{"id":24352,"date":"2026-07-08T10:58:21","date_gmt":"2026-07-08T13:58:21","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/08\/quem-da-o-primeiro-passo-no-desmembramento-municipal\/"},"modified":"2026-07-08T10:58:21","modified_gmt":"2026-07-08T13:58:21","slug":"quem-da-o-primeiro-passo-no-desmembramento-municipal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2026\/07\/08\/quem-da-o-primeiro-passo-no-desmembramento-municipal\/","title":{"rendered":"Quem d\u00e1 o primeiro passo no desmembramento municipal?"},"content":{"rendered":"<p>A aprova\u00e7\u00e3o da Lei Complementar 230, de 15 de abril de 2026, abriu uma nova etapa para a solu\u00e7\u00e3o de conflitos territoriais entre munic\u00edpios brasileiros. A norma regulamentou uma hip\u00f3tese espec\u00edfica do art. 18, \u00a7 4\u00ba, da Constitui\u00e7\u00e3o: o desmembramento de parte do territ\u00f3rio de um munic\u00edpio para sua incorpora\u00e7\u00e3o a outro munic\u00edpio lim\u00edtrofe, dentro do mesmo estado. Restou expressamente vedada a cria\u00e7\u00e3o de novo munic\u00edpio (art. 1\u00ba, \u00a7 1\u00ba).<\/p>\n<p>A lei definiu que o desmembramento de munic\u00edpios ser\u00e1 capitaneado pela Assembleia Legislativa do respectivo estado, que tomar\u00e1 as provid\u00eancias necess\u00e1rias para a realiza\u00e7\u00e3o de Estudo de Viabilidade Municipal (EVM), para a convoca\u00e7\u00e3o do plebiscito de consulta \u00e0s popula\u00e7\u00f5es dos Munic\u00edpios envolvidos e, caso a consulta seja favor\u00e1vel, para a aprova\u00e7\u00e3o da lei estadual que fixar\u00e1 os novos limites territoriais.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/p>\n<p>Contudo, h\u00e1 uma quest\u00e3o que a nova lei n\u00e3o resolveu integralmente: quem pode provocar a Assembleia Legislativa para que ela decida se o processo deve ou n\u00e3o ser instaurado?<\/p>\n<p>O art. 2\u00ba, inciso I, da LC 230\/2026, expressamente remeteu \u00e0 observ\u00e2ncia da Constitui\u00e7\u00e3o Estadual e das regras regimentais pr\u00f3prias da Assembleia Legislativa. Ou seja, aplica-se o direito parlamentar estadual.<\/p>\n<p>Ocorre que, em v\u00e1rios Estados, essas normas, quando existentes, est\u00e3o defasadas, cont\u00eam omiss\u00f5es, ambiguidades, e ainda n\u00e3o foram adaptadas ao novo procedimento da LC 230\/2026, e n\u00e3o definem uma forma clara e exclusiva de iniciativa, por exemplo, se um parlamentar pode, individualmente, apresentar requerimento para deflagrar o procedimento, qual \u00e9 a tramita\u00e7\u00e3o interna desse pedido, se vai direto para o Plen\u00e1rio ou passa por outras inst\u00e2ncias decis\u00f3rias, etc.<\/p>\n<p>O caso concreto do Estado de Sergipe ajuda a ilustrar a controv\u00e9rsia. A <a href=\"https:\/\/www.se.gov.br\/anexos\/uploads\/download\/filename_novo\/1460\/462b6783ff2df0ed928ceb79410fc06b.pdf\">Constitui\u00e7\u00e3o do Estado de Sergipe<\/a>, art. 12, \u00a7 2\u00ba, e art. 46, inciso V, trata da cria\u00e7\u00e3o, incorpora\u00e7\u00e3o, fus\u00e3o e desmembramento de munic\u00edpios, estabelecendo que essas ser\u00e3o feitas por lei estadual, obedecidos os requisitos previstos em lei complementar estadual. Essa lei complementar, entretanto, n\u00e3o existe. Inclusive, a jurisprud\u00eancia do STF \u00e9 no sentido de que \u00e9 inconstitucional lei estadual que permita a cria\u00e7\u00e3o, incorpora\u00e7\u00e3o, fus\u00e3o e desmembramento de munic\u00edpios sem a edi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via das leis federais previstas no art. 18, \u00a7 4\u00ba, da CF, com reda\u00e7\u00e3o dada pela EC n\u00ba 15\/1996.<\/p>\n<p>Por seu turno, o art. 286, \u00a7 3\u00ba, do <a href=\"https:\/\/al.se.leg.