{"id":24914,"date":"2026-08-03T14:03:10","date_gmt":"2026-08-03T17:03:10","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/03\/reforma-tributaria-e-pejotizacao-novo-arquetipo-das-sociedades-profissionais\/"},"modified":"2026-08-03T14:03:10","modified_gmt":"2026-08-03T17:03:10","slug":"reforma-tributaria-e-pejotizacao-novo-arquetipo-das-sociedades-profissionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/03\/reforma-tributaria-e-pejotizacao-novo-arquetipo-das-sociedades-profissionais\/","title":{"rendered":"Reforma tribut\u00e1ria e pejotiza\u00e7\u00e3o: novo arqu\u00e9tipo das sociedades profissionais"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 d\u00e9cadas o ordenamento jur\u00eddico brasileiro convive com uma omiss\u00e3o relevante: n\u00e3o h\u00e1, de forma positiva e expressa, defini\u00e7\u00e3o geral sobre o que seria uma contrata\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de servi\u00e7os profissionais por pessoa jur\u00eddica, dentro do que se passou a chamar de pejotiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As diretrizes que foram criadas ao longo do tempo sempre se contentaram em dizer o que essa estrutura n\u00e3o pode ser. A constru\u00e7\u00e3o do tema se deu invariavelmente por crit\u00e9rios negativos, como se constru\u00edsse uma lista do que n\u00e3o cabe, do que n\u00e3o se enquadra e do que descaracteriza a contrata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/tributos?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_tributos_q2&amp;utm_id=cta_texto_tributos_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_tributos&amp;utm_term=cta_texto_tributos_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Tributos, plataforma de monitoramento tribut\u00e1rio para empresas e escrit\u00f3rios com decis\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es do Carf, STJ e STF<\/span><\/a><\/p>\n<p>Dentro da perspectiva fiscal para fins de contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias (e reten\u00e7\u00e3o de imposto de renda na fonte), analisa-se a contrata\u00e7\u00e3o de pessoa jur\u00eddica de forma investigativa, indagando-se: h\u00e1, sob a roupagem societ\u00e1ria, subordina\u00e7\u00e3o, pessoalidade, habitualidade e onerosidade nos termos celetistas?<\/p>\n<p>Em caso afirmativo, declara-se o v\u00ednculo empregat\u00edcio e desconsidera-se a forma. No contencioso administrativo fiscal, a discuss\u00e3o frequentemente apresenta desfecho desfavor\u00e1vel aos contribuintes, ainda que diante da insufici\u00eancia de provas quanto \u00e0 presen\u00e7a de elementos t\u00edpicos da rela\u00e7\u00e3o de emprego.<\/p>\n<p>Mesmo o Supremo Tribunal Federal (STF), ao firmar marcos relevantes nessa mat\u00e9ria para fins trabalhistas, mas com invari\u00e1vel repercuss\u00e3o fiscal \u2014 Tema 725, ADPF 324 e, mais recentemente, o reconhecimento de repercuss\u00e3o geral no Tema 1.389 \u2014, seguiu pela via negativa: declarou l\u00edcita a contrata\u00e7\u00e3o via pessoa jur\u00eddica desde que ausentes os elementos t\u00edpicos de emprego. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente correta, mas n\u00e3o ajuda a resolver as situa\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A premissa subjacente \u00e9 a da liberdade contratual e da autonomia privada, modulada pela primazia da realidade. Em nenhum momento, contudo, houve, em termos afirmativos, qual seria o modelo padr\u00e3o de pessoa jur\u00eddica prestadora de servi\u00e7os profissionais merecedor de chancela positiva dentro do tema pejotiza\u00e7\u00e3o, o que certamente diminuiria a inseguran\u00e7a jur\u00eddica vivenciada no tema.<\/p>\n<p>Esse v\u00e1cuo definit\u00f3rio, mantido por d\u00e9cadas, recebeu novo elemento \u2014 discreto e talvez inadvertido \u2014 a partir da reforma tribut\u00e1ria do consumo. A Lei Complementar 214\/2025 reconheceu, para fins fiscais, a possibilidade de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os intelectuais por meio de pessoa jur\u00eddica. O artigo 127 da Lei, ao estabelecer um regime diferenciado com redu\u00e7\u00e3o de al\u00edquota, descreveu requisitos objetivos para que determinadas sociedades profissionais possam se beneficiar desse tratamento.<\/p>\n<p>O par\u00e1grafo 1\u00ba, inciso I, do mencionado artigo 127 trata da possibilidade de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os realizada por pessoa f\u00edsica sem a presen\u00e7a de v\u00ednculo empregat\u00edcio, tendo em vista que o artigo 6\u00ba disp\u00f5e que o IBS e a CBS n\u00e3o incidem sobre o fornecimento de servi\u00e7os por pessoa f\u00edsica com rela\u00e7\u00e3o de emprego.<\/p>\n<p>Por sua vez, o inciso II desse mesmo par\u00e1grafo 1\u00ba estabeleceu cinco requisitos cumulativos para o caso de presta\u00e7\u00e3o por pessoa jur\u00eddica: (i) s\u00f3cios com habilita\u00e7\u00f5es profissionais diretamente relacionadas aos objetivos da sociedade e submetidos \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o de conselho profissional; (ii) veda\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de pessoa jur\u00eddica como s\u00f3cia; (iii) veda\u00e7\u00e3o a que a sociedade seja s\u00f3cia de outra pessoa jur\u00eddica; (iv) impossibilidade de exercer atividade diversa das habilita\u00e7\u00f5es dos s\u00f3cios; e (v) presta\u00e7\u00e3o direta dos servi\u00e7os de atividade-fim pelos pr\u00f3prios s\u00f3cios, admitidos auxiliares e colaboradores.