{"id":24897,"date":"2026-08-03T06:58:43","date_gmt":"2026-08-03T09:58:43","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/03\/advocacia-e-novas-geracoes-o-desafio-da-adaptacao-reciproca\/"},"modified":"2026-08-03T06:58:43","modified_gmt":"2026-08-03T09:58:43","slug":"advocacia-e-novas-geracoes-o-desafio-da-adaptacao-reciproca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/08\/03\/advocacia-e-novas-geracoes-o-desafio-da-adaptacao-reciproca\/","title":{"rendered":"Advocacia e novas gera\u00e7\u00f5es: o desafio da adapta\u00e7\u00e3o rec\u00edproca"},"content":{"rendered":"<p>Toda rotula\u00e7\u00e3o simplifica as experi\u00eancias. Todavia, convivemos com sucessivas formas das vidas universit\u00e1ria e profissional. Momentos hist\u00f3ricos distintos, cada vez mais breves, moldam diferentes h\u00e1bitos. \u00c9 interessante que nos apercebamos disso em vista de algumas peculiaridades marcantes das pessoas com quem coabitamos e daquelas que nos suceder\u00e3o.<\/p>\n<p>Mudou, e continua a mudar, a forma de se estudar, trabalhar, comunicar e de se relacionar com a autoridade. Nos meus quarenta anos de advocacia e doc\u00eancia, talvez a transforma\u00e7\u00e3o mais vis\u00edvel n\u00e3o tenha sido s\u00f3 a dos nomes das gera\u00e7\u00f5es, mas a velocidade com que elas passaram a conviver umas com as outras.<\/p>\n<p>Quem se formou em 1986 e come\u00e7ou a advogar em 1987, entrou numa profiss\u00e3o que, logo adiante, seria reordenada pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, em ambiente marcado pela redemocratiza\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de direitos. Essa viv\u00eancia andou calmamente at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 2000, com razo\u00e1vel expans\u00e3o legislativa e dos cursos de direito. Ent\u00e3o, fomos tomados de assalto pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Sobretudo a partir de 2006, os meios eletr\u00f4nicos de comunica\u00e7\u00e3o tornaram estrutural a virtualiza\u00e7\u00e3o das nossas atividades.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>No mesmo intervalo, o ambiente acad\u00eamico tamb\u00e9m se alterou. As <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/cne\/pdf\/normas-classificadas-por-assunto\/diretrizes-curriculares-cursos-de-graduacao\/rces005_18.pdf\">Diretrizes Curriculares de Direito<\/a>, revistas em 2018, nasceram sob a press\u00e3o de novas tecnologias e de um curr\u00edculo mais aderente \u00e0 pr\u00e1tica jur\u00eddica. Depois da pandemia, o <a href=\"https:\/\/www.in.gov.br\/en\/web\/dou\/-\/decreto-n-12.456-de-19-de-maio-de-2025-630398639\">Decreto 12.456, de 2025<\/a>, reverteu a pr\u00e1tica do curso de gradua\u00e7\u00e3o 100% online, sinalizando que, mesmo em plena era digital, o sistema educacional brasileiro valoriza a presen\u00e7a e a media\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica mais densa (ainda assim, h\u00e1 alunos e alunas que respiram no ambiente digital, distanciando-se mesmo dentro da sala de aula).<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a transversal, muito relevante: os cursos e a profiss\u00e3o tornaram-se mais diversificados. O primeiro <a href=\"https:\/\/s.oab.org.br\/arquivos\/2024\/04\/68f66ec3-1485-42c9-809d-02b938b88f96.pdf\">estudo demogr\u00e1fico da OAB<\/a> mostrou, em 2024, que a advocacia brasileira \u00e9 majoritariamente feminina e que as advogadas s\u00e3o, em m\u00e9dia, mais jovens do que os advogados. Isso significa que o tema geracional n\u00e3o pode mais ser pensado isoladamente. Ele se cruza com g\u00eanero, territ\u00f3rio, renda, acessibilidade, neurodiverg\u00eancia e inclus\u00e3o digital. A advocacia, hoje, demanda adapta\u00e7\u00e3o a uma profiss\u00e3o mais plural.