalismo-acabou\/","title":{"rendered":"O municipalismo acabou?"},"content":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos atr\u00e1s, escrevi neste espa\u00e7o, quando ainda era hospedado em outro site, o texto <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/politica\/gestao-politica-e-sociedade\/afinal-o-que-e-o-municipalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cAfinal, o que \u00e9 o municipalismo?\u201d<\/a>, no qual procurei compreender a estrat\u00e9gia pol\u00edtica anunciada por <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/carlos-brandao\">Carlos Brand\u00e3o<\/a> nos primeiros meses de seu governo no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele momento, a pergunta ainda estava aberta. O municipalismo aparecia como uma possibilidade de reorganiza\u00e7\u00e3o administrativa e pol\u00edtica do estado, com a promessa de aproximar o governo estadual dos munic\u00edpios, ampliar a coopera\u00e7\u00e3o federativa e conferir maior autonomia \u00e0s gest\u00f5es locais. Tamb\u00e9m era poss\u00edvel enxergar nessa escolha uma tentativa de afastamento em rela\u00e7\u00e3o ao modo de governar associado ao ciclo anterior e de construir uma coaliz\u00e3o pol\u00edtica mais ampla, sustentada pela interlocu\u00e7\u00e3o direta com as prefeituras.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/24-03-2026-rdstation-lp-jota-pro-eleicoes-conversao-mql-marketing?utm_source=direct&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=aon-materias-eleicoes-lead-marketing\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Elei\u00e7\u00f5es, cobertura eleitoral especial do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Tenho dito, h\u00e1 algum tempo, que governar \u00e9 desagradar. A frase parece simples, mas cont\u00e9m uma premissa elementar da pol\u00edtica: governar \u00e9 escolher. E escolher significa estabelecer prioridades, distribuir recursos, organizar agendas, reconhecer demandas e, inevitavelmente, deixar outras em segundo plano. N\u00e3o h\u00e1 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica capaz de converter conflito em unanimidade, assim como n\u00e3o h\u00e1 governo capaz de satisfazer simultaneamente todas as expectativas que se dirigem ao Estado. A pol\u00edtica come\u00e7a precisamente onde termina a fantasia de que todos podem ser contemplados da mesma maneira.<\/p>\n<p>A Ci\u00eancia Pol\u00edtica ajuda a tornar esse ponto mais claro. A competi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o ocorre em uma sociedade homog\u00eanea, mas entre grupos, interesses, territ\u00f3rios e lideran\u00e7as que disputam recursos escassos e reconhecimento p\u00fablico. Giovanni Sartori mostrou que a an\u00e1lise da pol\u00edtica exige aten\u00e7\u00e3o \u00e0 competi\u00e7\u00e3o, \u00e0 estrutura dos sistemas partid\u00e1rios e \u00e0s clivagens que organizam as prefer\u00eancias sociais. Nessa perspectiva, a capacidade de um governo formar alian\u00e7as n\u00e3o elimina o conflito, apenas o administra temporariamente. Uma coaliz\u00e3o ampla pode conter tens\u00f5es, mas dificilmente consegue anul\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u00c9 sob essa lente que o municipalismo de Brand\u00e3o precisa ser reavaliado. A estrat\u00e9gia pode ter sido funcional para ampliar a presen\u00e7a do governo estadual nos munic\u00edpios, construir canais de di\u00e1logo com prefeitos e organizar uma rede de coopera\u00e7\u00e3o institucional. Mas seria um erro supor que presen\u00e7a administrativa equivale, automaticamente, a ades\u00e3o pol\u00edtica ou fidelidade eleitoral. Entre a parceria de governo e a decis\u00e3o de apoiar uma candidatura existe uma dist\u00e2ncia relevante, marcada pelos interesses pr\u00f3prios de cada prefeito, pelas expectativas sobre a elei\u00e7\u00e3o e pela disputa concreta por influ\u00eancia nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com a gram\u00e1tica pol\u00edtica constru\u00edda pelo grupo Sarney ajuda a