{"id":24822,"date":"2026-07-30T05:58:50","date_gmt":"2026-07-30T08:58:50","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/30\/quando-os-institutos-de-pesquisa-disputam-os-mesmos-eleitores\/"},"modified":"2026-07-30T05:58:50","modified_gmt":"2026-07-30T08:58:50","slug":"quando-os-institutos-de-pesquisa-disputam-os-mesmos-eleitores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/30\/quando-os-institutos-de-pesquisa-disputam-os-mesmos-eleitores\/","title":{"rendered":"Quando os institutos de pesquisa disputam os mesmos eleitores"},"content":{"rendered":"<p class=\"isselectedend\">A discuss\u00e3o sobre a confiabilidade das pesquisas eleitorais costuma concentrar-se na compara\u00e7\u00e3o entre institutos ou na diferen\u00e7a entre os percentuais estimados e os resultados das urnas. Esse debate, embora relevante, obscurece uma transforma\u00e7\u00e3o mais profunda: a mudan\u00e7a estrutural do mercado de pesquisas eleitorais no Brasil.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Desde a posse do presidente <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/lula\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a>, em janeiro de 2023, o pa\u00eds passou a conviver com um fluxo praticamente cont\u00ednuo de pesquisas sobre a sucess\u00e3o presidencial de 2026. Em 2023 surgiram os primeiros cen\u00e1rios; em 2024, ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es municipais, os levantamentos tornaram-se mais frequentes; em 2025, passaram a ser regulares; e, em 2026, transformaram-se em rotina.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/24-03-2026-rdstation-lp-jota-pro-eleicoes-conversao-mql-marketing?utm_source=direct&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=aon-materias-eleicoes-lead-marketing\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Elei\u00e7\u00f5es, cobertura eleitoral especial do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Segundo o Agregador de Pesquisas Eleitorais 2026 da DataPolicy, entre janeiro e junho deste ano foram realizadas 69 pesquisas nacionais de inten\u00e7\u00e3o de voto para presidente, conduzidas por 19 institutos diferentes e registradas no Tribunal Superior Eleitoral (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/tse\">TSE<\/a>). Nunca se pesquisou tanto, durante tanto tempo e por tantos institutos uma mesma elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Esse ambiente difere substancialmente daquele analisado pelos principais estudos sobre a precis\u00e3o das pesquisas eleitorais brasileiras, como \u00e9 o trabalho de Wladimir Gramacho (2013), ao examinar as elei\u00e7\u00f5es de 2010, que estudou um contexto em que predominavam as entrevistas presenciais.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Assim \u00e9 tamb\u00e9m o trabalho de Fernando Meireles e Guilherme Russo (2022), ao analisarem mais de duas mil pesquisas realizadas entre 2012 e 2020, onde encontraram um mercado ainda fortemente baseado em entrevistas presenciais, embora j\u00e1 em transi\u00e7\u00e3o para modalidades telef\u00f4nicas.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Os dois estudos demonstraram que as pesquisas brasileiras apresentam n\u00edveis de precis\u00e3o compat\u00edveis com os documentados pela literatura internacional, sobretudo nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e nas semanas finais da campanha, sem evid\u00eancias de vi\u00e9s partid\u00e1rio sistem\u00e1tico. Em conjunto, os dois trabalhos indicam que a magnitude dos erros de estima\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 semelhante \u00e0 observada em outros pa\u00edses, sugerindo que os desafios metodol\u00f3gicos enfrentados pelos institutos brasileiros n\u00e3o diferem substancialmente daqueles relatados pela literatura internacional.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Desde ent\u00e3o, por\u00e9m, a transforma\u00e7\u00e3o foi al\u00e9m da incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias de coleta de dados. Formou-se um novo ecossistema de pesquisas eleitorais, marcado pela expans\u00e3o das entrevistas por telefone celular, dos pain\u00e9is on-line, dos aplicativos e das redes sociais, pela entrada de novos institutos e pela divulga\u00e7\u00e3o quase permanente de levantamentos. Como consequ\u00eancia, alteraram-se as condi\u00e7\u00f5es sob as quais as pesquisas s\u00e3o produzidas, comparadas e avaliadas.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Essa transforma\u00e7\u00e3o dialoga com uma agenda consolidada da metodologia de <em>surveys<\/em>. Desde os trabalhos de Robert Groves e Mick Couper, a literatura internacional chama aten\u00e7\u00e3o para a queda das taxas de resposta \u00e0s pesquisas de opini\u00e3o e para o risco de que determinados grupos da popula\u00e7\u00e3o passem a participar menos dos levantamentos, comprometendo a representatividade das amostras. Essa discuss\u00e3o foi posteriormente aprofundada por autores como Don Dillman, Roger Tourangeau e Jelke Bethlehem, especialmente diante da expans\u00e3o das pesquisas telef\u00f4nicas e pela internet.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">No contexto brasileiro, essa perspectiva ainda recebeu pouca aten\u00e7\u00e3o. Embora o eleitorado supere 150 milh\u00f5es de pessoas, o universo de cidad\u00e3os efetivamente acess\u00edveis e dispostos a responder pesquisas pode tornar-se cada vez mais restrito. Em um ambiente de campanha praticamente permanente, dezenas de institutos realizam levantamentos sucessivos durante anos, disputando um mesmo conjunto de respondentes.