{"id":24707,"date":"2026-07-26T06:01:33","date_gmt":"2026-07-26T09:01:33","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/26\/a-celeridade-e-hoje-o-ultimo-refugio-da-dignidade\/"},"modified":"2026-07-26T06:01:33","modified_gmt":"2026-07-26T09:01:33","slug":"a-celeridade-e-hoje-o-ultimo-refugio-da-dignidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/26\/a-celeridade-e-hoje-o-ultimo-refugio-da-dignidade\/","title":{"rendered":"A celeridade \u00e9, hoje, o \u00faltimo ref\u00fagio da dignidade"},"content":{"rendered":"<p>A cada 30 segundos, uma mulher recebe, no Brasil, uma decis\u00e3o judicial que se interp\u00f5e entre ela e o seu agressor. Em maio de 2026, o Painel Viol\u00eancia contra a Mulher, do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), registrou o menor tempo m\u00e9dio mensal da s\u00e9rie hist\u00f3rica entre o pedido de medida protetiva e a decis\u00e3o judicial: tr\u00eas dias, ante os 16 que marcavam o prazo em 2020.<\/p>\n<p>No acumulado do ano, 85% das medidas foram concedidas em at\u00e9 24 horas \u2014 53% no mesmo dia do pedido e outras 32% no dia seguinte \u2014, num total que j\u00e1 supera 450 mil ordens de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Esses n\u00fameros se somam ao balan\u00e7o do ano anterior: em 2025, o Judici\u00e1rio apreciou 945 mil pedidos de medidas protetivas de urg\u00eancia e concedeu 621 mil \u2014 o equivalente a 70 concess\u00f5es por hora em todo o pa\u00eds \u2014, ao passo que julgou 15.453 processos de feminic\u00eddio, m\u00e9dia de 42 casos por dia, 17% acima de 2024 (dados: CNJ). O Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, em paralelo, aponta queda de 11,45% nos feminic\u00eddios em abril e maio de 2026, com recuo de 23,94% somente em abril.<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros n\u00e3o traduzem acaso. Traduzem uma escolha institucional. Por muito tempo, falamos da viol\u00eancia contra a mulher como um dado da vida privada \u2014 quando, em verdade, ela sempre foi um problema p\u00fablico de prote\u00e7\u00e3o, hoje agravado por desigualdades que recaem com peso desigual sobre mulheres negras, ind\u00edgenas, ribeirinhas e perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Apenas em 2025, o Judici\u00e1rio recebeu mais de 1 milh\u00e3o de novos casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica \u2014 e, deles, 62,6% das v\u00edtimas de feminic\u00eddio eram mulheres negras, segundo o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. A <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Lei%20Maria%20da%20Penha\">Lei Maria da Penha<\/a>, que completa 20 anos em 2026, e a Lei do Feminic\u00eddio deram ao Estado a gram\u00e1tica normativa do enfrentamento. Mas norma sem mensura\u00e7\u00e3o \u00e9 promessa sem horizonte. N\u00e3o basta tipificar; \u00e9 preciso identificar onde a prote\u00e7\u00e3o falha \u2014 e a tempo. \u00c9 a\u00ed que a perspectiva de g\u00eanero, ra\u00e7a e etnia deixa de ser sensibilidade e passa a ser m\u00e9todo.<\/p>\n<p>O Protocolo para Julgamento com Perspectiva de G\u00eanero (Resolu\u00e7\u00e3o CNJ 492\/2023), reflete tal necessidade, especialmente enquanto resposta ao caso <em>M\u00e1rcia Barbosa de Souza vs. Brasil<\/em>, decidido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. N\u00e3o se trata de favor \u00e0 mulher: \u00e9 dever metodol\u00f3gico de direitos humanos, ancorado na Conven\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m do Par\u00e1 e na CEDAW.<\/p>\n<p>Julgar bem, \u00e0 luz do Protocolo, \u00e9 identificar contextos de desigualdade, contextualizar a realidade estrutural do caso, proteger a v\u00edtima contra a revitimiza\u00e7\u00e3o e fundamentar a decis\u00e3o com lentes que recusem a aparente neutralidade dos enunciados \u2014 porque a neutralidade que ignora a desigualdade apenas a perpetua.<\/p>\n<p>Ser imparcial n\u00e3o \u00e9 ser indiferente. E essa n\u00e3o \u00e9 uma promessa abstrata: o Banco de Senten\u00e7as com Perspectiva de G\u00eanero do CNJ j\u00e1 re\u00fane mais de 22 mil decis\u00f5es fundamentadas nesse m\u00e9todo, que hoje permeiam todo o sistema de justi\u00e7a \u2014 do Direito de Fam\u00edlia ao do Trabalho e ao Previdenci\u00e1rio \u2014, e n\u00e3o apenas as varas especializadas em viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>A resposta institucional, contudo, exige mais do que sensibilidade interpretativa: exige arquitetura real e integrada. \u00c9 esse o sentido do Pacto Nacional Brasil contra o Feminic\u00eddio, primeira articula\u00e7\u00e3o dos Tr\u00eas Poderes em torno do mesmo desenho de prote\u00e7\u00e3o, que possibilita uma atua\u00e7\u00e3o, onde cada ente, dentro de sua compet\u00eancia, exerce o papel que lhe foi conferido pelo legislador constitucional, de forma articulada, possibilitando uma atua\u00e7\u00e3o mais efetiva.