{"id":24408,"date":"2026-07-11T05:58:25","date_gmt":"2026-07-11T08:58:25","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/11\/susp-nao-sera-nacional-enquanto-suas-tecnologias-forem-fragmentadas\/"},"modified":"2026-07-11T05:58:25","modified_gmt":"2026-07-11T08:58:25","slug":"susp-nao-sera-nacional-enquanto-suas-tecnologias-forem-fragmentadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/11\/susp-nao-sera-nacional-enquanto-suas-tecnologias-forem-fragmentadas\/","title":{"rendered":"SUSP n\u00e3o ser\u00e1 nacional enquanto suas tecnologias forem fragmentadas"},"content":{"rendered":"<p>Quando um r\u00e1dio n\u00e3o conversa com outro, uma c\u00e2mera corporal n\u00e3o preserva metadados e uma base biom\u00e9trica n\u00e3o segue padr\u00e3o audit\u00e1vel, o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/SUSP\">SUSP<\/a> existe na lei, mas falha na opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia recorrente no debate brasileiro sobre seguran\u00e7a p\u00fablica: discutir compet\u00eancias antes de capacidades. O problema n\u00e3o \u00e9 apenas quem coordena a \u00e1rea, mas se os \u00f3rg\u00e3os possuem instrumentos compat\u00edveis para atuar juntos.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=2500080#:~:text=PEC%2018%2F2025,-Vers%C3%B5es%20para%20impress%C3%A3o&amp;text=23%2C%20art.,Munic%C3%ADpios%20relativas%20%C3%A0%20seguran%C3%A7a%20p%C3%BAblica.&amp;text=Altera%C3%A7%C3%A3o%2C%20Constitui%C3%A7%C3%A3o%20Federal%20(1988),atua%C3%A7%C3%A3o%2C%20%C3%93rg%C3%A3o%20de%20seguran%C3%A7a%20p%C3%BAblica.\">PEC da Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a> recolocou no centro da agenda o papel da Uni\u00e3o, a coordena\u00e7\u00e3o federativa e a arquitetura constitucional do SUSP. Enquanto discute a moldura federativa, o PL 1143\/2026 trata dos instrumentos materiais para faz\u00ea-la funcionar. O debate \u00e9 necess\u00e1rio, mas deixa em segundo plano a infraestrutura tecnol\u00f3gica que torna a coordena\u00e7\u00e3o nacional poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Um sistema nacional de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o se constr\u00f3i apenas com normas de compet\u00eancia. Constr\u00f3i-se tamb\u00e9m com r\u00e1dios compat\u00edveis, plataformas interoper\u00e1veis, bases governadas, c\u00e2meras com cadeia de cust\u00f3dia, sistemas biom\u00e9tricos audit\u00e1veis e compras p\u00fablicas capazes de transformar gasto em capacidade estatal. A PEC responde a quem coordena. O PL ajuda a responder com quais padr\u00f5es isso ser\u00e1 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que o PL 1143, de autoria do senador Hamilton Mour\u00e3o (Republicanos-RS), merece aten\u00e7\u00e3o. Embora menos vistoso que a PEC, toca uma engrenagem central do SUSP: como o Estado compra, padroniza, certifica, financia e sustenta bens e servi\u00e7os estrat\u00e9gicos de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira \u00e9 federativa por desenho constitucional. Uni\u00e3o, estados, Distrito Federal e munic\u00edpios possuem pap\u00e9is distintos e realidades operacionais diferentes. Essa pluralidade n\u00e3o \u00e9 defeito. O problema come\u00e7a quando pluralidade institucional vira fragmenta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica: c\u00e2meras sem padr\u00e3o comum de metadados, r\u00e1dios incompat\u00edveis, sistemas biom\u00e9tricos sem auditoria equivalente e plataformas de dados que exigem integra\u00e7\u00f5es caras. Cada aquisi\u00e7\u00e3o, isolada, pode ser defens\u00e1vel; o conjunto \u00e9 disfuncional.