{"id":25141,"date":"2026-08-12T06:06:17","date_gmt":"2026-08-12T09:06:17","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/12\/o-elo-fraco-do-sistema-brasileiro-de-inovacao\/"},"modified":"2026-08-12T06:06:17","modified_gmt":"2026-08-12T09:06:17","slug":"o-elo-fraco-do-sistema-brasileiro-de-inovacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/12\/o-elo-fraco-do-sistema-brasileiro-de-inovacao\/","title":{"rendered":"O elo fraco do sistema brasileiro de inova\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>A tese de que a rela\u00e7\u00e3o universidade-empresa \u00e9 o elo fraco do sistema brasileiro de inova\u00e7\u00e3o (SBI) \u00e9 talvez o diagn\u00f3stico mais repetido na literatura nacional sobre o tema. Os n\u00fameros cl\u00e1ssicos s\u00e3o conhecidos: enquanto cerca de 35% das empresas inovadoras na Finl\u00e2ndia mant\u00eam algum tipo de coopera\u00e7\u00e3o com a academia, no Brasil esse percentual historicamente girou em torno de 3% a 10% (Arbix; Salerno, 2010). O dado se tornou t\u00e3o recorrente que assumiu o status de senso comum entre formuladores de pol\u00edtica: a inova\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o decola porque a universidade n\u00e3o dialoga com a empresa.<\/p>\n<p>Os dados realmente apontam um sistema com baixa intera\u00e7\u00e3o entre os subsistemas cient\u00edfico e produtivo, mas a leitura mais cuidadosa da literatura recente sugere um diagn\u00f3stico mais sofisticado: a Embrapii, o Porto Digital e, mais recentemente, o Centro de Excel\u00eancia em Intelig\u00eancia Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) apontam caminhos institucionais distintos para enfrentar o problema. O argumento aqui defendido \u00e9 o de que o gargalo brasileiro est\u00e1 na aus\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias capazes de operacionalizar essa intera\u00e7\u00e3o em escala.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Primeiro, os disp\u00eandios em inova\u00e7\u00e3o est\u00e3o majoritariamente voltados para a aquisi\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas e equipamentos, ou seja, as empresas brasileiras compram inova\u00e7\u00e3o em vez de produzi-la. Segundo, apenas cerca de 3% das empresas inovadoras desenvolvem alguma coopera\u00e7\u00e3o com universidades.<\/p>\n<p>Em 2002, 8% dos grupos de pesquisa cadastrados no CNPq declaravam algum tipo de relacionamento com empresas; em 2010, esse n\u00famero havia subido para mais de 13%, chegando a 30% nas engenharias e 26% nas ci\u00eancias agr\u00e1rias.<\/p>\n<p>A intera\u00e7\u00e3o cresceu, mas o sistema continua produzindo pouca inova\u00e7\u00e3o. O problema n\u00e3o est\u00e1 apenas no n\u00edvel agregado da rela\u00e7\u00e3o entre os dois subsistemas, mas em outras dimens\u00f5es: a baixa demanda empresarial por conhecimento avan\u00e7ado, a estrutura produtiva pouco diversificada, a fragilidade do mercado de capital de risco e, sobretudo, a aus\u00eancia de mecanismos institucionais que traduzam a intera\u00e7\u00e3o pontual em rotinas sistem\u00e1ticas de gera\u00e7\u00e3o de tecnologia.<\/p>\n<p>Das aproximadamente mil patentes registradas pela Unicamp, apenas 87 (menos de 9%) foram licenciadas para empresas. No MIT, em um \u00fanico ano (2016), 30% das patentes registradas foram licenciadas. O contraste sugere que o problema brasileiro \u00e9 transferir o conhecimento patente\u00e1vel ao tecido produtivo. E aqui o argumento desloca-se, pois o gargalo fica na fragilidade institucional das pontes entre universidade e empresa.<\/p>\n<h2>Tr\u00eas caminhos de intermedia\u00e7\u00e3o: Embrapii, Porto Digital e CEIA<\/h2>\n<p>Criada em 2013, a Embrapii opera por meio de uma rede de Unidades credenciadas que desenvolvem projetos de P&amp;D sob demanda das empresas, na faixa de maturidade tecnol\u00f3gica entre TRL 3 e 6, ou seja, no chamado \u201cvale da morte\u201d da inova\u00e7\u00e3o. O modelo financeiro \u00e9 tripartite: a Embrapii aporta at\u00e9 1\/3 dos recursos (n\u00e3o reembols\u00e1veis), a empresa aporta no m\u00ednimo 1\/3 e a Unidade complementa.<\/p>\n<p>O dado mais relevante \u00e9 a mudan\u00e7a qualitativa que o modelo induz: a maioria dos projetos foca em inova\u00e7\u00e3o de produto (45%) e produto-processo (35,5%), invertendo o padr\u00e3o hist\u00f3rico das empresas brasileiras.<\/p>\n<p>O caso do Porto Digital. Lima et al. (2022) analisam um arranjo de natureza distinta: um parque tecnol\u00f3gico em Recife que, desde 2000, articula a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), via Centro de Inform\u00e1tica (CIn), governo estadual e iniciativa privada (com papel central do Cesar, instituto privado de inova\u00e7\u00e3o fundado em 1996).