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 esse o sentido do Programa Justi\u00e7a pela Paz em Casa, que mobiliza periodicamente os Tribunais de Justi\u00e7a de todo o pa\u00eds, em uma concentra\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os de julgamento e acolhimento, bem como de tantas outras iniciativas estaduais e nacionais, que reafirmam o compromisso de chegar antes da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Este esfor\u00e7o, por sua vez, reflete-se no Painel alimentado pela Base Nacional de Dados do Poder Judici\u00e1rio (DataJud), que sinaliza, enquanto reposit\u00f3rio estrat\u00e9gico \u2013 um diagn\u00f3stico dos obst\u00e1culos ainda existentes que necessitam de aten\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento. A integra\u00e7\u00e3o de dados \u00e9 essencial n\u00e3o apenas para a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas baseadas em evid\u00eancias, mas para que a celeridade se converta em prote\u00e7\u00e3o efetiva \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Nesse vetor, o Eixo Permanente de Enfrentamento \u00e0 Viol\u00eancia contra as Mulheres, institu\u00eddo em 12 de maio de 2026 no \u00e2mbito do Observat\u00f3rio Nacional de Direitos Humanos do Poder Judici\u00e1rio, representa salto qualitativo: ao integrar dados, produzir diagn\u00f3sticos e sistematizar boas pr\u00e1ticas dos tribunais, converte o monitoramento em intelig\u00eancia institucional que precede \u2014 e n\u00e3o apenas registra \u2014 a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Some-se a isso o mapeamento nacional dos grupos reflexivos e responsabilizantes para autores de viol\u00eancia dom\u00e9stica, que o CNJ iniciou em 2026, reconhecendo que a prote\u00e7\u00e3o da v\u00edtima e a responsabiliza\u00e7\u00e3o do agressor s\u00e3o faces insepar\u00e1veis da mesma pol\u00edtica judici\u00e1ria.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio n\u00e3o substitui o trabalho indispens\u00e1vel do Minist\u00e9rio P\u00fablico, da Defensoria P\u00fablica, das pol\u00edcias e das delegacias especializadas, nem antecipa o m\u00e9rito de qualquer processo. A serenidade institucional exige celebrar o avan\u00e7o, por\u00e9m, sem proclamar vit\u00f3ria \u2014 porque, enquanto uma mulher morrer v\u00edtima de feminic\u00eddio, falhamos todos.<\/p>\n<p>As rec\u00e9m-sancionadas Lei 15.438\/2026, que amplia o prazo decadencial da representa\u00e7\u00e3o para 12 meses, e Lei 15.410\/2026, que endurece a resposta \u00e0 reitera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica, atualizam o ordenamento normativo. Cabe ao sistema de justi\u00e7a transform\u00e1-la, sem demora, em pr\u00e1tica cotidiana de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No m\u00eas de agosto, marco de duas d\u00e9cadas da Lei Maria da Penha, consolida-se uma convoca\u00e7\u00e3o ampla e rigorosa a todo o sistema de justi\u00e7a. A 33\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Programa Justi\u00e7a pela Paz em Casa, agendada para 17 a 21 de agosto de 2026, e a XIX Jornada Lei Maria da Penha, que celebrar\u00e1 os 20 anos da legisla\u00e7\u00e3o, materializam essa convoca\u00e7\u00e3o em esfor\u00e7o concentrado e permanente \u2014 sinalizando que o agosto de 2026 n\u00e3o ser\u00e1 apenas de comemora\u00e7\u00e3o, mas de renova\u00e7\u00e3o de compromisso.<\/p>\n<p>Ao tempo que celebramos os avan\u00e7os, devemos aprofundar ainda mais o debate sobre as persistentes vulnerabilidades que continuam atingindo esta parcela da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Esta data convoca todo o Poder P\u00fablico a refletir, estruturar e financiar de forma permanente a articula\u00e7\u00e3o interinstitucional; insta a imprensa a conferir visibilidade ao tema com responsabilidade \u00e9tica e sem espetaculariza\u00e7\u00e3o; e conclama escolas, o setor privado e a sociedade civil a recusarem, no cotidiano, qualquer toler\u00e2ncia com a viol\u00eancia e desigualdade de g\u00eanero. Proteger mulheres \u00e9 compromisso que renova sua urg\u00eancia a cada indicador monitorado, pois nenhuma institui\u00e7\u00e3o reverte essa realidade isoladamente.<\/p>\n<p>Que os n\u00fameros que hoje recuam nos sirvam n\u00e3o de descanso, mas de b\u00fassola, posto que os dados, quando bem cuidados, constituem a forma mais s\u00f3bria de responsabilidade p\u00fablica: mensurar a realidade para, enfim, conferir prote\u00e7\u00e3o a todas as mulheres.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada 30 segundos, uma mulher recebe, no Brasil, uma decis\u00e3o judicial que se interp\u00f5e entre ela e o seu agressor. Em maio de 2026, o Painel Viol\u00eancia contra a Mulher, do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), registrou o menor tempo m\u00e9dio mensal da s\u00e9rie hist\u00f3rica entre o pedido de medida protetiva e a decis\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24707"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24707"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24707\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}