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 paradoxal: o Estado pode gastar mais, comprar tecnologias sofisticadas e permanecer com baixa resposta integrada. Comprar tecnologia n\u00e3o \u00e9 construir capacidade estatal. A primeira opera\u00e7\u00e3o \u00e9 contratual e se esgota na entrega; a segunda \u00e9 institucional e depende de padr\u00e3o, ciclo de vida, interoperabilidade, certifica\u00e7\u00e3o, governan\u00e7a de dados e controle democr\u00e1tico. \u00c9 nessa dist\u00e2ncia que mora o problema.<\/p>\n<h2>O que o PL acerta<\/h2>\n<p>A novidade n\u00e3o est\u00e1 apenas em defender integra\u00e7\u00e3o, mas em perceber que ela depende de compras p\u00fablicas, padr\u00f5es t\u00e9cnicos, certifica\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. O m\u00e9rito do PL 1143 est\u00e1 em ver que compras de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o devem ser tratadas como atos isolados sob o regime geral da Lei 14.133\/2021.<\/p>\n<p>Sem deslocar a Lei de Licita\u00e7\u00f5es, o projeto constr\u00f3i tratamento diferenciado para o que \u00e9 estrat\u00e9gico. Ao criar a categoria de Bens e Servi\u00e7os Estrat\u00e9gicos de Seguran\u00e7a P\u00fablica e a figura do Fornecedor Estrat\u00e9gico de Seguran\u00e7a P\u00fablica Nacional, reconhece que certos bens, tecnologias e servi\u00e7os s\u00e3o estruturantes para o SUSP.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 relevante o conjunto que re\u00fane padroniza\u00e7\u00e3o, qualidade (Selo de Qualidade SUSP), financiamento (Fundo Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica) e prefer\u00eancia a solu\u00e7\u00f5es nacionais. Bem desenhados, esses instrumentos formam uma arquitetura de indu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, contudo, \u00e9 saber se o projeto ser\u00e1 lido como pol\u00edtica p\u00fablica ou apenas como pol\u00edtica de fornecedores.<\/p>\n<p>Fornecedor estrat\u00e9gico n\u00e3o \u00e9 apenas quem produz no Pa\u00eds ou entrega equipamento. \u00c9 quem demonstra desempenho verific\u00e1vel, suporte continuado, seguran\u00e7a da informa\u00e7\u00e3o, rastreabilidade, interoperabilidade e conformidade com padr\u00f5es nacionais. Sem isso, prefer\u00eancia vira privil\u00e9gio; com isso, pode se tornar pol\u00edtica de qualidade e autonomia tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A mesma cautela vale para bens e servi\u00e7os estrat\u00e9gicos. Um r\u00e1dio, uma c\u00e2mera corporal, um sistema de reconhecimento facial e uma plataforma de intelig\u00eancia artificial n\u00e3o pertencem \u00e0 mesma classe de risco. Alguns bens afetam log\u00edstica e efici\u00eancia. Outros afetam liberdade, privacidade, igualdade e produ\u00e7\u00e3o de prova.<\/p>\n<p>Por isso, o tratamento diferenciado deve vir acompanhado de classifica\u00e7\u00e3o por criticidade. Quanto maior o impacto operacional, federativo, tecnol\u00f3gico ou sobre direitos fundamentais, maior deve ser a exig\u00eancia de certifica\u00e7\u00e3o, auditabilidade e controle.<\/p>\n<h2>O risco da moderniza\u00e7\u00e3o sem governan\u00e7a<\/h2>\n<p>O debate p\u00fablico costuma tratar tecnologia como resposta neutra para problemas de seguran\u00e7a. Essa premissa \u00e9 insuficiente. Tecnologias de seguran\u00e7a p\u00fablica registram abordagens, orientam investiga\u00e7\u00f5es, produzem prova, integram bases de dados e influenciam decis\u00f5es que afetam direitos fundamentais.<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia do Selo de Qualidade SUSP. Um selo sem ensaio t\u00e9cnico independente corre o risco de virar chancela documental. Para produzir efeito real, deve estar ligado a laborat\u00f3rio nacional ou rede credenciada, testes de interoperabilidade, seguran\u00e7a, desempenho, ciclo de vida, rastreabilidade e conformidade com a <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/LGPD\">LGPD<\/a>.