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/regimento_interno.pdf\">Regimento Interno da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe (ALESE)<\/a>, prev\u00ea que o in\u00edcio do processo de cria\u00e7\u00e3o, incorpora\u00e7\u00e3o, fus\u00e3o e desmembramento de munic\u00edpios ocorrer\u00e1 mediante solicita\u00e7\u00e3o dirigida ao presidente da Assembleia, subscrita por, no m\u00ednimo, 500 eleitores residentes e domiciliados na \u00e1rea que se pretende alterar, com o reconhecimento das respectivas assinaturas. Ou seja, assegurou-se uma via de iniciativa popular. Entretanto, nada mais foi dito quanto a outras formas de deflagrar o processo.<\/p>\n<p>A referida previs\u00e3o regimental est\u00e1 inserida, contudo, em um rito concebido sob outro regime jur\u00eddico e fortemente associado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas municipalidades. O \u00a7 4\u00ba do art. 286 do regimento da ALESE, por exemplo, determina que o presidente da Assembleia solicite a instala\u00e7\u00e3o de posto de arrecada\u00e7\u00e3o no povoado escolhido para ser sede do novo munic\u00edpio. A medida busca avaliar a capacidade financeira de uma futura municipalidade, mas n\u00e3o se ajusta \u00e0 hip\u00f3tese regulada pela LC n\u00ba 230\/2026, na qual nenhum munic\u00edpio ser\u00e1 criado.<\/p>\n<p>O descompasso tamb\u00e9m aparece na sequ\u00eancia do rito estabelecido. O art. 288 do regimento interno prev\u00ea que, demonstrado o atendimento dos requisitos, o presidente da Assembleia solicitar\u00e1 diretamente ao Tribunal Regional Eleitoral a realiza\u00e7\u00e3o do plebiscito. J\u00e1 a LC n\u00ba 230\/2026 exige primeiro a realiza\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o do EVM e, somente depois, a delibera\u00e7\u00e3o da Assembleia sobre um decreto legislativo convocat\u00f3rio da consulta (art. 2\u00ba, inciso II). O rito parlamentar local cont\u00e9m, portanto, elementos aproveit\u00e1veis, mas n\u00e3o disciplina integralmente a modalidade espec\u00edfica institu\u00edda em 2026.<\/p>\n<p>Nesse contexto, tem-se que o art. 286, \u00a7 3\u00ba, do regimento interno da ALESE, n\u00e3o pode ser interpretado como uma via exclusiva, como se o desmembramento estivesse sob uma esp\u00e9cie de reserva de iniciativa popular, de forma que os pr\u00f3prios parlamentares estejam impedidos de provocar o Plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O dispositivo n\u00e3o emprega express\u00f5es como \u201cexclusivamente\u201d, \u201csomente\u201d ou \u201cprivativamente\u201d. Tampouco afirma que a solicita\u00e7\u00e3o popular elimina as prerrogativas parlamentares de iniciativa.<\/p>\n<p>Uma interpreta\u00e7\u00e3o diferente produziria resultado dif\u00edcil de justificar: uma norma criada para abrir \u00e0 popula\u00e7\u00e3o uma porta de acesso \u00e0 Assembleia seria convertida, sem previs\u00e3o expressa, em regra destinada a fechar essa mesma porta aos membros da pr\u00f3pria Casa. A participa\u00e7\u00e3o popular seria transformada em exclus\u00e3o parlamentar.<\/p>\n<p>Por essa l\u00f3gica, em casos como o de Sergipe, deve-se reconhecer a possibilidade de que um parlamentar, individualmente, apresente requerimento com vistas a que o Plen\u00e1rio da Casa Legislativa instaure o processo disciplinado pela LC n\u00ba 230\/2026. Sua aprova\u00e7\u00e3o dar\u00e1 in\u00edcio ao procedimento; sua rejei\u00e7\u00e3o impedir\u00e1 que ele comece por aquela via. O mesmo racioc\u00ednio poder\u00e1 ser considerado em outros estados quando as normas locais n\u00e3o estabelecerem, de modo expresso e inequ\u00edvoco, uma forma exclusiva de provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria legislativa do Estado refor\u00e7a essa compreens\u00e3o. A <a href=\"https:\/\/aleselegis.al.se.leg.br\/Arquivo\/Documents\/legislacao\/HTML_IMPRESSAO\/l1181948.html\">Lei estadual n\u00ba 118, de 29 de dezembro de 1948<\/a>, antiga Lei Org\u00e2nica dos Munic\u00edpios, com reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n\u00ba 525-A, de 25 de novembro de 1953, art. 8\u00ba, previa que a cria\u00e7\u00e3o de munic\u00edpio poderia ser provocada \u201cpor qualquer deputado\u201d ou por representa\u00e7\u00e3o dirigida \u00e0 Assembleia Legislativa e assinada por, no m\u00ednimo, 100 (cem) eleitores residentes ou domiciliados na \u00e1rea interessada.