perceber essa diferen\u00e7a. Durante d\u00e9cadas, o sarne\u00edsmo estruturou uma forma de poder baseada na conex\u00e3o entre o governo estadual, as lideran\u00e7as regionais e as prefeituras. Essa estrutura combinava acesso a recursos, capacidade de media\u00e7\u00e3o e uma rede de alian\u00e7as suficientemente est\u00e1vel para reproduzir influ\u00eancia em diferentes elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de reduzir aquele ciclo a uma f\u00f3rmula simples, nem de ignorar as mudan\u00e7as profundas da pol\u00edtica maranhense. Trata-se de reconhecer que a articula\u00e7\u00e3o municipal sempre ocupou papel decisivo na sustenta\u00e7\u00e3o do poder estadual.<\/p>\n<p>O governo Carlos Brand\u00e3o atualizou essa gram\u00e1tica com outra linguagem. No lugar de uma rela\u00e7\u00e3o explicitamente apresentada como controle pol\u00edtico, entrou em cena o vocabul\u00e1rio da coopera\u00e7\u00e3o federativa, da presen\u00e7a territorial, da descentraliza\u00e7\u00e3o e da escuta dos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Essa repagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 irrelevante, porque responde a um ambiente pol\u00edtico mais competitivo, mais fragmentado e mais exposto ao escrut\u00ednio p\u00fablico. Ainda assim, ela preserva uma aposta central: a de que a aproxima\u00e7\u00e3o do governo estadual com as prefeituras pode fornecer a base para uma coaliz\u00e3o pol\u00edtica duradoura.<\/p>\n<p>Ainda que o municipalismo tenha funcionado como estrat\u00e9gia de interlocu\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a territorial, sua nova vers\u00e3o, repaginada sob Carlos Brand\u00e3o, parece enfrentar obst\u00e1culos maiores para transformar esses v\u00ednculos em mobiliza\u00e7\u00e3o eleitoral. Diferentemente da capacidade historicamente demonstrada pelo grupo Sarney de organizar alian\u00e7as mais est\u00e1veis e de converter articula\u00e7\u00e3o territorial em sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o governo atual opera em uma conjuntura de maior competi\u00e7\u00e3o, maior circula\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as e menor previsibilidade dos apoios. A estrutura continua importante, mas j\u00e1 n\u00e3o basta para assegurar que o aliado institucional de hoje seja o aliado eleitoral de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>O caso de Imperatriz ajuda a observar esse problema de modo concreto. Rildo Amaral reconheceu publicamente a parceria institucional com o governo Brand\u00e3o e as obras realizadas no munic\u00edpio, mas declarou apoio a Eduardo Braide (PSD), sustentando sua escolha na avalia\u00e7\u00e3o sobre o futuro da cidade e do estado, al\u00e9m da experi\u00eancia administrativa do pr\u00e9-candidato.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio n\u00e3o demonstra, isoladamente, o esvaziamento de toda a base governista. Mostra algo mais relevante para a an\u00e1lise: a coopera\u00e7\u00e3o administrativa n\u00e3o suspende a autonomia estrat\u00e9gica dos prefeitos. Eles recebem recursos, celebram parcerias e comp\u00f5em agendas com o governo estadual, mas continuam respondendo a c\u00e1lculos locais, expectativas eleitorais e correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em permanente mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma estrat\u00e9gia que se pretende inclusiva enfrenta o limite inevit\u00e1vel de toda coaliz\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acomodar plenamente interesses que, em algum momento, competem entre si. Para manter uma alian\u00e7a, o governo precisa distribuir aten\u00e7\u00e3o, recursos e prest\u00edgio. Mas, ao priorizar determinados munic\u00edpios, lideran\u00e7as ou grupos, produz descontentamentos em outros. Ao tentar incorporar todos, corre o risco de diluir crit\u00e9rios, compromissos e identidade. N\u00e3o h\u00e1 falha moral nessa din\u00e2mica, h\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da pol\u00edtica. Governar n\u00e3o \u00e9 produzir consenso permanente, mas administrar conflitos que n\u00e3o desaparecem.