<\/p>\n<p>O mesmo vale para os Cadernos de Refer\u00eancia. Sem padr\u00f5es m\u00ednimos, interfaces de integra\u00e7\u00e3o, requisitos de seguran\u00e7a, log\u00edstica reversa e destina\u00e7\u00e3o ambiental adequada, especifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas reproduzem a fragmenta\u00e7\u00e3o que pretendem corrigir.<\/p>\n<p>O falso dilema \u00e9 opor moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e direitos fundamentais. A escolha real \u00e9 outra: moderniza\u00e7\u00e3o fragmentada, opaca e sem padr\u00f5es, ou moderniza\u00e7\u00e3o certificada, interoper\u00e1vel e submetida ao Estado de Direito.<\/p>\n<p>O Fundo Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica e o ComprasSUSP podem cumprir papel decisivo. A escala n\u00e3o \u00e9 pequena: s\u00f3 em 2025 o FNSP executou R$ 1,4 bilh\u00e3o e, dos quase R$ 7 bilh\u00f5es repassados desde 2019, 61% foram executados at\u00e9 o fim do ano. Recursos federais n\u00e3o devem apenas financiar aquisi\u00e7\u00f5es; devem induzir padr\u00f5es m\u00ednimos, apoiar migra\u00e7\u00f5es, estimular compras cooperativas e impedir que dinheiro p\u00fablico aprofunde a fragmenta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do SUSP.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma tens\u00e3o federativa a enfrentar: estados podem ler padr\u00f5es nacionais como tutela da Uni\u00e3o sobre compet\u00eancias pr\u00f3prias. A resposta n\u00e3o \u00e9 impor, e sim induzir \u2014 ades\u00e3o cooperativa, certifica\u00e7\u00e3o como refer\u00eancia comum e financiamento federal condicionado a padr\u00f5es m\u00ednimos. A Uni\u00e3o atua como plataforma, preservando a autonomia e a execu\u00e7\u00e3o federativas.<\/p>\n<p>O PL 1143 permite uma quest\u00e3o mais ampla: tratar a seguran\u00e7a p\u00fablica como campo pr\u00f3prio de capacidade industrial, tecnol\u00f3gica e institucional. Isso n\u00e3o significa copiar a Base Industrial de Defesa nem militarizar a \u00e1rea. Uma Base Industrial de Seguran\u00e7a P\u00fablica deve transformar demanda dispersa em capacidade p\u00fablica interoper\u00e1vel, n\u00e3o em reserva de mercado.<\/p>\n<p>A PEC discute a moldura constitucional. O PL 1143 toca na infraestrutura material dessa moldura. Uma sem a outra ser\u00e1 insuficiente. Compet\u00eancia sem capacidade vira promessa normativa. Tecnologia sem governan\u00e7a vira risco institucional.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>O SUSP n\u00e3o ser\u00e1 nacional apenas porque a Constitui\u00e7\u00e3o ou a lei assim o dizem. Ele ser\u00e1 nacional quando suas institui\u00e7\u00f5es puderem operar com padr\u00f5es comuns, tecnologias compat\u00edveis, certifica\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel, financiamento indutor e salvaguardas democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o precisa apenas comprar mais tecnologia para a seguran\u00e7a p\u00fablica. Precisa comprar melhor, certificar melhor, integrar melhor e controlar melhor. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a entre modernizar equipamentos e construir capacidade estatal.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando um r\u00e1dio n\u00e3o conversa com outro, uma c\u00e2mera corporal n\u00e3o preserva metadados e uma base biom\u00e9trica n\u00e3o segue padr\u00e3o audit\u00e1vel, o SUSP existe na lei, mas falha na opera\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma tend\u00eancia recorrente no debate brasileiro sobre seguran\u00e7a p\u00fablica: discutir compet\u00eancias antes de capacidades. 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