{"id":24784,"date":"2026-07-29T05:58:19","date_gmt":"2026-07-29T08:58:19","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/29\/a-copa-migrou-para-o-digital-e-ficaram-aprendizados-para-a-regulacao\/"},"modified":"2026-07-29T05:58:19","modified_gmt":"2026-07-29T08:58:19","slug":"a-copa-migrou-para-o-digital-e-ficaram-aprendizados-para-a-regulacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/29\/a-copa-migrou-para-o-digital-e-ficaram-aprendizados-para-a-regulacao\/","title":{"rendered":"A Copa migrou para o digital \u2014 e ficaram aprendizados para a regula\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A Copa do Mundo de 2026 terminou, mas deixou um retrato antecipado do futuro da m\u00eddia brasileira. Na d\u00e9cada passada, o YouTube perseguiu atributos historicamente associados \u00e0 televis\u00e3o: conte\u00fado profissional, grandes direitos esportivos, anunciantes nacionais e audi\u00eancia de massa \u2014 e a tela grande superou celular e desktop para virar o principal ponto de acesso do site, que completa 21 anos em 2026.<\/p>\n<p>Agora o movimento se inverte. Com a TV 3.0, a televis\u00e3o aberta vai come\u00e7ar a incorporar aplicativos, personaliza\u00e7\u00e3o, dados e interatividade \u2014 os tra\u00e7os que ajudaram as plataformas a crescer. E essa virada n\u00e3o \u00e9 apenas tecnol\u00f3gica: quando a televis\u00e3o se aproxima das plataformas, os debates sobre publicidade, tratamento de dados, modera\u00e7\u00e3o e responsabilidade deixam de pertencer s\u00f3 \u00e0 internet. A Copa ofereceu exemplos concretos dessa converg\u00eancia.<\/p>\n<h2><strong>A gratuidade mudou de endere\u00e7o<\/strong><\/h2>\n<p>Entre os 216 territ\u00f3rios licenciados pela FIFA, o Brasil foi o \u00fanico onde todos os jogos puderam ser vistos de gra\u00e7a pelo YouTube, no canal da Caz\u00e9TV. A opera\u00e7\u00e3o movimentou cerca de R$ 2 bilh\u00f5es em patroc\u00ednios, com cotas principais estimadas em R$ 185 milh\u00f5es, e hoje os v\u00eddeos do canal ocupam as 28 primeiras posi\u00e7\u00f5es entre as maiores lives da hist\u00f3ria do YouTube. N\u00e3o \u00e9 um feito pequeno.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaFvFd73rZZflK7yGD0I\">Inscreva-se no canal de not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no WhatsApp e fique por dentro das principais discuss\u00f5es do pa\u00eds!<\/a><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, por\u00e9m, que a internet substituiu a televis\u00e3o. O acesso digital depende de conex\u00e3o e equipamentos que ainda s\u00e3o desiguais, e a publicidade sozinha n\u00e3o sustenta todo tipo de conte\u00fado profissional. Mas a experi\u00eancia brasileira enfraquece a ideia de que acesso gratuito, grandes anunciantes e audi\u00eancia nacional s\u00e3o atributos exclusivos da radiodifus\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a acontece no momento em que a pr\u00f3pria televis\u00e3o aberta se transforma. O Decreto n\u00ba 12.595\/2025 instituiu a TV 3.0 e, com isso, um novo padr\u00e3o tecnol\u00f3gico que possibilitar\u00e1 interfaces baseadas em aplicativos, personaliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fado e de publicidade, segmenta\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e funcionalidades interativas, como coment\u00e1rios e chat ao vivo.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o trar\u00e1 benef\u00edcios e mudan\u00e7as na pr\u00f3pria l\u00f3gica comercial \u2014 hoje muito baseada em audi\u00eancia e que poder\u00e1 incorporar m\u00e9tricas de comunidade e engajamento. Mas as emissoras poder\u00e3o importar n\u00e3o s\u00f3 vantagens econ\u00f4micas, como tamb\u00e9m responsabilidades. S\u00f3 na partida entre Brasil e Marrocos, foram 89.236 mensagens de 62.310 perfis no chat da Caz\u00e9TV. Quest\u00f5es de modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado discutidas na a\u00e7\u00e3o do STF que julgou o art. 19 do Marco Civil da Internet e deveres sist\u00eamicos de plataformas como aqueles trazidos pelo recente Decreto n\u00ba 12.976\/2026 podem tamb\u00e9m migrar para as emissoras. Com isso, a pergunta regulat\u00f3ria deixa de ser \u201cisso \u00e9 televis\u00e3o ou internet?\u201d e passa a ser \u201cque fun\u00e7\u00e3o esse servi\u00e7o exerce e que riscos produz?\u201d.