{"id":24570,"date":"2026-07-20T05:00:47","date_gmt":"2026-07-20T08:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/20\/a-confianca-na-era-digital-uma-heranca-sem-testamento\/"},"modified":"2026-07-20T05:00:47","modified_gmt":"2026-07-20T08:00:47","slug":"a-confianca-na-era-digital-uma-heranca-sem-testamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/20\/a-confianca-na-era-digital-uma-heranca-sem-testamento\/","title":{"rendered":"A confian\u00e7a na era digital: uma heran\u00e7a sem testamento?"},"content":{"rendered":"<p>Ao refletir sobre os desafios da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/advocacia%20p%C3%BAblica\">advocacia p\u00fablica<\/a> no s\u00e9culo 21 e a aus\u00eancia de referenciais prospectivos seguros, me deparei, ap\u00f3s pensar e ler sobre tantos contornos que a tem\u00e1tica oferece, com uma frase que se encaixou como uma luva aos sentimentos antag\u00f4nicos que tenho sobre o tema: \u201cNossa heran\u00e7a nos foi deixada sem testamento\u201d.<\/p>\n<p>A frase do poeta franc\u00eas Ren\u00e9 Char escolhida por Hannah Arendt para iniciar seu livro \u201cEntre o passado e o futuro\u201d, de 1961, \u00e9 um convite reflexivo sobre como lidamos com um dos grandes desafios que observo na sociedade como advogada p\u00fablica: confian\u00e7a na era digital.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Na obra de 1961, j\u00e1 publicada durante os primeiros anos da era da informa\u00e7\u00e3o ou da era digital, a autora narra inquieta\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es pol\u00edticas do s\u00e9culo 20. A leitura me conduziu a observa\u00e7\u00f5es sobre a confian\u00e7a e os vieses dos comportamentos humanos e a ideia de que o poeta franc\u00eas, ao viver intensamente os quatro anos da Resist\u00eancia no s\u00e9culo 20, integrou uma esp\u00e9cie de concentra\u00e7\u00e3o laboratorial da experi\u00eancia humana. Ou seja, foi o momento em que a urg\u00eancia e a sobreviv\u00eancia eram o fio condutor de escolhas sobre confian\u00e7a e incertezas futuras, al\u00e9m de ser ponto de partida para a revela\u00e7\u00e3o do melhor e do pior do comportamento humano.[1]<\/p>\n<p>Arendt no livro nos oferece ainda uma pergunta atemporal valiosa: o que acontece quando a continuidade da hist\u00f3ria \u00e9 (parece estar) interrompida?<\/p>\n<p>Transportei-a para o dia 30 de novembro de 2022, data em que a OpenAI disponibilizou ao p\u00fablico o ChatGPT, com o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o global da intelig\u00eancia artificial generativa. O que se tinha como previsibilidade at\u00e9 ent\u00e3o (inclusive enquanto seguran\u00e7a jur\u00eddica) sofre uma mudan\u00e7a de rota capaz de transformar, em escala global, o contexto sociocultural, pol\u00edtico e econ\u00f4mico-financeiro de uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o fosse a interrup\u00e7\u00e3o da continuidade, apenas o curso natural de uma longa hist\u00f3ria da tecnologia j\u00e1 herdada. Mas na sociedade foi um marco intenso. E a partir dele novas perguntas. Ser\u00e1 que passaremos a escrever a nossa mem\u00f3ria, nossos valores \u00e9ticos e a entender o ser humano de outra forma?<\/p>\n<p>\u00c9 fato. Estamos em meio a outra ruptura entre o passado e o futuro, tal como descreveu Arendt. Durante d\u00e9cadas, bastava ler um jornal, ouvir o r\u00e1dio, olhar fotos para conhecer as not\u00edcias. Imagem, v\u00eddeo, \u00e1udio eram reprodu\u00e7\u00f5es do concreto. Hoje, podem ser apenas IA.<\/p>\n<p>No campo jur\u00eddico, a IA generativa entrega efici\u00eancia aos seus operadores; contudo, ao contr\u00e1rio das tradi\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas interpretativas, das ferramentas jur\u00eddicas de preenchimento de lacunas, sobre IA n\u00e3o nos foram fornecidos manuais, habilidades t\u00e9cnicas ou linhas de pensamento cr\u00edtico sobre como conviver com tantos desafios e problemas decorrentes da IA. N\u00e3o recebemos o testamento.<\/p>\n<p>Todos os dias, cursos, semin\u00e1rios, livros, <em>lives<\/em> nos oferecem conhecimento sobre como aplicar e criar metodologias de trabalho com IA. A quest\u00e3o com a qual me deparo: podemos parar para aprender sobre isso? Ou \u00e9 o literal emp\u00edrico \u2013 igualmente angustiante, do aprender enquanto trabalhamos?<\/p>\n<p>A realidade herdada \u00e9 inquietante e mutante. Volumes informacionais gigantescos. Terceiriza\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise jur\u00eddica a ferramentas de IA. Questionamento quanto \u00e0 autenticidade da constru\u00e7\u00e3o jur\u00eddica. Perdermos espa\u00e7o ou habilidades cognitivas? Viola\u00e7\u00e3o a direitos autorais. Inclus\u00e3o de comandos manipulativos, ocultos e maliciosos de IA em documentos (<em>prompt injection)<\/em>. <em>Deep fake<\/em>. <em>Fake news<\/em>. Desinforma\u00e7\u00e3o, algoritmos discriminat\u00f3rios, agentes artificiais n\u00e3o transparentes. Aus\u00eancia normativa de controle estatal de uso respons\u00e1vel de IA.