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira leitura, esses requisitos parecem mera condi\u00e7\u00e3o de frui\u00e7\u00e3o de um benef\u00edcio fiscal espec\u00edfico, sem pretens\u00e3o direta de produzir efeitos previdenci\u00e1rios. Contudo, a leitura mais atenta revela algo distinto: o legislador, ao detalhar com tanta min\u00facia o perfil da sociedade merecedora do redutor, acabou por desenhar \u2014 no \u00e2mbito da tributa\u00e7\u00e3o sobre consumo \u2014 um tipo ideal de pessoa jur\u00eddica de profissionais. E tipos ideais raramente permanecem confinados ao contexto que lhes deu origem.<\/p>\n<p>A proposi\u00e7\u00e3o central \u00e9 a de que esses cinco requisitos, somados, configuram aquilo que se pode designar como um arqu\u00e9tipo legal relevante de sociedade profissional prestadora de servi\u00e7os intelectuais, sem preju\u00edzo de que a legitimidade de outras estruturas tamb\u00e9m possa ser reconhecida caso n\u00e3o preenchidos todos esses requisitos.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o \u00e9 simultaneamente formal e material: do ponto de vista formal, exige composi\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria pura, sem s\u00f3cios capitalistas ou pessoas jur\u00eddicas, e isolamento patrimonial em rela\u00e7\u00e3o a outras sociedades; do ponto de vista material, exige unidade de objeto, vinculado \u00e0s habilita\u00e7\u00f5es profissionais dos s\u00f3cios, e presta\u00e7\u00e3o direta da atividade-fim por estes.<\/p>\n<p>A figura que emerge \u00e9 familiar: trata-se, em ess\u00eancia, da sociedade simples uniprofissional, categoria conhecida desde o Decreto-Lei 406\/1968 e amplamente trabalhada pela jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) e do STF a prop\u00f3sito do Imposto sobre Servi\u00e7os (ISS) e do conceito de elemento de empresa do artigo 966, par\u00e1grafo \u00fanico, do C\u00f3digo Civil.<\/p>\n<p>A novidade n\u00e3o est\u00e1 na figura em si, mas em sua nova dire\u00e7\u00e3o normativa. O que era debate municipal sobre o ISS, casu\u00edstico e dependente de jurisprud\u00eancia local, ganha agora, no \u00e2mbito do IBS e da CBS, uma formula\u00e7\u00e3o nacional em lei complementar. A consequ\u00eancia imediata, no plano da t\u00e9cnica legislativa, \u00e9 relevante: pela primeira vez, o ordenamento brasileiro descreveu, de forma positiva e expressa, um modelo de pessoa jur\u00eddica de profissionais prestadores de servi\u00e7os de natureza intelectual que considera apto a determinado tratamento tribut\u00e1rio. H\u00e1, ali, uma descri\u00e7\u00e3o normativa, n\u00e3o apenas aspectos excludentes.<\/p>\n<p>Os debates sobre o artigo 127 v\u00eam se concentrando nos efeitos econ\u00f4micos da redu\u00e7\u00e3o de al\u00edquota, no rol legal de profiss\u00f5es beneficiadas e na rigidez dos requisitos do par\u00e1grafo primeiro, inciso II, vistos como travas antielisivas destinadas a impedir o uso indevido do redutor por grandes estruturas empresariais. Contudo, o que ora se faz \u00e9 observar o artigo 127 para al\u00e9m do \u00e2mbito estrito do IBS e da CBS, vendo-o como elemento normativo de natureza tribut\u00e1ria que pode produzir reflexos interpretativos no debate previdenci\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/cadastro-em-newsletter-curadoria-jota-pro-tributos\">Receba de gra\u00e7a todas as sextas-feiras um resumo da semana tribut\u00e1ria no seu email<\/a><\/p>\n<p>Defini\u00e7\u00f5es nascidas em determinado contexto normativo t\u00eam tradicionalmente migrado para outros contextos, contaminando interpreta\u00e7\u00f5es e fundamentando autua\u00e7\u00f5es, sobretudo quando preenchem v\u00e1cuos definit\u00f3rios preexistentes. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 razo\u00e1vel antecipar que o arqu\u00e9tipo desenhado pelo artigo 127 n\u00e3o permanecer\u00e1 necessariamente confinado ao debate sobre o redutor de IBS e CBS.<\/p>\n<p>\u00c9 plaus\u00edvel que esse modelo passe a ser invocado como refer\u00eancia interpretativa em outras searas, como na qualifica\u00e7\u00e3o de estruturas de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os por pessoa jur\u00eddica para fins previdenci\u00e1rios, dentro das discuss\u00f5es sobre pejotiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O legislador, ao reconhecer a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os intelectuais por meio de pessoa jur\u00eddica e definir os requisitos necess\u00e1rios ao tratamento favorecido, passou, ainda que sem pretens\u00e3o declarada, a oferecer uma refer\u00eancia positiva para a identifica\u00e7\u00e3o de sociedades profissionais genu\u00ednas que exercem atividade intelectual, podendo legitimar a chamada pejotiza\u00e7\u00e3o.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 d\u00e9cadas o ordenamento jur\u00eddico brasileiro convive com uma omiss\u00e3o relevante: n\u00e3o h\u00e1, de forma positiva e expressa, defini\u00e7\u00e3o geral sobre o que seria uma contrata\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de servi\u00e7os profissionais por pessoa jur\u00eddica, dentro do que se passou a chamar de pejotiza\u00e7\u00e3o. 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