<\/p>\n<p>A conven\u00e7\u00e3o que oficializou Orleans Brand\u00e3o como candidato do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/mdb\">MDB<\/a> ao governo do Maranh\u00e3o tornou essa quest\u00e3o mais vis\u00edvel. O evento formalizou uma alian\u00e7a composta por MDB, Republicanos, PDT, Podemos, PRD, Solidariedade e Agir, com Edivaldo Holanda J\u00fanior (Republicanos) como candidato a vice, al\u00e9m de Roseana Sarney (MDB) e Weverton Rocha (PDT) na disputa pelo Senado.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o re\u00fane for\u00e7as importantes e procura transmitir uma ideia de abrang\u00eancia pol\u00edtica. Ao mesmo tempo, uma coaliz\u00e3o ampla n\u00e3o \u00e9, em si, prova de unidade duradoura. Ela tamb\u00e9m pode revelar o esfor\u00e7o necess\u00e1rio para reunir grupos com trajet\u00f3rias, interesses e expectativas que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente coincidentes.<\/p>\n<p>Neste sentido, a trajet\u00f3ria de Orleans refor\u00e7a esse ponto. Ex-secret\u00e1rio de Assuntos Municipalistas, ele apresentou a experi\u00eancia acumulada na pasta como uma das bases de sua candidatura e afirmou, na conven\u00e7\u00e3o, que pretende percorrer o Maranh\u00e3o e dialogar com todo o estado. Seu discurso preserva os elementos centrais da estrat\u00e9gia municipalista: a valoriza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a junto \u00e0s prefeituras, a interlocu\u00e7\u00e3o territorial e a ideia de continuidade.<\/p>\n<p>O desafio consiste em saber se esse repert\u00f3rio, que pode ser adequado \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, ser\u00e1 igualmente capaz de produzir identifica\u00e7\u00e3o eleitoral e sustentar uma candidatura que precisa ultrapassar os limites da estrutura governamental.<\/p>\n<p>Os dados dispon\u00edveis ajudam a situar a dificuldade. Pesquisa Real Time Big Data, contratada pelo pr\u00f3prio instituto e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/tse\">TSE<\/a>) sob o n\u00famero MA-04311\/2026, ouviu 1.600 eleitores no Maranh\u00e3o entre os dias 6 e 7 de julho de 2026. O levantamento tem n\u00edvel de confian\u00e7a de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio de primeiro turno, Eduardo Braide aparece com 44% das inten\u00e7\u00f5es de voto, contra 31% de Orleans Brand\u00e3o. No confronto direto de segundo turno, Braide tem 52% e Orleans, 38%. A pesquisa foi divulgada pelo Poder360 em 8 de julho de 2026. Esses n\u00fameros n\u00e3o encerram uma elei\u00e7\u00e3o ainda em curso, mas revelam, neste momento, uma diferen\u00e7a entre a amplitude institucional da coaliz\u00e3o governista e sua capacidade de converter essa estrutura em prefer\u00eancia eleitoral.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois da pergunta do referido texto, minha conclus\u00e3o \u00e9 menos taxativa do que a formula\u00e7\u00e3o de um fracasso. O municipalismo de Brand\u00e3o produziu uma forma concreta de organiza\u00e7\u00e3o governamental e ampliou a interlocu\u00e7\u00e3o com as prefeituras. Mas sua efic\u00e1cia como fundamento de uma sucess\u00e3o pol\u00edtica ainda est\u00e1 em disputa.<\/p>\n<p>Governar \u00e9 desagradar porque toda escolha produz limites, frustra\u00e7\u00f5es e novas disputas. A tentativa de incluir todos pode ampliar momentaneamente uma coaliz\u00e3o, mas n\u00e3o elimina o conflito que a sustenta, nem garante que aqueles que foram inclu\u00eddos permane\u00e7am juntos quando chega o momento decisivo da escolha.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos atr\u00e1s, escrevi neste espa\u00e7o, quando ainda era hospedado em outro site, o texto \u201cAfinal, o que \u00e9 o municipalismo?\u201d, no qual procurei compreender a estrat\u00e9gia pol\u00edtica anunciada por Carlos Brand\u00e3o nos primeiros meses de seu governo no Maranh\u00e3o. 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