{"id":24489,"date":"2026-07-15T05:58:16","date_gmt":"2026-07-15T08:58:16","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/15\/futebol-e-mercado-de-capitais-por-que-os-clubes-nao-vao-a-bolsa\/"},"modified":"2026-07-15T05:58:16","modified_gmt":"2026-07-15T08:58:16","slug":"futebol-e-mercado-de-capitais-por-que-os-clubes-nao-vao-a-bolsa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/15\/futebol-e-mercado-de-capitais-por-que-os-clubes-nao-vao-a-bolsa\/","title":{"rendered":"Futebol e mercado de capitais: por que os clubes n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 Bolsa?"},"content":{"rendered":"<p>O per\u00edodo de Copa do Mundo, em que o mundo inteiro respira futebol, sugere automaticamente o match entre futebol e Bolsa de Valores. Afinal, se os est\u00e1dios est\u00e3o cheios e as camisas das sele\u00e7\u00f5es esgotadas nas lojas, n\u00e3o seria leg\u00edtimo esperar que essa mesma multid\u00e3o apaixonada corresse aos preg\u00f5es para adquirir as a\u00e7\u00f5es de seus times?<\/p>\n<p>Por aqui, a pergunta ganha contornos ainda mais concretos em raz\u00e3o do momento vivido pelo futebol brasileiro. H\u00e1 cinco anos, foi editada a Lei 14.193\/2021, que criou um tipo societ\u00e1rio espec\u00edfico para a atividade futebol\u00edstica: a Sociedade An\u00f4nima do Futebol (SAF).<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>A partir dela, teve in\u00edcio uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o. Clubes brasileiros de todas as divis\u00f5es e regi\u00f5es do pa\u00eds, historicamente organizados sob a forma de associa\u00e7\u00f5es civis sem fins lucrativos, passaram a se converter em sociedades an\u00f4nimas \u2014 no caso, em SAFs. A princ\u00edpio, todas as SAFs s\u00e3o companhias \u201cfechadas\u201d, mas juridicamente aptas a, quando assim desejarem, tornarem-se companhias \u201cabertas\u201d, com valores mobili\u00e1rios admitidos \u00e0 listagem e negocia\u00e7\u00e3o em bolsas de valores.<\/p>\n<p>Atenta a esse movimento, a pr\u00f3pria Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios (CVM) publicou o Parecer de Orienta\u00e7\u00e3o CVM 41, dedicado a esclarecer como uma SAF pode acessar o mercado de capitais. L\u00ea-se o seguinte: \u201cUma das mais tradicionais formas de viabilizar o apelo \u00e0 poupan\u00e7a popular, por meio do mercado de capitais, \u00e9 a abertura do capital de companhias, que concomitante ou subsequentemente realizam ofertas p\u00fablicas de distribui\u00e7\u00e3o de valores mobili\u00e1rios destinadas ao p\u00fablico investidor em geral\u201d.<\/p>\n<h2>Os obst\u00e1culos ao acesso dos clubes de futebol \u00e0 Bolsa<\/h2>\n<p>A quest\u00e3o, no entanto, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim \u2014 e, na verdade, ainda muito ligada a uma vis\u00e3o romantizada que privilegia a suposta democratiza\u00e7\u00e3o da bolsa de valores como solu\u00e7\u00e3o para a expans\u00e3o do financiamento de sociedades.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, chegar \u00e0 bolsa n\u00e3o \u00e9 tarefa trivial para nenhuma companhia. A abertura de capital envolve custos elevados de estrutura\u00e7\u00e3o e de manuten\u00e7\u00e3o, exig\u00eancias rigorosas de governan\u00e7a corporativa, deveres informacionais permanentes e o escrut\u00ednio constante do regulador, dos analistas e do pr\u00f3prio mercado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas dificuldades, h\u00e1 uma raz\u00e3o especificamente ligada \u00e0 economia do futebol. Um clube de ponta \u00e9 um neg\u00f3cio de capital altamente intensivo: praticamente toda receita adicional \u00e9 reinvestida na pr\u00f3pria atividade \u2014 contrata\u00e7\u00f5es, sal\u00e1rios, categorias de base, infraestrutura.<\/p>\n<p>Em termos simples: quanto mais receita, mais investimento no pr\u00f3prio futebol. N\u00e3o se trata de uma escolha do gestor, mas de uma imposi\u00e7\u00e3o (i) competitiva, j\u00e1 que o clube que deixa de reinvestir \u00e9 rapidamente engolido pelos concorrentes dentro de campo; e, at\u00e9 mesmo, (ii) institucional, pois a torcida \u2014 seu principal stakeholder \u2014 n\u00e3o admite que o clube perca competitividade em rela\u00e7\u00e3o aos seus rivais.