<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 eloquente: 39% das empresas embarcadas no parque afirmam que o ambiente universit\u00e1rio \u201calavancou\u201d seus neg\u00f3cios; 82% dos profissionais recrutados no parque s\u00e3o pernambucanos formados localmente; entre 2002 e 2004, o Cesar repassou R$ 1,5 milh\u00e3o ao CIn enquanto o repasse federal foi de apenas R$ 100 mil. A New Rizon atuou em projetos de blockchain em 2019 junto ao Cesar e a colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua com inova\u00e7\u00e3o vinda da academia fez o desafio do projeto ser encurtado. Aqui tamb\u00e9m, como na Embrapii, o que se v\u00ea \u00e9 uma engenharia institucional espec\u00edfica que viabiliza a rela\u00e7\u00e3o universidade-empresa. A diferen\u00e7a \u00e9 que, enquanto a Embrapii opera como rede nacional descentralizada, o Porto Digital opera como aglomera\u00e7\u00e3o territorial densa, sustentada por uma institui\u00e7\u00e3o-ponte (o Cesar) e por pol\u00edticas estaduais ativas.<\/p>\n<p>O caso do CEIA. Criado em 2019, em parceria entre o governo de Goi\u00e1s e a UFG, o Centro de Excel\u00eancia em Intelig\u00eancia Artificial nasceu com a intermedia\u00e7\u00e3o no desenho: o aporte inicial de R$ 12 milh\u00f5es foi condicionado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um curso superior de intelig\u00eancia artificial e \u00e0 capta\u00e7\u00e3o de recursos com o mercado (Fapeg, 2026). O curso se tornou o mais concorrido da universidade, superando medicina, e o centro opera como Unidade Embrapii desde 2020, com mais de 30 empresas parceiras (UFG, 2026).<\/p>\n<p>Os tr\u00eas casos compartilham uma mesma li\u00e7\u00e3o: a intera\u00e7\u00e3o universidade-empresa, no Brasil, exige uma camada institucional intermedi\u00e1ria, seja no formato de uma ag\u00eancia indutora (Embrapii), de um instituto-\u00e2ncora territorial (Cesar) ou de um centro universit\u00e1rio desenhado para a demanda (CEIA). Essa camada cumpre quatro fun\u00e7\u00f5es que nem a empresa nem a universidade conseguem cumprir sozinhas: redu\u00e7\u00e3o de risco financeiro e tecnol\u00f3gico, tradu\u00e7\u00e3o cognitiva entre as duas linguagens, agilidade contratual e governan\u00e7a compartilhada de longo prazo.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Sem uma institui\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a a tradu\u00e7\u00e3o, o projeto n\u00e3o acontece. \u00c9 justamente isso que Embrapii, Porto Digital e CEIA, cada um a seu modo, oferecem.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico do \u201celo fraco\u201d precisa ser revisitado. Ao colocar o foco no atributo errado, a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o, ele pode ter desviado a pol\u00edtica p\u00fablica do problema mais profundo: a aus\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es que viabilizam essa rela\u00e7\u00e3o em escala. Olhar para a Embrapii, o Porto Digital e o CEIA permite reformular a pergunta-chave: \u201cque institui\u00e7\u00f5es precisamos construir para que a aproxima\u00e7\u00e3o entre universidade e empresa produza inova\u00e7\u00e3o com impacto econ\u00f4mico e social?\u201d. A resposta est\u00e1 na engenharia institucional paciente e essa \u00e9 uma agenda que, em pleno debate sobre nova pol\u00edtica industrial e miss\u00f5es nacionais, est\u00e1 apenas come\u00e7ando.<\/p>\n<p>ARBIX, G.; SALERNO, M. S. (Orgs.). <em>Inova\u00e7\u00e3o: estrat\u00e9gias de sete pa\u00edses<\/em>. Bras\u00edlia: ABDI, 2010.<\/p>\n<p>DE NEGRI, F. <em>Novos caminhos para a inova\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>. Washington, DC: Wilson Center; Interfarma, 2018.<\/p>\n<p>EMBRAPII. <em>Embrapii em 2025: veja como foi nossa atua\u00e7\u00e3o<\/em>. Bras\u00edlia, 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/embrapii.org.br\/embrapii-em-2025\/<\/p>\n<p>FAPEG. <em>Centro de Excel\u00eancia em Intelig\u00eancia Artificial da UFG amplia atua\u00e7\u00e3o e chega \u00e0 Faculdade de Medicina<\/em>. Goi\u00e2nia, 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/goias.gov.br\/fapeg\/centro-de-excelencia-em-inteligencia-artificial-da-ufg-amplia-atuacao-e-chega-a-faculdade-de-medicina\/<\/p>\n<p>LIMA, J. P. R.; MOREIRA, T. M.; COSTA, A. M.; GATTO, M. F. Tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es e desenvolvimento local: o caso do Porto Digital \u2013 Recife. <em>Planejamento e Pol\u00edticas P\u00fablicas<\/em>, n. 62, p. 211-228, abr.\/jun. 2022.<\/p>\n<p>UFG. <em>Centro de Excel\u00eancia em Intelig\u00eancia Artificial (CEIA)<\/em>. Instituto de Inform\u00e1tica; <em>Lan\u00e7ada pedra fundamental do edif\u00edcio-sede do Ceia UFG<\/em>. Goi\u00e2nia, 2026. Dispon\u00edveis em: https:\/\/inf.ufg.br\/p\/39527-centro-de-excelencia-em-inteligencia-artificial-ceia e https:\/\/ufg.br\/n\/198253-lancada-pedra-fundamental-do-edificio-sede-do-ceia-ufg<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tese de que a rela\u00e7\u00e3o universidade-empresa \u00e9 o elo fraco do sistema brasileiro de inova\u00e7\u00e3o (SBI) \u00e9 talvez o diagn\u00f3stico mais repetido na literatura nacional sobre o tema. 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