<\/p>\n<p>Tudo isso a conviver com mudan\u00e7as de repert\u00f3rios que n\u00e3o s\u00e3o mais os mesmos de uma gera\u00e7\u00e3o para a outra, mas, \u00e0s vezes, s\u00e3o de uma turma para a seguinte em dois semestres. Antes, professores e professoras formavam uma turma, depois outra, e a mudan\u00e7a vinha em ritmo quase biol\u00f3gico. Hoje, n\u00e3o \u00e9 assim. O intervalo entre uma sensibilidade e outra encurtou. N\u00e3o porque as pessoas tenham mudado mais depressa, mas devido ao fato de que o mundo em volta delas se transformou antes que elas terminassem de entrar nele. As gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o diversas, convivem e precisam se entender. Mas, quais seriam essas gera\u00e7\u00f5es? Em termos simplificados, poder\u00edamos descrever quatro delas.<\/p>\n<p>A <em>gera\u00e7\u00e3o silenciosa<\/em>, integrada por nascidos entre 1928 e 1945, estava presente no meio jur\u00eddico quando algu\u00e9m come\u00e7ou a advogar em 1987. O seu tra\u00e7o mais vis\u00edvel, tomado com cautela, era a institucionalidade majoritariamente masculina: respeito \u00e0 forma e \u00e0 hierarquia, sobriedade de linguagem, disciplina na rotina e uma compreens\u00e3o das profiss\u00f5es como of\u00edcio de longa dura\u00e7\u00e3o. O contexto que ajuda a explicar isso \u00e9 conhecido: inf\u00e2ncia na Grande Depress\u00e3o ou nas Grandes Guerras, entrada na vida adulta no p\u00f3s-guerra e um imagin\u00e1rio de conformidade c\u00edvica. Na advocacia, isso se traduzia em rever\u00eancia \u00e0 liturgia, centralidade da biblioteca, aprendizado por observa\u00e7\u00e3o passiva e progress\u00e3o lenta de autoridade.<\/p>\n<p>Os <em>baby boomers<\/em>, nascidos entre 1946 e 1964, dominaram por muitos anos os quadros da advocacia e do ensino jur\u00eddico. Aqui, percebe-se a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho como eixo identit\u00e1rio, a cren\u00e7a em carreiras longas, o investimento em reputa\u00e7\u00e3o e o senso de responsabilidade institucional. Os <em>boomers<\/em> foram moldados por um p\u00f3s-guerra expansivo, pela massifica\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o em um mundo profissional ainda organizado em hierarquias est\u00e1veis. No direito, isso coincidiu com a advocacia de papel (datilografado e, depois, impresso), de presen\u00e7a f\u00edsica e de ascens\u00e3o baseada em tempo, confian\u00e7a e capacidade de suportar demora.<\/p>\n<p>A <em>gera\u00e7\u00e3o X<\/em>, situada entre 1965 e 1980, tornou-se a grande ponte da profiss\u00e3o entre <em>boomers<\/em> e <em>millennials<\/em>. Aprendeu no anal\u00f3gico, amadureceu com a revolu\u00e7\u00e3o digital e traduz um mundo ao outro. Seu tra\u00e7o \u00e9 a adaptabilidade: menos nostalgia combinada com baixo fasc\u00ednio pela velocidade do presente. Re\u00fane autonomia, capacidade operacional e aptid\u00e3o para fazer a travessia entre o arquivo f\u00edsico e a nuvem.<\/p>\n<p>Os <em>millennials<\/em>, vindos entre 1981 e 1996, chegaram em massa j\u00e1 no ambiente virtual (internet, e-mail, bases digitais e comunica\u00e7\u00e3o horizontal). O que os singulariza \u00e9 a conectividade: passaram \u00e0 vida adulta com maior escolariza\u00e7\u00e3o e diversidade do que as anteriores e, no mercado de trabalho, aparecem associados \u00e0 busca por significado, flexibilidade e reconhecimento (n\u00e3o somente a ascens\u00e3o linear). O que ajuda a explicar a prefer\u00eancia por feedbacks frequentes, forma\u00e7\u00e3o continuada, cultura menos opaca de escrit\u00f3rio e maior conforto com situa\u00e7\u00f5es colaborativas.<\/p>\n<p>A <em>gera\u00e7\u00e3o Z<\/em>, nascida a partir de 1997, \u00e9 a que come\u00e7a a entrar de modo mais n\u00edtido na advocacia a partir de 2020. O seu ponto de partida \u00e9 a tecnologia: smartphones, plataformas, v\u00eddeos curtos, pandemia, ensino remoto e a IA generativa. Sua mem\u00f3ria \u00e9 toda deste s\u00e9culo 21: s\u00e3o nativos do planeta digital. Come\u00e7ando agora nas profiss\u00f5es jur\u00eddicas, t\u00eam a tarefa de conferir legibilidade contempor\u00e2nea a um mundo antigo, que \u00e9 aplicado no modo digital, mas lecionado e ao vivo e impresso em preto e branco.