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o estadual j\u00e1 reconheceu, portanto, a conviv\u00eancia entre a provoca\u00e7\u00e3o parlamentar e a popular. Embora j\u00e1 n\u00e3o mais vigente, tem valor hist\u00f3rico e sistem\u00e1tico, no sentido de que o direito sergipano n\u00e3o concebeu necessariamente a participa\u00e7\u00e3o popular e a iniciativa parlamentar como alternativas excludentes.<\/p>\n<p>A jurisprud\u00eancia do STF corrobora a l\u00f3gica aqui exposta. Na ADI 724-MC, por exemplo, restou assentado que iniciativa reservada, por constituir mat\u00e9ria de direito estrito, n\u00e3o se presume e nem comporta interpreta\u00e7\u00e3o ampliativa. A exclusividade deve necessariamente derivar de norma constitucional expl\u00edcita e inequ\u00edvoca, e n\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o interpretativa destinada a ampliar uma restri\u00e7\u00e3o n\u00e3o formulada pelo constituinte ou pelo legislador.<\/p>\n<p>Essa orienta\u00e7\u00e3o foi reafirmada recentemente na ADI 5706, na qual se entendeu que as hip\u00f3teses de reserva de iniciativa legislativa n\u00e3o admitem interpreta\u00e7\u00e3o extensiva, sob pena de ofensa \u00e0 separa\u00e7\u00e3o dos Poderes e ao princ\u00edpio democr\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"jota-cta\"><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 muito o STF consolidou o entendimento de que as regras b\u00e1sicas do processo legislativo federal s\u00e3o de observ\u00e2ncia obrigat\u00f3ria pelos Estados-membros e munic\u00edpios (por exemplo, ADIs 2731, 1434, 822, 430, entre outras). Assim, se no plano federal a iniciativa popular n\u00e3o exclui as demais formas de iniciativa parlamentar e executiva (e pode versar sobre quaisquer mat\u00e9rias, incluindo as sob reserva do presidente da Rep\u00fablica), tampouco poderia faz\u00ea-lo no plano estadual.<\/p>\n<p>Em resumo, a LC 230\/2026 atribuiu \u00e0s Assembleias Legislativas o poder de iniciar o processo, mas n\u00e3o determinou exaustivamente quem pode levar ao colegiado a proposta de exerc\u00edcio dessa compet\u00eancia. Quando o direito estadual n\u00e3o estabelece uma forma exclusiva de provoca\u00e7\u00e3o, a legitimidade parlamentar para provocar o Plen\u00e1rio n\u00e3o pode ser afastada por presun\u00e7\u00e3o sob pena de viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da democracia representativa previsto no par\u00e1grafo \u00fanico do art. 1\u00ba da CF (\u201cTodo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constitui\u00e7\u00e3o\u201d).<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aprova\u00e7\u00e3o da Lei Complementar 230, de 15 de abril de 2026, abriu uma nova etapa para a solu\u00e7\u00e3o de conflitos territoriais entre munic\u00edpios brasileiros. A norma regulamentou uma hip\u00f3tese espec\u00edfica do art. 18, \u00a7 4\u00ba, da Constitui\u00e7\u00e3o: o desmembramento de parte do territ\u00f3rio de um munic\u00edpio para sua incorpora\u00e7\u00e3o a outro munic\u00edpio lim\u00edtrofe, dentro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24352"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24352\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}