<\/p>\n<h2><strong>A cr\u00edtica \u00e0s bets precisa valer para todos<\/strong><\/h2>\n<p>Outro ponto controverso foi a publicidade de apostas. A Secretaria Nacional do Consumidor abriu investiga\u00e7\u00e3o sobre ativa\u00e7\u00f5es nas transmiss\u00f5es da Caz\u00e9TV, sobretudo a exibi\u00e7\u00e3o de probabilidades em tempo real, e uma r\u00e1pida rea\u00e7\u00e3o do governo resultou na Portaria Interministerial MF\/SECOM\/MJSP n\u00ba 73, que instituiu diversas novas obriga\u00e7\u00f5es para anunciantes.<\/p>\n<p>O escrut\u00ednio \u00e0 Caz\u00e9TV foi leg\u00edtimo, mas \u00e9 importante lembrar que a Portaria, acertadamente, institui obriga\u00e7\u00f5es para \u201cquaisquer meios\u201d, formatos ou canais. A presen\u00e7a das bets atravessou televis\u00e3o aberta, TV paga, streaming e canais nativos digitais \u2014 s\u00f3 na Globo e no SBT, foram sete casas de apostas anunciadas durante a transmiss\u00e3o. Soma-se a isso o fato de que grupos ligados \u00e0s duas emissoras entraram diretamente no mercado e hoje t\u00eam suas pr\u00f3prias opera\u00e7\u00f5es de bets.<\/p>\n<p>Com isso, o governo parece sinalizar que quem transmite a partida, vende a publicidade e participa economicamente do mercado anunciado ocupa posi\u00e7\u00f5es que precisam ser avaliadas em conjunto \u2014 e a separa\u00e7\u00e3o entre conte\u00fado editorial, entretenimento e mensagem comercial fica ainda mais cr\u00edtica quando a empresa de m\u00eddia tamb\u00e9m tem interesse no setor. Na tela do futuro, regular cada elemento pela sua origem \u201cIP vs. broadcasting\u201d s\u00f3 produzir\u00e1 assimetrias dif\u00edceis de justificar.<\/p>\n<h2><strong>A viol\u00eancia contra mulheres n\u00e3o come\u00e7a nem termina na internet<\/strong><\/h2>\n<p>Tamb\u00e9m foi nessa Copa do Mundo que rep\u00f3rteres e comentaristas mulheres bateram recorde de presen\u00e7a nas transmiss\u00f5es. Contudo, muitas dessas profissionais ainda s\u00e3o avaliadas mais pela sua apar\u00eancia do que por sua compet\u00eancia, tendo ainda que superar diversas barreiras institucionais \u2014 muito mais profundas que a internet \u2014 para sua legitima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Em pesquisa que o Reglab fez em parceria com o Amado Mundo, analisamos 8.981 coment\u00e1rios em 24 v\u00eddeos da cobertura da Caz\u00e9TV, apresentados por quatro mulheres e quatro homens na mesma fun\u00e7\u00e3o. 18% dos coment\u00e1rios \u00e0s mulheres tratavam de apar\u00eancia, corpo ou sexualidade; entre os dirigidos aos homens, n\u00e3o houve ocorr\u00eancia equivalente.<\/p>\n<p>H\u00e1 avan\u00e7os culturais (9% dos coment\u00e1rios eram de mulheres e homens que criticavam coment\u00e1rios machistas) e institucionais. Em maio, o governo publicou o Decreto n\u00ba 12.976\/2026, voltado \u00e0 prote\u00e7\u00e3o das mulheres na internet, com deveres espec\u00edficos para plataformas, medidas contra ataques coordenados e responsabiliza\u00e7\u00e3o por falha sist\u00eamica na retirada de conte\u00fado il\u00edcito. Ainda que n\u00e3o seja um instrumento perfeito, j\u00e1 \u00e9 um avan\u00e7o importante, e que traz tamb\u00e9m a semente de um problema do futuro: suas obriga\u00e7\u00f5es s\u00e3o voltadas para \u201cprovedores de aplica\u00e7\u00f5es de internet\u201d. Como estamos refor\u00e7ando aqui, o ambiente digital do futuro n\u00e3o vai mais diferenciar o que \u00e9 protocolo TCP\/IP ou DTV+.<\/p>\n<h2><strong>Regular fun\u00e7\u00f5es, n\u00e3o r\u00f3tulos<\/strong><\/h2>\n<p>A Copa n\u00e3o decretou o fim da televis\u00e3o \u2014 ao contr\u00e1rio, mostrou a for\u00e7a de seu principal atributo, a gratuidade, agora reproduzido tamb\u00e9m no digital. Contudo, revelou que a velha divis\u00e3o entre televis\u00e3o e internet perdeu utilidade: o conte\u00fado circula entre telas, a publicidade atravessa meios, os grupos de comunica\u00e7\u00e3o operam novos neg\u00f3cios e o p\u00fablico participa da transmiss\u00e3o em tempo real. A TV 3.0 vai aprofundar esse processo \u2014 de forma leve j\u00e1 na Copa feminina de 2027 e madura rumo a 2030.<\/p>\n<p>A resposta regulat\u00f3ria n\u00e3o deveria simplesmente transportar todas as regras das plataformas para a radiodifus\u00e3o, nem preservar tratamentos distintos s\u00f3 porque uma empresa nasceu emissora e outra nasceu canal digital. O caminho mais consistente \u00e9 olhar a fun\u00e7\u00e3o exercida, o risco produzido e o grau de controle de cada agente sobre a experi\u00eancia do p\u00fablico. O jogo virou \u2014 e as responsabilidades tamb\u00e9m precisam atravessar a tela.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Copa do Mundo de 2026 terminou, mas deixou um retrato antecipado do futuro da m\u00eddia brasileira. 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