<\/p>\n<p>Ou seja, convivemos ativamente com m\u00faltiplas gera\u00e7\u00f5es diferentes entre si. Os mais velhos trabalhando mais tempo e os mais jovens a expressar como o mundo se transforma depressa demais. Afinal, se a televis\u00e3o moldou os <em>boomers<\/em> e a revolu\u00e7\u00e3o do computador marcou a <em>gera\u00e7\u00e3o X<\/em>, a explos\u00e3o da internet caracterizou os <em>millennials<\/em> e as redes sociais e smartphones se tornaram o pano de fundo da <em>gera\u00e7\u00e3o Z<\/em>. Quando isso se combina com um Judici\u00e1rio profundamente digitalizado, com escolas conectadas e a r\u00e1pida incorpora\u00e7\u00e3o da IA, o intervalo subjetivo entre seniores e iniciantes se encurta.<\/p>\n<p>Exatamente a\u00ed est\u00e1 um dos grandes desafios dos nossos tempos: os dados formativos de uma gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o duram tanto nem se integram com perfei\u00e7\u00e3o \u00e0s subsequentes. Por exemplo, a autoridade do professor e do advogado experiente continua necess\u00e1ria, mas n\u00e3o funciona do mesmo modo quando a informa\u00e7\u00e3o passou a ser excessiva. Estudantes ou jovens advogadas e advogados aceitam ser exigidos, ao mesmo tempo em que demandam explica\u00e7\u00e3o para a hierarquia e a cr\u00edtica com devolutiva intelig\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas, nem todos n\u00f3s fomos treinados para compreender esses dilemas. O mais comum \u00e9 cair na tenta\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo apressado que recha\u00e7a o novo por ser supostamente incompreens\u00edvel, quando o que existe s\u00e3o experi\u00eancias hist\u00f3ricas diferentes. Quem foi forjado a ferro e fogo, na escassez de informa\u00e7\u00e3o, tende a valorizar a curadoria, a espera, a hierarquia do tempo. Quem foi formado no excesso de informa\u00e7\u00e3o tende a pedir clareza, devolutiva, m\u00e9todo e algum sentido para o esfor\u00e7o. Nenhum desses impulsos \u00e9, por si, um defeito moral, mas precisam ser percebidos de modo construtivo. Refutar o incompreendido tende a bloquear o futuro, tornando as gera\u00e7\u00f5es mais jovens ref\u00e9ns de uma era de ouro que jamais existiu.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Talvez a boa adapta\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es comece pela conscientiza\u00e7\u00e3o da necessidade de uma pequena ren\u00fancia de parte a parte (que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil). Os mais velhos precisam abrir m\u00e3o do monop\u00f3lio do modo certo de trabalhar e, os mais novos, da ilus\u00e3o de que todo rito \u00e9 atraso. A profiss\u00e3o perde quando transforma experi\u00eancia em soberba ou novidade em vaidade.<\/p>\n<p>Mas, quem sabe, o tema das gera\u00e7\u00f5es seja menor do que parece. Ele importa, sim, mas apenas at\u00e9 o ponto em que nos ajuda a compreender como cada um foi moldado por seu tempo. Depois disso, h\u00e1 algo mais exigente e mais simples. A advocacia continua a pedir estudo, \u00e9tica, lealdade, discri\u00e7\u00e3o e responsabilidade. O dever de honrar a profiss\u00e3o n\u00e3o se submete a modismos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda rotula\u00e7\u00e3o simplifica as experi\u00eancias. Todavia, convivemos com sucessivas formas das vidas universit\u00e1ria e profissional. Momentos hist\u00f3ricos distintos, cada vez mais breves, moldam diferentes h\u00e1bitos. \u00c9 interessante que nos apercebamos disso em vista de algumas peculiaridades marcantes das pessoas com quem coabitamos e daquelas que nos suceder\u00e3o. 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