{"id":24371,"date":"2026-07-09T05:58:31","date_gmt":"2026-07-09T08:58:31","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/09\/como-resolver-o-problema-da-pobreza-no-brasil\/"},"modified":"2026-07-09T05:58:31","modified_gmt":"2026-07-09T08:58:31","slug":"como-resolver-o-problema-da-pobreza-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/09\/como-resolver-o-problema-da-pobreza-no-brasil\/","title":{"rendered":"Como resolver o problema da pobreza no Brasil?"},"content":{"rendered":"<p>A Folha de 04.07.2026, na reportagem \u201cAp\u00f3s recuo em 2022, direita volta a superar a esquerda no Brasil, aponta Datafolha\u201d, retratou recente pesquisa que procura entender o perfil ideol\u00f3gico do brasileiro<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a>. As conclus\u00f5es do Datafolha convergem bastante com aquelas a que chegou Felipe Nunes na pesquisa que deu base ao seu livro <em>Brasil no Espelho<\/em><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn2\">[2]<\/a>, que foi objeto do epis\u00f3dio do podcast Direito e Economia<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>A pesquisa do Datafolha mostra que 44% dos entrevistados s\u00e3o de direita e 39% de esquerda, quando, h\u00e1 quatro anos, eram respectivamente 34% e 49%. Isso quer dizer que 10% dos brasileiros migraram da esquerda para a direita. Por mais que haja segmenta\u00e7\u00f5es \u2013 entre homens, 50% s\u00e3o de direita contra 33% de esquerda; entre mulheres, 44% s\u00e3o de esquerda contra 37% de direita; entre os evang\u00e9licos, 52% s\u00e3o de direita contra 30% de esquerda \u2013 observa-se que a mudan\u00e7a pol\u00edtica \u00e9 expressiva, ainda mais se considerarmos o curto per\u00edodo de tempo (quatro anos) no qual ela ocorreu.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Vale ressaltar que a classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o resulta de uma pergunta direta que exige a autoclassifica\u00e7\u00e3o pelo entrevistado, mas sim de diversos questionamentos sobre temas que \u2013 como armas, pobreza, criminalidade, homossexualidade e religi\u00e3o \u2013 traduzem os valores sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos que costumam diferenciar a esquerda da direita.<\/p>\n<p>Dentre os achados mais impressionantes da pesquisa, encontram-se os relacionados \u00e0 percep\u00e7\u00e3o dos brasileiros sobre a pobreza. Nessa \u00e1rea, a parcela de brasileiros que associa a pobreza \u00e0 pregui\u00e7a das pessoas que n\u00e3o querem trabalhar saltou de 22% para 40%, enquanto a parcela que associa a pobreza \u00e0 falta de oportunidades iguais caiu de 76% para 58%.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, nesse quesito, h\u00e1 tamb\u00e9m segmenta\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas. Dos que ganham de 2 a 5 sal\u00e1rios m\u00ednimos, 43% associam a pobreza \u00e0 pregui\u00e7a contra 63% que, ao terem renda familiar superior a dez sal\u00e1rios m\u00ednimos, fazem a mesma associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 relevante segmenta\u00e7\u00e3o por ocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e gera\u00e7\u00e3o. Entre empres\u00e1rios, 56% acreditam que a pobreza est\u00e1 ligada \u00e0 pregui\u00e7a, o maior valor entre as ocupa\u00e7\u00f5es. Entre eleitores de Lula, somente 28% ligam a pobreza \u00e0 pregui\u00e7a contra 52% de Flavio Bolsonaro. Entre eleitores de 16 a 24 anos, 22% associam pobreza \u00e0 pregui\u00e7a contra 49% dos eleitores com mais de 60 anos que fazem essa associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tais dados convergem com os achados de Felipe Nunes<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn4\">[4]<\/a>, que revelam que 56% dos brasileiros entendem que os pobres n\u00e3o se esfor\u00e7am para melhorar sua renda e 67% acreditam que s\u00f3 se pode ajudar quem merece.<\/p>\n<p>Ora, a partir do momento em que a pobreza \u00e9 vista, por uma expressiva parcela da sociedade \u2013 incluindo a\u00ed percentual relevante das pr\u00f3prias pessoas de baixa renda \u2013 como um problema pessoal \u2013 e n\u00e3o estrutural \u2013 perde-se parte da motiva\u00e7\u00e3o e do respaldo pol\u00edtico para a busca de solu\u00e7\u00f5es que procurem melhorar o sistema e torn\u00e1-lo menos injusto ou desigual, pelo menos no que diz respeito ao acesso a oportunidades.