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">H\u00e1 ainda outra mudan\u00e7a importante. Al\u00e9m dos tradicionais contratantes \u2014 partidos pol\u00edticos, ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil \u2014 institui\u00e7\u00f5es financeiras, gestoras de recursos, consultorias econ\u00f4micas e consultorias de an\u00e1lise de conjuntura, passaram a demandar pesquisas eleitorais com frequ\u00eancia crescente.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Embora isso tamb\u00e9m ocorra em outras democracias, no Brasil a intensidade parece incomum, e muitos desses levantamentos acabam sendo divulgados publicamente. As pesquisas deixaram de servir apenas \u00e0 estrat\u00e9gia eleitoral ou \u00e0 informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica. Tornaram-se tamb\u00e9m insumos para proje\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, avalia\u00e7\u00e3o de riscos pol\u00edticos e decis\u00f5es de investimento, ampliando ainda mais a demanda por levantamentos ao longo de todo o ciclo pol\u00edtico.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Nesse novo contexto, em que se verifica a multiplica\u00e7\u00e3o dos institutos, a realiza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de levantamentos, isso faz com que diferentes organiza\u00e7\u00f5es passem a disputar, simultaneamente, um universo relativamente limitado de pessoas dispostas a participar das pesquisas. Quanto maior a quantidade de levantamentos realizados ao longo de um mesmo ciclo eleitoral, maior tende a ser a probabilidade de diferentes institutos recorrerem, repetidamente, a perfis semelhantes de respondentes.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Essa mudan\u00e7a desloca o foco tradicional da an\u00e1lise das pesquisas eleitorais. O desafio j\u00e1 n\u00e3o consiste apenas em escolher entre levantamentos presenciais, telef\u00f4nicos ou on-line, nem em comparar qual instituto produz a estimativa mais pr\u00f3xima do resultado das urnas. Passa tamb\u00e9m por compreender como a transforma\u00e7\u00e3o do mercado de pesquisas eleitorais pode afetar a composi\u00e7\u00e3o das amostras e, consequentemente, a capacidade de captar mudan\u00e7as nas prefer\u00eancias do eleitorado.<\/p>\n<p class=\"isselectedend\">Em um contexto de intensa competi\u00e7\u00e3o por um conjunto relativamente limitado de respondentes, diferentes institutos tendem a recorrer a perfis cada vez mais semelhantes, aumentando a sobreposi\u00e7\u00e3o entre as amostras, reduzindo sua diversidade efetiva e ampliando o risco de vieses de sele\u00e7\u00e3o, mesmo quando cada levantamento, considerado isoladamente, observa procedimentos metodol\u00f3gicos adequados.<\/p>\n<p>As pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos indispens\u00e1veis para compreender o comportamento do eleitorado e, historicamente, t\u00eam produzido estimativas confi\u00e1veis nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais. O desafio contempor\u00e2neo talvez seja interpretar as pesquisas \u00e0 luz de um mercado que mudou profundamente. Nunca houve tantos levantamentos, tantos institutos e tantos demandantes por informa\u00e7\u00f5es eleitorais.<\/p>\n<p>Se essa nova configura\u00e7\u00e3o do mercado de pesquisas eleitorais altera a forma como os respondentes s\u00e3o continuamente mobilizados, talvez seja necess\u00e1rio ampliar o debate. Mais do que perguntar qual instituto acerta mais, ser\u00e1 preciso compreender como a pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o desse mercado pode influenciar a qualidade das estimativas e a capacidade das pesquisas de acompanhar uma opini\u00e3o p\u00fablica em constante movimento.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>O mercado de pesquisas eleitorais e de opini\u00e3o dificilmente perder\u00e1 relev\u00e2ncia. Al\u00e9m da realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es a cada dois anos, partidos, governos, empresas e organiza\u00e7\u00f5es dependem continuamente dessas pesquisas para acompanhar o humor da opini\u00e3o p\u00fablica e orientar suas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Entretanto, essa demanda crescente ocorre em um momento de profunda transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, no qual os m\u00e9todos tradicionais de coleta de dados v\u00eam sendo substitu\u00eddos por novas modalidades de pesquisa. O resultado \u00e9 um cen\u00e1rio em que diferentes estrat\u00e9gias de pesquisa passam a competir por um conjunto relativamente restrito de respondentes, aumentando a probabilidade de estimativas divergentes e tornando mais complexa a avalia\u00e7\u00e3o da qualidade dos levantamentos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A discuss\u00e3o sobre a confiabilidade das pesquisas eleitorais costuma concentrar-se na compara\u00e7\u00e3o entre institutos ou na diferen\u00e7a entre os percentuais estimados e os resultados das urnas. Esse debate, embora relevante, obscurece uma transforma\u00e7\u00e3o mais profunda: a mudan\u00e7a estrutural do mercado de pesquisas eleitorais no Brasil. Desde a posse do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24822"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24822"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24822\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}