{"id":24538,"date":"2026-07-17T05:58:17","date_gmt":"2026-07-17T08:58:17","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/17\/o-hexa-comeca-fora-de-campo\/"},"modified":"2026-07-17T05:58:17","modified_gmt":"2026-07-17T08:58:17","slug":"o-hexa-comeca-fora-de-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/17\/o-hexa-comeca-fora-de-campo\/","title":{"rendered":"O hexa come\u00e7a fora de campo"},"content":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, o futebol brasileiro alimentou uma convic\u00e7\u00e3o que parecia inabal\u00e1vel: bastava revelar grandes jogadores para continuar vencendo. Enquanto outros pa\u00edses planejavam o futuro, o Brasil parecia produzi-lo espontaneamente. Pel\u00e9, Zico, Rom\u00e1rio, Ronaldo, Ronaldinho Ga\u00facho, Kak\u00e1 e Neymar refor\u00e7aram a impress\u00e3o de que nosso principal recurso natural era o talento. Os \u00faltimos 20 anos mostraram que essa vantagem continua extraordin\u00e1ria, mas deixou de ser suficiente.<\/p>\n<p>Desde o pentacampeonato, em 2002, a sele\u00e7\u00e3o brasileira segue revelando atletas entre os melhores do mundo. Muitos s\u00e3o protagonistas nas principais ligas europeias. Ainda assim, o pa\u00eds perdeu a capacidade de transformar esse patrim\u00f4nio em uma sequ\u00eancia de t\u00edtulos.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>A cada elimina\u00e7\u00e3o, repete-se o mesmo ritual: troca-se o treinador, discutem-se as convoca\u00e7\u00f5es, criticam-se as escolhas t\u00e1ticas, quem deveria bater os p\u00eanaltis e procura-se um novo camisa 10 capaz de resolver um problema que come\u00e7ou muito antes do apito inicial. Talvez esse seja o maior equ\u00edvoco do debate sobre o futebol brasileiro. Continuamos procurando respostas no banco de reservas para um problema que nasceu nas categorias de base, nos centros de treinamento e na forma como organizamos o desenvolvimento do esporte.<\/p>\n<p>Uma Copa do Mundo n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda entre a convoca\u00e7\u00e3o e a final. Ela \u00e9 o resultado de decis\u00f5es tomadas ao longo de muitos anos. \u00c9 exatamente a\u00ed que a Economia oferece uma perspectiva \u00fatil.<\/p>\n<p>Theodore Schultz e Gary Becker, ambos laureados com o Pr\u00eamio Nobel, mudaram a maneira como economistas compreendem o investimento em pessoas. Educa\u00e7\u00e3o, treinamento, experi\u00eancia e capacidade de aprender deixaram de ser vistos como custos e passaram a ser entendidos como formas de capital. Poucos exemplos ilustram essa ideia t\u00e3o claramente quanto o futebol.<\/p>\n<p>Nenhum jogador chega a uma Copa do Mundo apenas porque nasceu talentoso. Por tr\u00e1s de cada decis\u00e3o tomada em campo existem milhares de horas de treino, prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica, aprendizagem t\u00e1tica, amadurecimento emocional e conviv\u00eancia com bons treinadores. Os noventa minutos que assistimos representam apenas a etapa final de um processo iniciado muitos anos antes. Foi justamente nesse ponto que o futebol mundial mudou. E mudou para\u00a0 sempre.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, o Brasil acreditou que revelar talentos bastava. Enquanto isso, outras federa\u00e7\u00f5es passaram a investir sistematicamente na forma\u00e7\u00e3o de treinadores, em ci\u00eancia do esporte, an\u00e1lise de desempenho, medicina esportiva, psicologia e gest\u00e3o esportiva. O futebol deixou de depender apenas da inspira\u00e7\u00e3o individual. Tornou-se uma atividade intensiva em conhecimento cient\u00edfico e aplicado.<\/p>\n<p>O Brasil continuou produzindo grandes jogadores. Seus concorrentes passaram a produzir sistemas melhores e tamb\u00e9m grandes jogadores, t\u00e3o bons ou at\u00e9 melhores que os nossos. Essa talvez seja a diferen\u00e7a mais importante entre o futebol brasileiro do passado e o do presente.<\/p>\n<p>O economista James Heckman demonstrou que os maiores retornos surgem quando o investimento come\u00e7a cedo. O futebol confirma essa ideia diariamente. Grandes sele\u00e7\u00f5es raramente s\u00e3o produto de uma gera\u00e7\u00e3o excepcional. S\u00e3o consequ\u00eancia de milhares de crian\u00e7as que tiveram acesso, durante anos, a treinadores qualificados, ambientes de aprendizagem e institui\u00e7\u00f5es capazes de desenvolver seu potencial.<\/p>\n<p>Por isso, talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de discutir quem comandar\u00e1 a sele\u00e7\u00e3o na pr\u00f3xima Copa, dever\u00edamos perguntar quem est\u00e1 formando os treinadores que trabalham hoje com crian\u00e7as de oito ou nove anos. Em vez de concentrar toda a aten\u00e7\u00e3o na convoca\u00e7\u00e3o, dever\u00edamos discutir a qualidade das categorias de base, a forma\u00e7\u00e3o dos profissionais do esporte e a capacidade das institui\u00e7\u00f5es de aprender continuamente. Esse \u00e9 o verdadeiro ponto de partida para reconstruir uma vantagem competitiva duradoura e ganhar competi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra mudan\u00e7a, menos vis\u00edvel, mas talvez ainda mais importante. Durante boa parte do s\u00e9culo passado, o Brasil n\u00e3o influenciava apenas pelo n\u00famero de grandes jogadores que produzia. Influenciava porque seu futebol representava uma forma particular de desenvolver talentos. A criatividade que encantava o mundo era o resultado de uma cultura esportiva constru\u00edda ao longo do tempo, e n\u00e3o apenas de habilidades individuais.