<\/p>\n<p>Essa pode ser uma importante chave para se entender a desconfian\u00e7a de muitos brasileiros em rela\u00e7\u00e3o a projetos como o Bolsa Fam\u00edlia ou mesmo para a aceita\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o dominante de que os ricos merecem ser ricos enquanto os pobres merecem ser pobres. Mais do que isso, essa pode ser uma importante justificativa para manuten\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em> e para a n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o de importantes medidas para tornar o sistema minimamente igualit\u00e1rio do ponto de vista do acesso \u00e0s oportunidades.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a vis\u00e3o do brasileiro sobre a pobreza legitima o discurso meritocr\u00e1tico que v\u00ea nos mercados espa\u00e7os leg\u00edtimos de compensa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9ritos de cada um, o que leva a um consequente amesquinhamento do papel do Estado e da pr\u00f3pria sociedade civil para resolver problemas estruturais.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o do brasileiro tamb\u00e9m destoa dos estudos econ\u00f4micos mais importantes sobre o tema, muitos dos quais tenho procurado abordar nas minhas colunas e podcasts recentes<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn5\">[5]<\/a>. Tais estudos t\u00eam demonstrado que a pobreza e a desigualdade decorrem essencialmente de escolhas pol\u00edticas que criam barreiras institucionais quase intranspon\u00edveis para que uma s\u00e9rie de pessoas possa experimentar a sa\u00edda da pobreza e a mobilidade social.<\/p>\n<p>Obviamente que esse tipo de vis\u00e3o tamb\u00e9m se projeta no papel do Estado. Por mais que a pesquisa do Datafolha tenha mostrado o quanto esse tema \u00e9 repleto de nuances \u2013 j\u00e1 que uma boa parte dos brasileiros defende um estado forte na economia, inclusive para ajudar grandes empresas em risco, para aplicar leis trabalhistas etc. \u2013 , fato \u00e9 que apontou que a ideia de que depender menos do governo melhora a vida das pessoas \u00e9 apoiada por 65% das pessoas (71% de homens e 59% de mulheres), o maior valor da s\u00e9rie. Da mesma maneira, 50% dos brasileiros preferem pagar menos impostos e contratar servi\u00e7os particulares de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de mais uma converg\u00eancia com a pesquisa capitaneada por Felipe Nunes<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn6\">[6]<\/a>, segundo a qual as pessoas est\u00e3o cansadas, mas n\u00e3o defendem pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o de renda nem gostam de cotas. No que diz respeito \u00e0s ideologias, o livro tamb\u00e9m mostra v\u00e1rias das ambival\u00eancias do nosso povo, como ser mais de direita, mas ser tamb\u00e9m estatista.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a vis\u00e3o equivocada das causas da pobreza dificulta a compreens\u00e3o do real papel do Estado e das pol\u00edticas p\u00fablicas para as devidas solu\u00e7\u00f5es. Da\u00ed por que mesmo o estatismo n\u00e3o necessariamente legitimar\u00e1 medidas que resolvam estruturalmente a pobreza, assim como n\u00e3o \u00e9 suficiente para evitar o discurso de demoniza\u00e7\u00e3o do Estado e das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 tive oportunidade de apontar, ao explorar a obra <em>Good Economics for Hard Times<\/em> de Banerjee e Duflo<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn7\">[7]<\/a>, n\u00e3o h\u00e1 alternativa ou substituto para uma s\u00e9rie de coisas que o governo faz. Isso \u00e9 particularmente verdadeiro no que se refere \u00e0 erradica\u00e7\u00e3o da pobreza e \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade. Por essa raz\u00e3o, se os governos s\u00e3o ruins, h\u00e1 que se ajustar tais problemas e n\u00e3o simplesmente se erradicar os governos ou minar a sua credibilidade.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a postura caracterizada pelo ataque vigoroso ao Estado e pelo incentivo \u00e0 falta de f\u00e9 nos burocratas tem efeitos perversos, impedindo que as pessoas vejam que o governo pode ser parte da solu\u00e7\u00e3o, diminuindo os incentivos para que pessoas qualificadas resolvam trabalhar no governo e criando uma imagem do governo que afeta a honestidade dos que querem trabalhar para ele.