{"id":25176,"date":"2026-08-13T06:04:01","date_gmt":"2026-08-13T09:04:01","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/13\/por-que-a-abstencao-pode-crescer-em-2026\/"},"modified":"2026-08-13T06:04:01","modified_gmt":"2026-08-13T09:04:01","slug":"por-que-a-abstencao-pode-crescer-em-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/13\/por-que-a-abstencao-pode-crescer-em-2026\/","title":{"rendered":"Por que a absten\u00e7\u00e3o pode crescer em 2026?"},"content":{"rendered":"<p>A teoria econ\u00f4mica da democracia sugere uma possibilidade pouco discutida para as <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/elei%C3%A7%C3%B5es%202026\">elei\u00e7\u00f5es de 2026<\/a>: a absten\u00e7\u00e3o eleitoral poder\u00e1 ser ainda maior do que a observada em muitas capitais brasileiras nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2024.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, essa hip\u00f3tese parece contraintuitiva. Afinal, elei\u00e7\u00f5es presidenciais costumam mobilizar mais aten\u00e7\u00e3o da imprensa, dos partidos e dos eleitores. Mas a economia pol\u00edtica mostra que a decis\u00e3o de votar envolve um c\u00e1lculo mais complexo do que normalmente se imagina.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2024, a absten\u00e7\u00e3o superou 30% em diversas capitais. Em Porto Alegre, alcan\u00e7ou 34,8%; em Belo Horizonte, 31,9%; e em S\u00e3o Paulo, 31,5%. Em algumas cidades, a soma de absten\u00e7\u00f5es, votos brancos e nulos aproximou-se da vota\u00e7\u00e3o obtida pelos pr\u00f3prios candidatos vencedores. Esses n\u00fameros sugerem que a decis\u00e3o de n\u00e3o participar deixou de ser um fen\u00f4meno marginal para se tornar uma caracter\u00edstica relevante da democracia brasileira.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o mais comum atribui esse comportamento \u00e0 apatia pol\u00edtica. A teoria da escolha p\u00fablica oferece uma explica\u00e7\u00e3o diferente. Ela parte da premissa de que os cidad\u00e3os respondem a incentivos tamb\u00e9m quando participam da pol\u00edtica. Votar exige custos: tempo para buscar informa\u00e7\u00f5es, acompanhar campanhas, comparar candidatos e compreender propostas.<\/p>\n<p>Os benef\u00edcios, por outro lado, parecem reduzidos. Em uma elei\u00e7\u00e3o com dezenas de milh\u00f5es de votantes, a probabilidade de um \u00fanico voto alterar o resultado \u00e9 praticamente nula. Foi essa l\u00f3gica que levou Anthony Downs a formular o chamado paradoxo do voto em sua teoria econ\u00f4mica da democracia. Se a influ\u00eancia individual \u00e9 t\u00e3o pequena, por que as pessoas continuam votando? Porque o voto produz benef\u00edcios que v\u00e3o al\u00e9m do resultado eleitoral. Ele expressa pertencimento, identidade, dever c\u00edvico e confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. O problema \u00e9 que os custos da participa\u00e7\u00e3o podem estar aumentando.<\/p>\n<p>Diferentemente das elei\u00e7\u00f5es municipais, em 2026 os eleitores precisar\u00e3o escolher representantes para cinco cargos distintos. Ter\u00e3o de avaliar candidatos para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, governos estaduais, Senado, C\u00e2mara dos Deputados e Assembleias Legislativas. Isso exige acompanhar um volume muito maior de informa\u00e7\u00f5es, comparar propostas em diferentes n\u00edveis de governo e compreender responsabilidades institucionais frequentemente complexas e sobrepostas, agravadas por frequentes alian\u00e7as eleitorais e pela dificuldade de identificar responsabilidades program\u00e1ticas claras.<\/p>\n<p>Em certo sentido, a crescente complexidade do sistema pol\u00edtico funciona como um verdadeiro imposto informacional sobre os eleitores. Quanto maior o esfor\u00e7o necess\u00e1rio para compreender as alternativas dispon\u00edveis, identificar responsabilidades e avaliar propostas, maior tende a ser o custo da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tudo indica que o ambiente pol\u00edtico continuar\u00e1 altamente polarizado. A polariza\u00e7\u00e3o pode aumentar o interesse pela disputa, mas tamb\u00e9m elevar os custos da participa\u00e7\u00e3o. O excesso de informa\u00e7\u00e3o, a fragmenta\u00e7\u00e3o das fontes de not\u00edcia, a dissemina\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o e a permanente disputa de narrativas tornam cada vez mais dif\u00edcil para o eleitor distinguir propostas, avaliar resultados e atribuir responsabilidades.