<\/p>\n<p>Hoje continuamos revelando bons jogadores, alguns at\u00e9 extraordin\u00e1rios. A d\u00favida \u00e9 outra: continuamos aprendendo na mesma velocidade que nossos concorrentes? Essa pergunta muda completamente o foco da discuss\u00e3o. O problema deixa de ser a pr\u00f3xima convoca\u00e7\u00e3o e passa a ser a capacidade de um pa\u00eds produzir, acumular e difundir conhecimento.<\/p>\n<p>Robert Lucas mostrou que o crescimento sustentado depende justamente desse processo. Conhecimento n\u00e3o permanece restrito a quem o produz; ele se espalha, melhora organiza\u00e7\u00f5es e eleva a produtividade de todo o sistema. No futebol acontece exatamente o mesmo. Um grande treinador forma outros treinadores. Uma boa metodologia melhora sucessivas gera\u00e7\u00f5es de atletas. Clubes e federa\u00e7\u00f5es que aprendem continuamente tornam-se mais competitivos mesmo quando perdem seus melhores jogadores. \u00c9 por isso que as grandes escolas de futebol raramente desaparecem de uma gera\u00e7\u00e3o para outra.<\/p>\n<p>O mesmo racioc\u00ednio vale para as institui\u00e7\u00f5es. Douglass North mostrou que sociedades prosperam quando conseguem transformar experi\u00eancia em aprendizagem permanente. Organiza\u00e7\u00f5es que apenas reagem \u00e0s derrotas tendem a repetir seus erros. Organiza\u00e7\u00f5es que aprendem com elas tornam-se mais fortes a cada ciclo. Talvez seja essa a principal diferen\u00e7a entre o Brasil e algumas das sele\u00e7\u00f5es que passaram a dominar o futebol internacional nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Enquanto aqui cada elimina\u00e7\u00e3o costuma produzir uma discuss\u00e3o sobre nomes, outros pa\u00edses aproveitaram seus fracassos para reformar estruturas, rever processos e investir na forma\u00e7\u00e3o de longo prazo. O resultado apareceu anos depois. Essa deveria ser tamb\u00e9m a nova agenda do futebol brasileiro.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7a nas categorias de base, mas n\u00e3o termina ali. Exige forma\u00e7\u00e3o continuada de treinadores, maior aproxima\u00e7\u00e3o entre clubes, universidades e centros de pesquisa, uso sistem\u00e1tico de ci\u00eancia de dados e an\u00e1lise de desempenho, al\u00e9m de mecanismos permanentes de avalia\u00e7\u00e3o esportiva e\u00a0 institucional. Em vez de improvisa\u00e7\u00e3o, aprendizagem. Em vez de solu\u00e7\u00f5es de curto prazo, investimento persistente em capacidades que permane\u00e7am mesmo quando mudam os jogadores e os treinadores.Esse talvez seja o maior desafio institucional do futebol brasileiro.<\/p>\n<p>Continuamos produzindo talentos em quantidade suficiente para competir com qualquer sele\u00e7\u00e3o do mundo. O que precisamos reconstruir \u00e9 a capacidade de transformar esse talento em desempenho coletivo de maneira consistente.<\/p>\n<p>No fundo, essa discuss\u00e3o ultrapassa o esporte. Ela trata da forma como pa\u00edses constroem vantagens competitivas.<\/p>\n<p>Na economia, empresas l\u00edderes raramente permanecem na frente porque descobriram um \u00fanico profissional extraordin\u00e1rio. Permanecem porque criaram organiza\u00e7\u00f5es capazes de aprender, inovar e formar continuamente pessoas de alto desempenho. Com sele\u00e7\u00f5es nacionais acontece exatamente o mesmo.<\/p>\n<p>O debate sobre o futuro da sele\u00e7\u00e3o brasileira talvez continue concentrado no nome do pr\u00f3ximo treinador ou comiss\u00e3o t\u00e9cnica. Isso \u00e9 natural. Resultados imediatos sempre atraem mais aten\u00e7\u00e3o do que investimentos cujo retorno s\u00f3 aparecer\u00e1 anos depois. Mas a hist\u00f3ria das grandes sele\u00e7\u00f5es sugere outra conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Copas do Mundo podem ser decididas em 90 minutos. Sele\u00e7\u00f5es campe\u00e3s s\u00e3o constru\u00eddas em d\u00e9cadas de investimento em capital humano.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>O Brasil continuar\u00e1 formando alguns dos melhores jogadores do planeta. O verdadeiro desafio \u00e9 reconstruir o ambiente institucional que transforme talento em compet\u00eancia, compet\u00eancia em conhecimento e conhecimento em vantagem competitiva duradoura.<\/p>\n<p>O hexacampeonato, quando vier, ser\u00e1 menos consequ\u00eancia de uma gera\u00e7\u00e3o excepcional do que da capacidade de recuperar esse patrim\u00f4nio coletivo. Porque t\u00edtulos s\u00e3o ef\u00eameros. A capacidade de formar, continuamente, pessoas, organiza\u00e7\u00f5es e conhecimento \u00e9 o que realmente distingue as na\u00e7\u00f5es que permanecem entre as melhores. Este \u00e9 o desafio institucional de que ir\u00e1 comandar o futebol brasileiro.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, o futebol brasileiro alimentou uma convic\u00e7\u00e3o que parecia inabal\u00e1vel: bastava revelar grandes jogadores para continuar vencendo. Enquanto outros pa\u00edses planejavam o futuro, o Brasil parecia produzi-lo espontaneamente. 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