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 interessante mencionar entrevista recente de David Beasley, Pr\u00eamio Nobel da Paz e ex-diretor do Programa Mundial de Alimentos<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn8\">[8]<\/a>, quando foi indagado sobre se o capitalismo seria capaz de erradicar a fome. Ele responde que sim, mas alerta para o fato de que mais riqueza deveria ser acompanhada de mais responsabilidade, chamando aten\u00e7\u00e3o para o aumento do patrim\u00f4nio dos bilion\u00e1rios e o quanto um dia do lucro dessas pessoas poderia ajudar a pessoas do mundo todo. Entretanto, ressalta que caridade n\u00e3o \u00e9 salva\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o pela qual \u201ca solu\u00e7\u00e3o a longo prazo \u00e9 desenvolver sistemas que deem a todos emprego e estabilidade\u201d.<\/p>\n<p>Ora, falar em sistemas que deem a todos emprego e estabilidade \u00e9 falar de quest\u00f5es estruturais que possam ao menos assegurar oportunidades minimamente equitativas para todos. \u00c9 aceitar que o crescimento dos indiv\u00edduos depende n\u00e3o apenas da sua disposi\u00e7\u00e3o para o trabalho, mas tamb\u00e9m de pressupostos que lhe assegurem o caminho de obten\u00e7\u00e3o de rendas adequadas por meio do empreendedorismo ou do trabalho digno.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 por todas essas raz\u00f5es que s\u00e3o preocupantes os resultados das recentes pesquisas. Fica claro que os brasileiros t\u00eam muitas dificuldades para entender a variedade e a complexidade das causas da pobreza, optando por desconsiderar os aspectos pol\u00edticos e sociais imprescind\u00edveis em prol de uma vis\u00e3o equivocada que associa a pobreza ao dem\u00e9rito individual.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tentar entender as raz\u00f5es dessa compreens\u00e3o equivocada do nosso povo pois, sem um diagn\u00f3stico mais adequado e fidedigno sobre as raz\u00f5es da pobreza, dificilmente conseguiremos ter o respaldo popular para solu\u00e7\u00f5es efetivas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, Edi\u00e7\u00e3o de 04.07.2026, pp. A-6 a A-9.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref2\">[2]<\/a> NUNES, Felipe. <em>Brasil no Espelho. Um Guia para entender o Brasil e os brasileiros.<\/em> Rio de Janeiro: Editora Globo S.A., 2025.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref3\">[3]<\/a> <em>Podcast Direito e Economia, com Ana Fraz\u00e3o<\/em>. Epis\u00f3dio 143. Brasil no Espelho, com Felipe Nunes. <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/4LebOfxf7x7BhEHkuaXEO2\">https:\/\/open.spotify.com\/episode\/4LebOfxf7x7BhEHkuaXEO2<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref4\">[4]<\/a> NUNES, Felipe. Op.cit.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref5\">[5]<\/a> O podcast <em>Direito e Economia<\/em> tem v\u00e1rios epis\u00f3dios dedicados \u00e0 quest\u00e3o da pobreza e da desigualdade, assim como h\u00e1 varias colunas do <em>Jota<\/em> sobre o tema. A t\u00edtulo de exemplo, destaca-se a s\u00e9rie <strong>Novas Perspectivas para a Regula\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica dos Mercados<\/strong>. <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/constituicao-empresa-e-mercado\/novas-perspectivas-para-a-regulacao-juridica-dos-mercados\">https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/constituicao-empresa-e-mercado\/novas-perspectivas-para-a-regulacao-juridica-dos-mercados<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref6\">[6]<\/a> NUNES, Felipe. Op.cit.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref7\">[7]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/constituicao-empresa-e-mercado\/novas-perspectivas-para-a-regulacao-juridica-dos-mercados-parte-iv\">https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/constituicao-empresa-e-mercado\/novas-perspectivas-para-a-regulacao-juridica-dos-mercados-parte-iv<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref8\">[8]<\/a> \u201cCaridade n\u00e3o vai solucionar a fome no mundo, mas setor privado \u00e9 essencial\u201d. <em>Folha de S\u00e3o Paulo.<\/em> Edi\u00e7\u00e3o de 06.07.2026, A-3- a A-31.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Folha de 04.07.2026, na reportagem \u201cAp\u00f3s recuo em 2022, direita volta a superar a esquerda no Brasil, aponta Datafolha\u201d, retratou recente pesquisa que procura entender o perfil ideol\u00f3gico do brasileiro[1]. 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