<\/p>\n<p>Sob a perspectiva da <em>Public Choice<\/em>, essas for\u00e7as atuam em dire\u00e7\u00f5es opostas. De um lado, a import\u00e2ncia da elei\u00e7\u00e3o presidencial tende a estimular a participa\u00e7\u00e3o. De outro, o aumento dos custos informacionais tende a desestimul\u00e1-la. A hip\u00f3tese de uma absten\u00e7\u00e3o elevada em 2026 decorre justamente da possibilidade de que os custos adicionais de participa\u00e7\u00e3o superem os incentivos gerados pela maior relev\u00e2ncia da disputa.<\/p>\n<p>Existe ainda uma consequ\u00eancia institucional frequentemente ignorada. Quando a participa\u00e7\u00e3o diminui, grupos organizados e altamente mobilizados passam a exercer um peso relativo maior no processo pol\u00edtico. O resultado pode ser uma representa\u00e7\u00e3o menos aderente \u00e0s prefer\u00eancias do eleitor mediano e maior espa\u00e7o para a captura de pol\u00edticas p\u00fablicas por interesses espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, a absten\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser vista apenas como uma estat\u00edstica eleitoral. Ela pode funcionar como um indicador da qualidade das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Se essa interpreta\u00e7\u00e3o estiver correta, o desafio n\u00e3o consiste apenas em levar mais pessoas \u00e0s urnas. Exige reduzir os custos da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Isso significa ampliar a transpar\u00eancia governamental, fortalecer mecanismos de presta\u00e7\u00e3o de contas, melhorar a qualidade da informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel ao eleitor e tornar mais clara a identifica\u00e7\u00e3o de responsabilidades entre os diferentes n\u00edveis de governo.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es de 2026 ser\u00e3o importantes n\u00e3o apenas para definir quem governar\u00e1 o pa\u00eds. Elas tamb\u00e9m representar\u00e3o um teste para a capacidade das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de manter os cidad\u00e3os engajados em um ambiente cada vez mais complexo, polarizado e intensivo em informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afinal, democracias n\u00e3o se enfraquecem apenas quando elegem maus governantes. Frequentemente come\u00e7am a se fragilizar quando um n\u00famero crescente de cidad\u00e3os conclui que participar deixou de valer a pena.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>A teoria econ\u00f4mica da democracia sugere que esse processo raramente ocorre de forma abrupta. Ele avan\u00e7a gradualmente, \u00e0 medida que os custos de participa\u00e7\u00e3o aumentam, a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es diminui e a pol\u00edtica passa a parecer cada vez mais distante da vida cotidiana das pessoas.<\/p>\n<p>Quando isso acontece, a absten\u00e7\u00e3o deixa de ser apenas uma estat\u00edstica eleitoral. Ela se transforma em um indicador da qualidade das institui\u00e7\u00f5es e da capacidade de uma democracia preservar aquilo que constitui seu ativo mais valioso: a cren\u00e7a dos cidad\u00e3os de que sua participa\u00e7\u00e3o continua sendo capaz de influenciar os rumos da sociedade.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A teoria econ\u00f4mica da democracia sugere uma possibilidade pouco discutida para as elei\u00e7\u00f5es de 2026: a absten\u00e7\u00e3o eleitoral poder\u00e1 ser ainda maior do que a observada em muitas capitais brasileiras nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2024. \u00c0 primeira vista, essa hip\u00f3tese parece contraintuitiva. 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