{"id":24828,"date":"2026-07-30T05:58:50","date_gmt":"2026-07-30T08:58:50","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/30\/o-decreto-brasileiro-que-copia-o-problema-europeu-da-moderacao-de-conteudo\/"},"modified":"2026-07-30T05:58:50","modified_gmt":"2026-07-30T08:58:50","slug":"o-decreto-brasileiro-que-copia-o-problema-europeu-da-moderacao-de-conteudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/30\/o-decreto-brasileiro-que-copia-o-problema-europeu-da-moderacao-de-conteudo\/","title":{"rendered":"O decreto brasileiro que copia o problema europeu da modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado"},"content":{"rendered":"<p>Todo campo t\u00e9cnico maduro parte de um princ\u00edpio elementar: erros documentados n\u00e3o devem ser repetidos. Na avia\u00e7\u00e3o, cada acidente altera protocolos; na engenharia civil, cada falha estrutural \u00e9 incorporada aos manuais de projeto.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o deveria funcionar da mesma forma: experi\u00eancias anteriores servem n\u00e3o apenas de inspira\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de advert\u00eancia. Isto \u00e9, quando um modelo j\u00e1 revelou fragilidades e despertou cr\u00edticas consistentes, cabe ao regulador estud\u00e1-las, corrigi-las e evitar sua reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi isso que fez o governo brasileiro, no entanto. Por meio do Decreto 12.975\/2026, o Executivo optou por reproduzir o modelo europeu de regula\u00e7\u00e3o de plataformas digitais \u2013 o Digital Services Act \u2013 cujas fragilidades j\u00e1 eram conhecidas e criticadas.<\/p>\n<p>A escolha desse transplante jur\u00eddico recaiu justamente sobre um dos pontos mais controversos do DSA: o regime de gest\u00e3o de riscos sist\u00eamicos dos arts. 34 e 35, incorporado via decreto \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o do Marco Civil da Internet pelos novos arts. 16-B e 16-C.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Esses artigos obrigam grandes plataformas a identificar, avaliar e mitigar \u201criscos sist\u00eamicos\u201d. O conceito \u00e9 deliberadamente aberto, incluindo entre esses riscos efeitos negativos sobre os direitos fundamentais, os processos eleitorais, o debate c\u00edvico, a sa\u00fade p\u00fablica e o bem-estar f\u00edsico e mental.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe, portanto, uma lista fechada de conte\u00fados proibidos, apenas uma obriga\u00e7\u00e3o permanente de demonstrar ao regulador que a plataforma identificou riscos e adotou provid\u00eancias para reduzi-los. Em outras palavras, ela deixa de ser cobrada apenas pela forma como reage a conte\u00fados il\u00edcitos e passa a responder tamb\u00e9m pelos efeitos sociais que o regulador entender que seu funcionamento pode produzir. \u00c9 essa a virada central do modelo: da l\u00f3gica reativa, que pune o conte\u00fado ilegal j\u00e1 publicado, para uma l\u00f3gica preventiva, que cobra a antecipa\u00e7\u00e3o de riscos futuros.<\/p>\n<p>Foi justamente essa abertura que despertou cr\u00edticas na Europa. O pesquisador Seamus Allen alerta que a amplitude interpretativa dos arts. 34 e 35 do DSA permite a supress\u00e3o de discurso pol\u00edtico leg\u00edtimo sob a justificativa de proteger o debate c\u00edvico. Ao mesmo tempo, Marcella Atzori sustenta que express\u00f5es amplas como \u201cefeitos negativos sobre o discurso c\u00edvico\u201d conferem discricionariedade excessiva \u00e0s autoridades e pressionam as plataformas a adotar par\u00e2metros de modera\u00e7\u00e3o mais restritivos.<\/p>\n<p>O ponto mais delicado, contudo, est\u00e1 na fronteira entre conte\u00fado il\u00edcito e conte\u00fado apenas considerado nocivo. Quando a responsabilidade deixa de depender de uma publica\u00e7\u00e3o ilegal e passa a incluir riscos futuros ao debate c\u00edvico, \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica ou aos processos eleitorais, torna-se menos claro onde termina a gest\u00e3o leg\u00edtima de riscos e come\u00e7a a interfer\u00eancia sobre o discurso permitido. Como sustentam os pesquisadores, quanto mais vaga a obriga\u00e7\u00e3o, maior o espa\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o do regulador e, consequentemente, maior o incentivo para que a plataforma se proteja pelo excesso.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente a\u00ed que o c\u00e1lculo muda. Diante de um v\u00eddeo pol\u00edtico controverso, de uma den\u00fancia contra uma autoridade ou de um meme cuja interpreta\u00e7\u00e3o dependa de contexto, a pergunta deixa de ser apenas se o conte\u00fado \u00e9 l\u00edcito; passa a ser outra: se amanh\u00e3 o regulador entender que essa publica\u00e7\u00e3o contribu\u00eda para um \u201crisco sist\u00eamico\u201d, conseguiremos justificar por que ela permaneceu no ar?<\/p>\n<p>Sob esse regime regulat\u00f3rio, manter um conte\u00fado potencialmente controverso pode gerar san\u00e7\u00f5es ou questionamentos regulat\u00f3rios, enquanto remov\u00ea-lo dificilmente produz consequ\u00eancia equivalente. A remo\u00e7\u00e3o preventiva torna-se, nesse sentido, a escolha menos arriscada. A literatura descreve esse mecanismo como o efeito <em>better safe than sorry<\/em>: diante da d\u00favida, \u00e9 mais seguro retirar do que manter.