<\/p>\n<p>Para essa lista, n\u00e3o existe uma forma consolidada sobre como manter ou construir confian\u00e7a em um mundo onde qualquer pessoa ou uma m\u00e1quina pode produzir conte\u00fados ou informa\u00e7\u00f5es indistingu\u00edveis da realidade.<\/p>\n<p>Penso que agora, em 2026, por coincid\u00eancia ou n\u00e3o com a d\u00e9cada de 1940, chegamos a um novo quadri\u00eanio laboratorial e de intensa transforma\u00e7\u00e3o. Uma corrida de alta velocidade em duas pistas pela sobreviv\u00eancia: uma na qual estamos imersos na compreens\u00e3o de usos, limites e consequ\u00eancias; outra de expans\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e energ\u00e9tica sem precedentes. A experi\u00eancia e o comportamento humanos novamente postos \u00e0 prova diante das implica\u00e7\u00f5es (positivas e negativas) dos usos da intelig\u00eancia artificial generativa e seus sucessores.<\/p>\n<p>Hannah, no mesmo livro, afirma que a mem\u00f3ria \u00e9, ainda que um dos mais importantes modos do pensamento, \u201cimpotente fora de um quadro de refer\u00eancia preestabelecido, e somente em rar\u00edssimas ocasi\u00f5es a mente humana \u00e9 capaz de reter algo inteiramente desconexo\u201d.[2] Pois bem.<\/p>\n<p>A cada<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/prompt%20injection\"> <em>prompt injection<\/em><\/a>, a cada desinforma\u00e7\u00e3o compartilhada, a cada falha na comunica\u00e7\u00e3o negligenciada, a cada novo conflito instaurado, a cada negocia\u00e7\u00e3o encerrada por IA, a cada experi\u00eancia esvaziada por uma resposta pronta e r\u00e1pida, a cada conflito instaurado, a cada descren\u00e7a ou desvalor propagado sobre o trabalho ou capacidade de um colega, propaga-se a desconfian\u00e7a, a desconex\u00e3o. N\u00e3o poderemos simplesmente lan\u00e7ar a culpa nos ac\u00famulos de nossas urg\u00eancias ou \u00e0s formas, question\u00e1veis, de sobreviv\u00eancia dentro desse novo mundo do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>Sim, podemos n\u00e3o estar, em sentido literal, em per\u00edodo de guerra tal qual estiveram Ren\u00e9 Char, Alan Turing, Claude Elwood Shannon. E quanta clareza o tempo nos ofereceu sobre a heran\u00e7a que esses nomes (e tantos outros) nos deixaram. Mas estamos em estado de alerta permanente.<\/p>\n<p>Isso poder\u00e1 significar que o que entend\u00edamos por confian\u00e7a ser\u00e1 diferente do que entenderemos no futuro? Estamos produzindo uma concep\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a que ser\u00e1 a nossa heran\u00e7a sem testamento para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho respostas. Compartilho apenas a convic\u00e7\u00e3o de que a confian\u00e7a, nos moldes de que tanto precisamos, se faz no presente. \u00c9 aquela que temos por pr\u00e1tica; \u00e9 a decorrente do comportamento a par de regras. Sejamos, por isso, a confian\u00e7a pela autorresponsabilidade.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Por mais sobrecarregados que estejamos pelas disrup\u00e7\u00f5es, precisamos focar nos v\u00ednculos humanos. Eles s\u00e3o a matriz da confian\u00e7a e da credibilidade. N\u00e3o importar\u00e1 o s\u00e9culo, a d\u00e9cada ou todos os incrementos tecnol\u00f3gicos; a confian\u00e7a \u00e9 a aposta mais valiosa para a era digital.<\/p>\n<p>Dizia no in\u00edcio sobre sentimentos antag\u00f4nicos. De um lado, vivo vibrante, curiosa e entusiasmada com os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Por outro, me vejo em meio ao desafio humano lan\u00e7ado na 1940 e, como participante desse per\u00edodo hist\u00f3rico a ser herdado pelo meu \u00fanico sucessor, n\u00e3o trabalharei sob o vi\u00e9s de uma euforia produtiva perfeita e artificial; trabalharei pela presen\u00e7a humana atenta, pela consci\u00eancia proativa, \u00e9tica e vigilante do mundo que me hospeda.<\/p>\n<p>[1] Sugere-se o livro \u201cResponsabilidade e julgamento\u201d de Hannah Arendt com di\u00e1logos de recorte pr\u00f3ximos ao contexto.<\/p>\n<p>[2] ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. trad. Mauro W. Barbosa. 6. ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2007. p. 31<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao refletir sobre os desafios da advocacia p\u00fablica no s\u00e9culo 21 e a aus\u00eancia de referenciais prospectivos seguros, me deparei, ap\u00f3s pensar e ler sobre tantos contornos que a tem\u00e1tica oferece, com uma frase que se encaixou como uma luva aos sentimentos antag\u00f4nicos que tenho sobre o tema: \u201cNossa heran\u00e7a nos foi deixada sem testamento\u201d. 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