<\/p>\n<p>Recentemente, Alan Sugar, ex-dirigente do Tottenham e um dos idealizadores da Premier League, esteve no Brasil para um evento da LFU e ilustrou esse fen\u00f4meno com uma imagem certeira: a do suco de ameixa. Disse ele: \u201cQuanto mais dinheiro \u00e9 dado aos clubes, mais dinheiro \u00e9 gasto em jogadores. Qualquer um sabe o efeito do suco de ameixa, \u00e9 bastante simples: entra por um lado e sai por outro \u2014 e \u00e9 exatamente o que vai acontecer com esse dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>Ora, se todo o caixa gerado \u00e9 consumido pela pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sobra dinheiro para distribuir sob a forma de dividendos. Sem perspectiva de dividendos, esvazia-se um dos principais incentivos \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es dessas companhias: o investidor \u2014 em especial o de longo prazo \u2014 n\u00e3o teria como obter rendimentos peri\u00f3dicos com os pap\u00e9is, de modo que eventual lucratividade dependeria exclusivamente da valoriza\u00e7\u00e3o e da venda futura das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que explica por que h\u00e1 t\u00e3o poucos clubes de capital aberto no mundo. A despeito de toda a paix\u00e3o que o futebol desperta, os clubes com a\u00e7\u00f5es listadas em bolsa limitam-se a exemplos como Manchester United, Juventus e Borussia Dortmund.<\/p>\n<h2>As alternativas \u00e0s Bolsas no financiamento dos clubes<\/h2>\n<p>Isso n\u00e3o significa, contudo, que as portas do mercado de capitais estejam fechadas aos clubes. Muito pelo contr\u00e1rio: o mercado de capitais oferece um sofisticado card\u00e1pio de mecanismos de financiamento, cada qual se ajustando a diferentes necessidades de capital, ao modelo de neg\u00f3cios e ao perfil dos investidores.<\/p>\n<p>O caso brasileiro \u00e9 ilustrativo disso. Desde que passaram a adotar a forma de SAF, muito embora nenhum deles tenha aberto o capital, diversos clubes acessaram o mercado por meio da emiss\u00e3o de t\u00edtulos e de outros instrumentos.<\/p>\n<p>Atl\u00e9tico Mineiro e Cuiab\u00e1 emitiram deb\u00eantures para investidores profissionais, um tipo de oferta que n\u00e3o exige registro de companhia aberta. Atl\u00e9tico Goianiense e Am\u00e9rica-MG optaram por notas comerciais, t\u00edtulo de d\u00edvida criado pela Lei 14.195\/2021 e que tamb\u00e9m dispensa o registro de companhia aberta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Atl\u00e9tico Mineiro revendeu a torcedores cotas de um dos FIPs (Fundos de Investimento em Participa\u00e7\u00f5es) que controlam a sua SAF. O Vasco da Gama passou a vender direitos tokenizados ligados a receitas futuras com atletas, em parceria com o Mercado Bitcoin, incluindo a emiss\u00e3o de 500 mil tokens lastreados no mecanismo de solidariedade de 12 jogadores formados na base do clube, entre eles Philippe Coutinho. J\u00e1 o S\u00e3o Paulo, mesmo sem virar SAF, captou recursos por meio de opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito estruturado com FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Credit\u00f3rios), lastreadas por receb\u00edveis de transmiss\u00e3o, patroc\u00ednios e venda de atletas.<\/p>\n<p>Todos esses instrumentos t\u00eam em comum um tra\u00e7o que os distingue das a\u00e7\u00f5es: neles, o investidor n\u00e3o se torna s\u00f3cio do clube, mas seu credor \u2014 ou titular de direitos sobre um fluxo de receb\u00edveis. Em vez de apostar em dividendos que dificilmente vir\u00e3o, ele empresta recursos e recebe a remunera\u00e7\u00e3o pactuada ao longo do tempo, independentemente da distribui\u00e7\u00e3o de lucros.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, tais t\u00edtulos revelam-se mais atraentes do que as a\u00e7\u00f5es de um clube. Mesmo quando ofertados em condi\u00e7\u00f5es financeiras menos vantajosas do que t\u00edtulos equivalentes de outros emissores, hip\u00f3tese em que o \u201cdes\u00e1gio\u201d acaba compensado pela paix\u00e3o do torcedor e a vontade de ajudar o clube do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em tais opera\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, \u00e9 preciso adotar cautelas especiais, justamente em raz\u00e3o da singularidade do futebol. Foi o que ressaltou o Parecer de Orienta\u00e7\u00e3o CVM 41: como o p\u00fablico-alvo dessas ofertas \u00e9 composto, em grande medida, por torcedores, h\u00e1 o risco de que a paix\u00e3o club\u00edstica afaste a racionalidade que deve presidir toda decis\u00e3o de investimento. Da\u00ed a preocupa\u00e7\u00e3o da autarquia com a transpar\u00eancia das informa\u00e7\u00f5es, com o emprego de linguagem clara e acess\u00edvel nos documentos das ofertas e com o cumprimento rigoroso dos deveres informacionais pelos emissores e seus assessores.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O per\u00edodo de Copa do Mundo, em que o mundo inteiro respira futebol, sugere automaticamente o match entre futebol e Bolsa de Valores. 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