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o nasce da m\u00e1-f\u00e9 das plataformas, mas sim dos incentivos que a pr\u00f3pria regula\u00e7\u00e3o cria. O efeito tampouco se distribui de maneira neutra. Ele atinge sobretudo o discurso que vive de contexto: humor, s\u00e1tira, cr\u00edtica pol\u00edtica, jornalismo investigativo, linguagem coloquial e express\u00f5es reapropriadas por grupos historicamente discriminados, j\u00e1 que sistemas automatizados t\u00eam dificuldade para reconhecer esses tipos de enquadramento. Portanto, quando o incentivo regulat\u00f3rio \u00e9 errar pelo excesso, essas limita\u00e7\u00f5es deixam de produzir falhas aleat\u00f3rias e passam a atingir desproporcionalmente grupos e discursos j\u00e1 marginalizados.<\/p>\n<p>O Decreto 12.975 reproduz essa arquitetura: o novo art. 16-C exige que os provedores monitorem, identifiquem, avaliem e fa\u00e7am a gest\u00e3o dos riscos sist\u00eamicos criados ou potencializados por suas atividades ou pela circula\u00e7\u00e3o de determinados conte\u00fados. O art. 16-B, por sua vez, associa a chamada \u201cfalha sist\u00eamica\u201d \u00e0 aus\u00eancia de medidas adequadas de preven\u00e7\u00e3o ou remo\u00e7\u00e3o. A supervis\u00e3o do novo regime \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 Autoridade Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (ANPD), nos termos do art. 19-A.<\/p>\n<p>A semelhan\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 apenas na linguagem, mas no desenho institucional. Nos dois modelos, a fiscaliza\u00e7\u00e3o deixa de se limitar \u00e0 rea\u00e7\u00e3o diante de conte\u00fados individualizados e passa a alcan\u00e7ar a administra\u00e7\u00e3o permanente de riscos difusos. Ao importar essa arquitetura, o governo brasileiro trouxe consigo tamb\u00e9m a controv\u00e9rsia que a acompanha: o incentivo \u00e0 remo\u00e7\u00e3o preventiva de conte\u00fado l\u00edcito.<\/p>\n<p>H\u00e1 um segundo problema, menos t\u00e9cnico e mais institucional. Uma mudan\u00e7a dessa dimens\u00e3o foi feita por decreto. O governo n\u00e3o apenas incorporou ao direito brasileiro um modelo capaz de influenciar a circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fado; fez isso sem submeter ao Congresso a decis\u00e3o sobre quais riscos justificam interven\u00e7\u00e3o, quais limites devem conter o regulador e quais garantias devem proteger o discurso l\u00edcito.<\/p>\n<p>Esse atalho importa porque uma regra baseada em conceito indeterminado n\u00e3o pertence ao governo que a editou \u2013 passa a integrar o aparato permanente do Estado. Hoje, \u201crisco sist\u00eamico\u201d ser\u00e1 interpretado pelos crit\u00e9rios da atual administra\u00e7\u00e3o; amanh\u00e3, pelos crit\u00e9rios de quem a suceder, seja qual for seu espectro pol\u00edtico. Sem uma defini\u00e7\u00e3o clara, o mecanismo deixa de ser apenas uma ferramenta para enfrentar problemas concretos e passa a conceder ao regulador da vez uma margem ampla para definir quais discursos representam um risco que precisa ser mitigado.<\/p>\n<p>O Executivo, portanto, importou por decreto um dos n\u00facleos mais sens\u00edveis do DSA, cuja amplitude e incid\u00eancia sobre conte\u00fados l\u00edcitos continuam sendo objeto de controv\u00e9rsia, dispensando o debate legislativo que uma escolha dessa natureza exigia.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o decreto j\u00e1 enfrenta rea\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional, onde tramitam projetos para sustar seus efeitos. A discuss\u00e3o vai al\u00e9m do m\u00e9rito da regula\u00e7\u00e3o: est\u00e1 em jogo quem deve decidir uma mudan\u00e7a dessa magnitude. Se o pa\u00eds pretende adotar um novo regime para a circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fado na internet, essa escolha deve ser feita pelo Poder Legislativo, ap\u00f3s debate p\u00fablico e delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, e n\u00e3o por um ato unilateral do Executivo.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Regular plataformas digitais \u00e9 uma agenda leg\u00edtima. Num regime democr\u00e1tico, o Congresso pode concluir, depois de amplo debate, que o Brasil deve adotar um regime semelhante ao europeu. Pode estabelecer deveres de avalia\u00e7\u00e3o de riscos, mecanismos de transpar\u00eancia e medidas de prote\u00e7\u00e3o aos usu\u00e1rios. Mas deve definir, em lei, os limites dessas obriga\u00e7\u00f5es, as garantias aplic\u00e1veis ao conte\u00fado l\u00edcito e os controles sobre a atua\u00e7\u00e3o do regulador.<\/p>\n<p>A boa regula\u00e7\u00e3o aprende com modelos que j\u00e1 revelaram suas fragilidades. O problema do Decreto 12.975 n\u00e3o \u00e9 apenas importar uma solu\u00e7\u00e3o europeia \u2014 \u00e9 importar, por decreto, justamente a parte dela que a pr\u00f3pria Europa ainda discute como aplicar sem sacrificar a liberdade de express\u00e3o.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo campo t\u00e9cnico maduro parte de um princ\u00edpio elementar: erros documentados n\u00e3o devem ser repetidos. Na avia\u00e7\u00e3o, cada acidente altera protocolos; na engenharia civil, cada falha estrutural \u00e9 incorporada aos manuais de projeto. 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